sexta-feira, 2 de maio de 2014

de volta ao planeta dos macacos


De volta ao planeta dos macacos

 

 

           

Desde a famosa expressão cunhada pelo contista americano O. Henry, “República das Bananas” que não se fala tanto do fruto tropical com tanta frequência como no último mês. Isso tudo graças à atitude pitoresca do lateral da Seleção Brasileira e do Barcelona Daniel Alves. Seu gesto de pegar uma banana atirada no campo, provavelmente com referência racista, e comê-la foi no mínimo um estalo de genialidade. O que veio depois de sua atitude foi uma avalanche de manifestações acertadas e erradas que colocam a mostra um problema que a humanidade enfrenta desde sua existência. As diferenças. Mas não quero e não devo aqui analisar pontualmente nenhuma destas manifestações. Gostaria de falar sobre dois aspectos pouco explorados do evento, quais sejam:

Enquanto a maioria aplaudia de pé a atitude do jogador, uma reação foi destoante. A do pai de Daniel. Deixando de lado o simbolismo do ato e a repercussão causada, o pensamento paterno acusou para outra vertente do fato. E se a banana estivesse envenenada? Como você faz isso menino travesso? Papai não te ensinou que não se deve aceitar doces de estranhos? Vejam que outra atitude genuína. Que pai não se preocuparia? Que pai quer ter um filho herói e morto? Penso que poucos ou nenhum. Quando li a declaração do pai do jogador, fiquei em parte aliviado. Quando vi a cena pela primeira vez tive o mesmo pensamento. Esse menino é doido? Pegar uma coisa do chão e comer?! Quem é o pai dessa criança?! Por isso aplaudo de pé a atitude de Seu Domingos. Se fosse meu filho daria a mesma bronca.

Outra faceta que me impressiona no ocorrido é a velocidade com que as pessoas se manifestam sobre as coisas ultimamente. Até quem não comia banana postou fotos com a mesma. De comuns a artistas. Logo associaram aos macacos. Logo todo mundo era macaco. Logo muita gente não gostou de ser macaco. Logo os religiosos não queriam estar associados aos macacos. Logo os macacos disseram não serem humanos. Olha que miscelânea incrível. Acho que nunca na História mundial se misturou tantos elementos como futebol, bananas, macacos, religião, evolucionismo e internet. Fico extasiado como a globalização nos dá oportunidade de discutir um assunto tão recorrente da condição humana. Aí vem uma pergunta inevitável. Cenas como essa resolverão a questão da discriminação racial? Com certeza não. Mas de qualquer forma estamos falando e opinando sobre ela. E quando tivermos enfim resolvido essa parte, virão outras discriminações como de gênero, sexo, ideologia, religião, cultura, poder econômico e tantas outras. Mas uma coisa é certa. Não temos que tentar acabar com nossas diferenças. Temos que tentar conviver e ser tolerantes com elas. Imaginem o quão seria chato o mundo se todos fossem iguais?! E outra coisa certa é que essa tolerância não se fará em sete dias, afinal não somos Deus. E nem macacos.   

   

           

 

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 02 de maio de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sininho e a síndrome de Peter Pan

Sininho, Peter Pan e Black Blocs



Sininho e a síndrome de Peter Pan

 

           

 

            Não tem como deixar de escrever sobre a morte do cinegrafista atingido por um rojão essa semana. Top dez nos meios de comunicação do país e fora dele. Mas não se preocupem os leitores que não farei apologia à liberdade de imprensa e nem ao absurdo do vandalismo black blocs. Quero abordar um lado diferente.

Sem sombra de dúvidas os protestos ocorridos no ano de 2013 e que se estendem por 2014 são representação fidedigna da insatisfação da população para com seus governantes. E diria até com mais profundidade, uma insatisfação consigo mesma, visto que os governantes representam e são oriundos da mesma população. Mas esse é um tema que pode ser tratado em outra ocasião com mais propriedade. Sem sombra de dúvidas também, os protestos denotam a reação que há muito estava adormecida. Anestesiada. Hibernada. E ai com toda certeza sabemos que sempre na História desse país, os partidos, agremiações e movimentos ditos de esquerda, se aproveitaram dos protestos para empunhar sua bandeira e gritar suas palavras de ordem contra o capitalismo e coisas afins. Sempre vimos isso. E na maioria das vezes essas infiltrações acabaram em confusão e pancadaria. Quando não ocorreram fatos mais graves como sequestros, assaltos e assassinatos. Mas sempre em nome da liberdade e com o manual de guerrilha de Che debaixo do braço. Quando da época da ditadura militar, esses movimentos eram vistos com mais simpatia pelos mais jovens. As teorias esquerdistas estavam se espalhando pelo mundo e tinham casos de “sucesso” como Cuba, China e a ex U.R.S.S. para embasar a luta. Ainda tínhamos o malvado Tio Sam a ajudar na alimentação do monstro capitalista devorando a pobre classe proletária. Teorias e teorias que foram caindo por terra. Naquela época existia um orgulho velado de ser revolucionário. Mas essa juventude amadureceu. Hoje é a bola da vez do cenário político do país. Guerrilheira que virou Presidente. Sequestrador que virou Ministro. E tantos outros mais que brandiram as bandeiras vermelhas nos tempos de exceção. E como essas pessoas chegaram até o poder? Como conquistaram a aceitação popular? Explodindo bombas em protestos? Sequestrando e matando pessoas em nome da liberdade? Não. Essas pessoas chegaram ao poder se aproximando do centro. Tornando-se mais moderados. Notem que estou defendendo uma tese social e não fazendo juízo de valores sobre a correção dessas pessoas. E a sociedade amadureceu junto com esse processo. Hoje as pessoas querem ter o direito a protestar sem interferência partidária política. E condenam a violência infiltrada nesse direito de protesto. Todos percebemos isso. Não cabe mais em nossa sociedade as barbáries cometidas por ambos os lados nos anos de chumbo. Nós não aceitamos mais isso. Essas atitudes não nos representam. Então quando vejo a atuação dos black blocs tenho a certeza que não são cabeças pensantes. São buchas de canhão insufladas pelos velhos militantes da superada “esquerda revolucionária”. E aí quando vejo essa cidadã apelidada de Sininho e quem supostamente está por trás dela, só consigo pensar que existem pessoas que não conseguem amadurecer. Vivem de passado. Querem continuar a brincar de Peter Pan numa história onde o Capitão Gancho já morreu faz tempo.   

 

 

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 14 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A fuga espetacular

besta somos nós



A Fuga Espetacular

           

Roteiro filme de ação Hollywood

 

Nome: A fuga espetacular

Diretor: José Padilha

Música: Tarantela

 

Sinopse: Ator principal é um executivo bem sucedido de uma grande corporação financeira. Num belo dia algumas atividades ilícitas são descobertas e seu nome é imediatamente arrolado nas acusações. Ele tenta se defender de todas as formas, mas o cerco se fecha muito rapidamente. O caso adquire uma repercussão nacional e sua família e apontada na rua. Surge a ideia de uma fuga espetacular. Mas como evadir da justiça de seu país? Ele lembra então de sua dupla cidadania europeia. Uma parte do problema resolvido. Mas ainda resta a rota da fuga. Seu nome está em todas as listas policiais impedindo seu plano. Num átimo de segundo lembra-se de seu irmão morto há 36 anos. Surge a ideia de falsificar documentos utilizando o irmão. Maninho há de me perdoar. Consegue tirar a carteira de identidade em uma pequena cidade. Não levanta suspeita. O CPF e o título de eleitor são retirados em outra cidade diferente. E o cerco continua se fechando. Aproveitando que portava o título de eleitor do irmão, votou na eleição, afinal era um cidadão convicto de suas obrigações. Ou as obrigações do irmão. O cerco se fecha de vez e a polícia bate a sua porta com o mandado de prisão. Mas ele não iria para cadeia. Não ele um executivo bem sucedido. Começa então a fuga. Consegue sair do país portando os documentos falsos por uma cidade fronteiriça. Sem levantar suspeita. Vai para a capital de um país vizinho ao seu. Janta num belo restaurante onde come um bife de chorizo e toma um Malbec (liberdade poética). Retoma a fuga pegando um voo para uma capital europeia próxima ao seu destino final. Atravessa a fronteira, Deus sabe como, e chega ao país de sua outra cidadania. Esconde-se um tempo esperando abaixar a poeira. Tenta retomar sua vida como produtor de vinho (outra liberdade poética). É preso quando tomava café numa praça qualquer da Europa. E agora? Cena final se fecha deixando uma interrogação.

Deixar o desdobramento para um segundo filme. A negociação espetacular.

 

Sugestões para o roteiro

 

Ator principal: Henrique Pizolatto

País inicial: Brasil

País final: Itália

Países fuga: Argentina e Espanha

Ator principal continuação: Cesare Battisti

Financiamento do filme: Banco do Brasil

Besta: é tu!

 

“qualquer semelhança com fatos reais e mera coincidência”    

 

 

 Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 07/02/14

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

para o alto e avante

somente reflexões de um pai a espera da entrega do boletim dos filhos.




Para o alto e avante

 

            Chega o final de ano e com ele alguns eventos endêmicos. Daqueles que acontecem preferencialmente no mês de dezembro. Tipo confraternização, amigo secreto, show do Roberto Carlos e entrega de boletim de menino. Posso dissertar sobre os quatro temas com a maior facilidade, mas nenhum me provoca mais reflexão do que o último. Apesar de que o show do Rei sempre provoca muita reflexão. Mas, voltando ao assunto, estava eu hoje, junto com uma centena de pais, recebendo as notas de fim de ano dos filhos. É nesse momento que a porca torce o rabo. Culmina todo um ano de trabalho pedagógico. Desnudam-se as capacidades e deficiências desses pequenos seres, que aos olhos dos pais parecem perfeitos. Tá não exageremos... têm algumas deficiências, mas só nós podemos aponta-las. Como alguém se atreve a fazê-lo?! Respira. É nesse momento de reflexão, sentado aguardando ser chamado para falar com a professora, ou mesmo sentado diante dela, que divaguei. O que é educar um filho. Quais as responsabilidades de um ser imperfeito, no caso eu, em educar outro ser. O quanto da felicidade daquele pequeno ser depende desse ser que vos fala. O quanto do sucesso dele depende do que eu puder transmitir. O quanto eu só queria que eles fossem felizes. O quanto eu queria que tivesse um comprimido da boa educação (quem inventar fica rico). Há quem diga que educar filhos atualmente é mais complexo. Que o mundo é mais complexo. Que os perigos são maiores. Não sei se devo concordar. Seria como afirmar que Pelé foi o melhor jogador de todos os tempos sem vê-lo jogar no nosso tempo. Será que ele hoje, faria o mesmo sucesso? Penso que a análise não pode ir por esse caminho. Cada época tem sua complexidade e o homem evolui conforme a necessidade. Partindo desse princípio penso que meus avós foram criados com tanta complexidade quanto eu fui criado e meus filhos estão sendo. Se hoje nós temos a internet a atormentar a cabeça dos pais, outrora tivemos a ideologia política, o movimento hippie, os cabeludos Beatles, as grandes guerras e Caim. Há outros ainda que digam o contrario. Criar filhos nos tempos atuais é muito mais simples. Jogam grande facilidade na tecnologia e no conhecimento avançado. Mas esquecem-se esses, que assim como os pais tem acesso à informação, os filhos também o têm. Então continuamos empatados. Alias, os educadores tem que correr muito mais para não ficar para trás diante da fome de conhecimento desses meninos. Crianças que hoje são educadas e no futuro educarão. Terão também essa missão árdua e ao mesmo tempo gratificante. Quais serão as dificuldades pelas quais eles passarão quando chegar seu tempo? Só o tempo dirá. Hoje de manhã, na entrega dos boletins, recebi mais notícias boas do que ruins. Isso mostra que o caminho é árduo mas parece certo. Como recompensa sairei mais cedo do trabalho e assistirei a um filme com eles. Com direito a pipoca e refrigerante. Qual o filme escolhido? Levarei a primeira versão de Superman de 1978. Por incrível que pareça eles gostam de filmes da época de seus pais. E eu gosto de ver as carinhas deles achando tudo engraçado. Porque os tempos podem ser distintos, mas o afeto os une.

 

 
 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 13/12/13

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ser ou aparecer? Eis a questão

passando pelo mundo virtual uma notícia chamou-me a atenção. Não pude deixar de escrever sobre.


Ser ou aparecer? Eis a questão

 

 

            Senta que lá vem história.

 

            Era uma vez um garoto de classe média nascido no estado de Ontário no longínquo Canadá. Os pais, precocemente, notaram no pequeno menino uma aptidão musical. Aos três anos já dominava a bateria e aos seis, o violão. Tudo girando ali no círculo familiar, pois a mãe, cristã fervorosa, tinha medo de incentivar a veia artística do filho temendo os vícios e perdições do meio artístico. Melhor seria tocar na igreja. Mais seguro. Fora alguns concursos locais de talentos, o garoto seguia sua vida corriqueira canadense. Quando tinha por volta de treze anos, sua mãe resolveu gravar suas atuações na voz e violão e postar no YouTube, visando que seus parentes próximos escutassem o jovem mancebo. Assim feito e assim postado. Foi aí que um fenômeno começou a mudar a vida do jovem pré-adolescente. A internet. Pessoas do mundo todo começaram a acessar os vídeos. Mamãe já estava preocupada, mas continuou com as postagens. Foi então que, por acaso, um empresário do mundo da música se deparou com um dos vídeos. Encantou-se. Procurou o jovem talento e com ele celebrou um contrato. Sua fama se espalhava. Viral. Contratos milionários e contatos com famosos. Todos queriam conhecer o fenômeno. Tudo muito rápido. Foi indicado a vários prêmios musicais e sua fortuna pessoal não parava de crescer. Tudo na mesma proporção que seus vídeos foram assistidos no YouTube. Como um rastilho de pólvora. Diziam alguns meios de comunicação que sua influência nas redes sociais era maior que a do Presidente dos Estados Unidos e do Dalai Lama. Tinha um séquito de milhares e milhares de fãs ardorosas e sedentas por qualquer coisa que se referisse a sua figura. Brigavam, batiam e matavam por ele. Não desmerecendo seu talento musical (nem merecendo), mas tudo imensamente impulsionado pela internet. O catalisador que pode potencializar.

 

            Era uma vez o mesmo cantor. Rico e famoso. Fenômeno de popularidade na internet. Resolveu fazer uma turnê em um país latino. Foi recepcionado pelo orbe de fãs enlouquecidos. Todas o queriam. Todos o queriam. Mas como a maioria dos adolescentes resolveu se divertir um pouco. Afinal essa vida de pop star cansa de vez em quando. Acometido de um senso de imputabilidade comum às celebridades, resolveu pichar um muro em zona nobre da cidade onde fazia show. Olha a ideia de jerico. Foi flagrado pelas câmaras de um fotógrafo que talvez tenha feito a vida somente com essa foto. Num átimo de segundo a notícia se espalhou pela internet. Viral. Uns acharam um absurdo. Outros acharam divertido. Outros acharam fantástico. Todos acharam alguma coisa. Comentários pipocaram nas redes sociais. Trend Topics. Não satisfeito, o pop star foi flagrado saindo de uma “casa de massagem” com duas “amigas”. Não sei se o mesmo fotógrafo, mas também irrelevante o fato. Fotos e vídeos pipocaram novamente pela internet. Mais uma vez o cantor tornou-se pivô dos comentários do mundo virtual. Bateram recordes e recordes de acesso as notícias bombásticas. Assim como a vendagem de seus discos. Tudo numa proporção geométrica até que surgisse outro viral que iria desbancar seu trono. Até que surgisse outro artista coletado nas vias do YouTube ou Face book ou Twitter ou Istagram ou qualquer coisa que venha sucedê-los. E quem sabe, um dia, o jovem fenômeno voltasse ao Canadá ou acabasse sua vida afundado nas drogas e na ilusão de retorno da fama outrora conquistada. Tudo culpa da internet. O vírus que pode destruir.

 

Era uma vez a mãe de um menino. Que pensava em criar seu filho como toda boa mãe cristã. Ama-lo, protege-lo e educa-lo. Mas a criança conheceu o mundo virtual. Foi amor à primeira vista. E ele sucumbiu. E ela perdeu. Nesse momento não consigo deixar de me colocar no seu lugar. Pai. Guardadas as devidas proporções. Travando dia a dia uma luta insana contra a internet. O catalisador que pode potencializar. O vírus que pode destruir.

 

(qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. Ou não)          

                       

 

 

 Texto produzido para a Revista Foccus

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta, 08 de novembro de 2013

sábado, 2 de novembro de 2013

e por falar em saudade...

Shakespeare disse uma vez:
"Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente."



AMOR INCONDICIONAL

 

 

Ontem quando cheguei em casa senti uma vontade imensa de abraçar minha filha. Parecia uma desejo vindo de dentro, como um alento para meu coração apertado. Quando ela me viu, correu com um sorriso no rosto e me abraçou como se a saudade não coubesse mais dentro de seu coraçãozinho. Eu a abracei e fiquei por um instante com a sensação de que aquele momento poderia se eternizar e nunca mais me separaria dela. Se pudesse fazer um pedido a Deus naquele momento, mesmo que fosse um pedido insano, ele seria para que um pai nunca precisasse enterrar seu filho. Mas como Deus não me permite pedidos insanos, pedi a Ele então, um alento para os pais que acabavam de enterrar o seu, apesar também de saber que esse pedido dificilmente iria ser atendido.

 

Ontem quando vi as lágrimas correrem nos olhos de muitos, quando vi a consternação estampada no rosto de todos ao verem um pai e uma mãe conversarem com seu filho como se ele ainda estivesse vivo, lembrando a si mesmos quantos momentos bons haviam passado juntos, me lembrei que fazia muito tempo que não abraçava os meus pais. Que fazia muito tempo que não dizia a eles o quanto os amava. E me lembrei que eu ainda tinha essa oportunidade diferente do filho que jazia imóvel diante das lágrimas dos seus.

 

Ontem quando fui dormir, não conseguia tirar de meu pensamento o quarto vazio que havia deixado aquele filho. Derramei mais uma lágrima imaginando a dor de seus pais ao entrarem naquele quarto e não encontrarem mais seu filho. Somente objetos. Somente lembranças. O quarto de minha filha também estava vazio aquela noite. Ela estava dormindo comigo. Nem que fosse por aquela noite. Eu podia sentir seu calor e sua respiração tranquila. Olhei para ela e segurei sua mão com força como numa tentativa insana de acalentar dois corações distantes que não tinham mais aquela aportunidade.

 

 

* em memória de Tiago de Melo.

 

Guilherme Augusto Santana


Goiânia, 17/03/2008

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ah a danada da saudade...

Sempre quando vai chegando a data de finados  se aproxima a danada da saudade. São pessoas especiais que fazem falta na vida de todos nós. Quem não tem uma avó como a Ná (que apresentarei p/ quem não conhece) em sua vida e se recorda sempre com uma sensação boa? Com a permissão do leitor postarei uma crônica escrita em 2006 por conta do falecimento da minha avó. Ao lerem pensem nos seus entes queridos que deixaram saudades.




 

 

         Quem não conheceu a Ná não sabe o que é biscoito de queijo quente servido a qualquer hora do dia ou da noite. Podia estar entupido de comida que se não se servisse de pelo menos um, era desfeita. Mal entrava e já escutava: vou “quentar” uns biscoitos, antes mesmo do “bença” e do “Deus te abençoe”. Por isso que a mesa tinha que ser grande: em um canto a canastra e em outro, sempre a postos, o lanche da Ná. Quem não conheceu a Ná não sabe o que é o autêntico frango com quiabo e angu lá do interior de Minas. Servido com jogos de mesa completamente descombinantes: talheres de um jogo, pratos diferentes. Nenhuma peça igual à outra. Deve ser fruto dos seus muitos anos de casamento e da mania adquirida do Agenor de não jogar nada fora. Quem não conheceu a Ná não sabe o que é rezar o terço à maneira dos Santana: O Moreno disparado na frente e a Natália tentando diminuir a marcha. Logicamente que entre uma Ave Maria e um Pai Nosso faziam o planejamento do dia em voz alta e tinham as pequenas discussões sobre dinheiro. Nunca entendi como eles não se perdiam no meio do terço. Anos de prática.

        

Mas, quem conheceu a Ná, saiu muitas vezes de sua casa cheio de pacotes de bolacha ou uma lata de doce em calda que fazia parte da sua dispensa. Mas escutou muitas vezes também o Agenor gritar de lá que não ia mais dar dinheiro p/ fazer supermercado porque ela dava tudo para os outros. E ela se intimidava? Que nada. Falava: “esconde este pacote de bolacha que depois eu tiro dinheiro da carteira dele e compro mais”. Mesmo que não gostasse da bolacha era ótimo presenciar esta cena. Quem conheceu a Ná sabe que não se podia falar mal de nenhum filho dela, nem mesmo de brincadeira. Partia logo em defesa, mesmo sabendo que o acusado tivesse aquele defeito. Às vezes fazia só para ver a reação dela. Parecia uma leoa em defesa dos filhotes.

        

Agora, quem gostava da Ná, sabe que a data do Natal a partir de agora perde um pouco o seu brilho, porque há seis anos perdemos o Capitão e agora perdemos a motivação para seguir navegando. Sabe que agora só restam saudades mesmo. Sabe que o presépio, os presentes, as músicas, o parabéns não mais voltarão a acontecer, só nas nossas recordações. Quem gostava da Ná sabe que vai ficar um vazio, uma cadeira vazia, um quê de não me deixe, uma sensação de que a vida não será mais a mesma sem ela. Mas sabe também que ela deixou uma semente, aliás, deixou uma plantação inteira de amor, dedicação, carinho e fé. E isso é o que fica.

        

Oh Moreno ! Arruma o canto da mesa aí, que o biscoito quente e o café estão subindo.

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 23/02/2006

 

* Crônica escrita em memória de Natália Barbosa Reis, minha avó.