sexta-feira, 19 de junho de 2015

NYC continua...


NYC continua...

 

            NYC continua sendo a única cidade do mundo que é reconhecida somente com as iniciais. Ah não sabe de que cidade estou falando?! Conta outra! Logo virão os fanáticos californianos dizerem que LA também o é, mas o meu corretor ortográfico não entende assim. Logo arruma para LÁ. Já a sigla de NYC ele mantém do jeito que está. Incólume. Absoluta. Assim continua sendo a cidade. Receptiva com seus habitantes e com seus visitantes. Mesmo que tenha cicatrizes ainda doloridas. Mas não se fazem de rogado. Não se deixam abater. Constroem parques e memoriais sobre suas feridas. Edifícios mais altos para mostrar que são fortes. Mas ao mesmo tempo frágeis como a árvore que resta apoiada em cabos de aço como testemunha do atentado de 2001. Continua sendo o celeiro de povos. Caldeirão de etnias. Sabores, cores, aromas e idiomas que se misturam em cada esquina como numa torre de babel. Uma desordem ordeira. Onde tudo tem regra. E cada cidadão faz questão de seguir essa ordem. NYC continua sendo a cidade mais americana e menos americana da América. Sempre.

 

            NYC continua um caos no trânsito. Mas que metrópole não é? Aproveite para andar de metrô. Garanto que se locomoverá com maior velocidade e facilidade. Ao invés de esperar duas horas para andar dez quadras de taxi, se embrenhe pelos subways nova iorquinos que a recompensa é certa. Entre passantes e pisantes poderá encontrar joias da arte popular em apresentações de street dance e jazz. E se der muita sorte (tipo sorte da Mega Sena) poderá esbarrar com Bono Vox e The Edge tocando em qualquer das estações. Mas se não encontrar, mesmo assim poderá esperar o trem com entretenimento de primeira. E não precisa ficar com receio do emaranhado de linhas de metrô. Basta ter paciência de olhar com mais atenção os mapas. E de preferência abaixar um aplicativo com o mapa das rotas. Organizado e simples. E nada melhor que a sensação de parar na estação Times Square e subir as escadas avistando a efervescência das luzes dos letreiros. Coisa de cinema. Ande a pé também. Alias em determinados momentos não tem outra alternativa. Assim poderá ver a miscelânea da arquitetura. Catedrais góticas, prédios corporativos curvos, edifícios de tijolo aparente e suas escadas externas. Cada passo uma descoberta. Descubra também as pessoas. indianos, ucranianos, mexicanos, chineses, brasileiros.  Cada um com sua indumentária, com sua face característica, com seu passo e sua cultura. Mas apesar do caos de veículos e pessoas, a cidade continua incrivelmente limpa. Raramente se nota meios fios quebrados ou tampas de bueiro fora do lugar. Calcadas perfeitas para transito de pedestres. Cidade dos pedestres. NYC continua sendo um caos harmônico. Sempre.              

             

            NYC continua sendo um paraíso da gastronomia. Ah esse assunto eu domino. Tem para todos os gostos. Do mais renomado restaurante estrelado como o Blue Hill à melhor comida de rua como o Halal Guys. Alias não consegui comer no primeiro por falta de verba e no segundo porque a fila estava impraticável. Mas está valendo. Quer uma dica? Ouça as dicas. Do tipo: “tem um sanduiche no lobby do hotel Meridien detrás de uma cortina de veludo vermelho que é de comer ajoelhado”. Quase literalmente, porque o local é tão pequeno que o negócio é comer de pé mesmo. Ou ainda: “vá ao Chelsea Market e coma uma dúzia de ostras com uma cerveja IPA daquelas de amargar o fundo da língua e depois veja o pôr do sol do Highline Park”. Coisas de tirar o fôlego (as ostras a IPA e o pôr do sol). Alguns locais continuam sendo a coqueluche do momento. O Eataly continua imperdível. Mas anda jorrando gente pelo ladrão. Brasileiro então... Quer um plano B? Suba até o 14º andar e almoce na birreria (cervejaria em italiano) recém-inaugurada. Vai se sentir numa roof party. E, além disso, poderá experimentar a famosa DogFish. Meio cerveja e meio reality show. Agora não se assuste ao pagar a conta. NYC continua sendo uma cidade cara. Ainda mais com o essa cotação horrenda do dólar. Mas se de tudo não quiser gastar muito coma um hot dog na rua mesmo. Existe para mais de mil. Satisfação garantida. NYC continua sendo a cidade da comida. Sempre. 

 

            NYC continua sendo a cidade da cultura. Quer assistir uma peça? Tem. Quer assistir um balé? Tem. Quer ir a um museu? Tem também. Mas não são quaisquer peças, balés e museus. São os melhores do mundo. Tem coisas para fazer que daria uma vida inteira. Mas se quiser repetir pode também. O museu de História Natural, por exemplo, pode-se permanecer por lá uns 2 dias ou 22 anos. Tem coisa para ver e se surpreender. As peças da Broadway cada dia se superando. Quer assistir um show man em ação? Vá ver Alladin. Pensa num gênio da lâmpada que dança, sapateia, canta e encanta. Agora se estiver interessado em algo mais erudito pode assistir a um balé no Metropolitan Opera. Espetacular. Só a arquitetura do local já vale o ingresso. E se de tudo não tiver com verba disponível para bancar um desses, vá a Times Square porque lá o espetáculo é certo. De música de rua a atores andando seminus com seus corpos pintados. Diversão em cada esquina. NYC continua sendo a capital do entretenimento. Sempre.  

 

            NYC continua sendo tudo isso e mais um pouco. Continua sendo Central Park e suas locações de filmes. Continua sendo Times Square e sua profusão de luzes e pessoas. Continua sendo a estátua da liberdade e a ponte do Brooklyn restando impávidos na baia. Continua sendo as lojas de grife da 5ª Avenida e os brechós da 7ª. Continua sendo o Empire State Building e o King Kong. Continua sendo o Rockefeller Center e o Wall Street. Continua sendo o Carnegie Hall e o Metropolitan Opera. Continua sendo dos americanos e do mundo todo. Continua sendo arrebatadora de corações como o do que vos escreve nesse momento. Continua sendo NYC. Always.

 

             

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 19 de junho de 2015
 


terça-feira, 16 de junho de 2015

A conquista da América


A conquista da América

 

 

            Começo essa crônica com os olhos rasos d´água. Assim como estavam no dia da apresentação. Mas não se preocupem que são de alegria. De realização de pai. Daquele sentimento que vai brotando do coração e afeta dois pontos em especial. Os lábios com o sorriso e os olhos com a lágrima. Se todos ao meu lado não estivessem no mesmo estado de transe em que me encontrava, juro que teria pedido por um beliscão. O que acontecia era coisa quase inacreditável. Crianças subindo ao palco de um dos maiores expoentes da música mundial. Mas não eram quaisquer crianças. Eram músicos que estavam treinando em exaustão por um semestre inteiro. Mas não estavam apresentando quaisquer músicas. Tocaram peças de compositores brasileiros. Mas não era qualquer casa de música. Era o Carnegie Hall em Nova Iorque. E isso tudo só começou a fazer sentido quando passando pelos corredores da casa, pude ver quadros dos que haviam se apresentado lá. Não precisava legenda para nominar. Beatles, Edith Piaf, Frank Sinatra e Louis Armstrong. E agora minha filha. Os nossos filhos. Vocês conseguem abarcar a dimensão disso que estou tentando narrar em meio às lágrimas que me atrapalham? Eu também achava que tinha até entrar na sala de espetáculos e ver o piano solitário criar vida com os acordes dos talentosos e privilegiados pianistas que ali se sentavam. Coisa de gente grande. O pai se tremia todo na cadeira da plateia enquanto uma criança de nove anos deslizava seus dedos pelas teclas de marfim como se fosse habitual e corriqueiro. Fez parecer fácil. Mas não era. Lembrei-me de todo o esforço dos treinos. Das horas ausentes das brincadeiras dedicadas aos estudos. Das aulas, audições, saraus e apresentações exaustivas. Comia música, dormia musica, respirava música. Camargo Guarnieri, autor das músicas que ela interpretou, já era parente bem próximo. Como se fosse da família. Alias família foi que ganhamos em toda essa cruzada. Pais, mães, avós, tias, amigos e professores que se tornaram família por uma semana. Os que estavam presentes realmente e virtualmente. Uns cuidando dos outros como se filhos e pais fossem. Cada um vibrando com a vitória dos seus, dos outros e dos nossos. Sim! Dos nossos. Somos uma família ligada pelo estrondoso sucesso. Ligados pelo coração. Ligados pelos brindes nos almoços e jantares. Ligados pelos risos e prantos de alegria. Ligados pelos hospitais (mas só de vez em quando). Ligados pela brisa quente do central Park. Ligados pelas luzes da Times Square. Ligados pelo carinho dos professores. Esse um capítulo a parte. Mestres no sentido literal da palavra. Acolhimento, ensinamento e engrandecimento. Ligados pela gratidão. Ligados por um fio invisível que nos tornou fortes e grandes. E se hoje, ao escrever essa crônica, meus olhos se enchem de lágrimas, assim como se encheram no dia da apresentação, é porque sei que não vivi essa emoção só. Vivemos essa emoção. Um furacão tropical musical arrebatou Nova Iorque. A América nunca mais será a mesma depois desse 10/06/2015. Nem nós. Bravo! Bravíssimo!        

             

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, terça feira 16 de junho de 2015
 
 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Você tem fome de lado B?


Você tem fome de lado B?

 

 

            Mario Vendeiro era conhecido comerciante de Santa Maria, cidade satélite de Brasília, temido pela balança duvidosa que tinha em cima do balcão de sua venda. Funcionava como um cassino. Se ele fosse com a cara do cliente a balança respeitava mais ou menos o peso original. Agora se não fosse com a cara do cliente... ai pesava na medida. Mas não era para menos. Tinha chegado da sua longínqua Paraíba quando da inauguração da capital federal em 60 com uma mão na frente e nenhuma atrás, pois era maneta. Tinha cometido um erro na serraria onde trabalhava, pretendendo cortar só um dedo para solicitar aposentadoria por invalidez, mas a imperícia lhe custou a mão toda. Menos mal, pois conseguiu seu intento de aposentadoria. Porém ficou mal visto entre os empregadores da cidade e teve que sair corrido para a capital federal onde recomeçaria a vida como um desconhecido paraíba. Aplicando pequenos golpes aqui e ali conseguiu dinheiro para montar a Venda Madre Tereza no povoado de Santa Maria. O nome foi sugerido pela esposa como uma tentativa de mascarar a má fama que o marido tinha no trato comercial com os clientes. Vai que a Santa abençoa e ninguém descobre os lampejos de furto do Mário né? Ou ainda melhor! Vai que a Santa abençoa e o marido fica rico?! Por isso Seu Mario Vendeiro jogava no jogo do bicho toda semana. Para tentar ajudar o trabalho da Santa. Mas não havia ainda sido aquinhoado com o prêmio grande. Somente algumas quirelas. Que sorte é essa? Ruminava ele a um cliente que entrava na pequena venda. Foi nesse momento que percebeu um movimento suspeito na porta do estabelecimento. Um cidadão mal feito estava tentando surripiar uma manta de carne de sol que pairava sobre a pequena estufa de tela verde que ficava na calçada. Produto “artesanal” que Seu Mario comprava sem nota fiscal e sem procedência de um cidadão que furtava gado na divisa com Goiás. Botou a única mão que tinha no ombro do cliente que se encontrava do outro lado do balcão e num salto longo, coisa quase não permitida pela idade e limitação física, saltou por sobre o balcão e correu em busca da captura do meliante. Quase numa cena cinematográfica se embolaram no meio da calçada como novelo de lã o que resultou no rendimento do ladrão. Instaurada a confusão. Ajuntamento de gente foi pouco. Naquela hora da manhã quase não havia passantes pelo local, e os poucos que se encontravam não queriam saber de confusão. Chamada a polícia e entregue o usurpador de carne, limpou o avental e voltou ao trabalho. Sempre tivera horror de ser roubado. Fazia uma força danada para esconder seus pequenos delitos, e agora neguinho vinha querer tirar uma com a cara dele? Aqui não ladrãozinho! Pediu desculpas ao cliente que ainda se encontrava petrificado a beira do balcão, mas não sem antes esbravejar o bordão que o acompanhava: que sorte é essa?

           

Mario Eletricista foi colocado no porta malas da viatura policial como um pedaço de carne. Mal conseguia erguer a cabeça de tanta raiva. Era eletricista de formação, mas devido à crise econômica e a preguiça de correr atrás de emprego, andava vivendo ultimamente de pequenos bicos e ocasionalmente de pequenos furtos. A raiva era pelo fato das pessoas o estarem olhando como se fosse um bandido da pior espécie. Naquele momento lembrou-se do filho de 12 anos que o esperava em casa com alguma coisa para forrar o estômago. Tinha dois dias que não comiam praticamente nada. Na verdade ele tinha saído cedo para fazer um bico na casa do Alaor padeiro. Consertar uma tomada que estava dando curto. Mas quando passou pela venda e viu a carne dando sopa, resolveu facilitar as coisas. Ademais o Seu Alaor era um chato. Contratava um serviço e exigia tudo limpo ao final. Onde já se viu isso? Eu sou eletricista e não faxineira! Dizia ele sempre. Além disso, tinha a mulher do padeiro que era feia tal igual o cão e ficava se insinuando para ele toda vez que ia fazer um conserto. Perguntava sempre se sua chave de fenda era grande. Ele até gostava das brincadeiras de duplo sentido, mas encarar a broa mal assada do padeiro estava fora de cogitação. Por isso, quando viu a carne na venda, resolveu encurtar caminho. Certamente não fará falta ao vendeiro e fará uma tremenda diferença na minha mesa. Pensou. Olhando para os lados para ver se não ninguém observava e aproveitando que um cliente estava ao balcão atrapalhando a visão do proprietário da venda, abriu a porta da estufa e lançou mão no pedaço de carne. Foi quando viu o homem que estava detrás do balcão, num salto plástico, alcançar e derrubar ao chão. Carne humana e de sol. Depois disso se lembrava de muito pouco. A raiva bloqueou seus pensamentos. Como se deixou dominar por um senhor com o dobro da sua idade e ainda por cima maneta?! Amaldiçoou internamente o vendeiro. E o pior é que o pagamento do Bolsa Família tinha saído no dia anterior e ele estava reservando parte do dinheiro para comprar mantimentos para casa, mas acabou gastando na banca do bicho. Fazer uma fezinha para ver se multiplicava o dinheiro e resolvia de vez sua situação de penúria. Jogou no macaco. Deu burro. Só conseguiu proferir mais uma vez a frase antes que o porta malas se fechasse em um som surdo sobre sua cabeça: que sorte é essa?

           

Mario Policial era agente. Tinha passado no último concurso da policia na cota racial. Não pestanejou nem uma vez na hora de marcar na ficha de inscrição. Negro/Pardo. Apesar de sua tez branca, quase amarelada. Tinha até descendente japonês. Dizia sempre que se tinham cotas para negros, porque não haveria para amarelos? Que sorte é essa? Pois estava de plantão na delegacia no momento que a viatura estacionou no pátio. Mais um meliante que não teremos onde colocar. Pensou. Fingiu uma dificuldade para andar para chegar por último à viatura e trabalhar menos. Mal conseguia enxergar o rosto do sujeito. Não levantava a cabeça. Olha pra mim rapaz! Esta com vergonha do mal feito? Agora não adianta mais! Botou banca para mostrar quem mandava no pedaço. Sempre agia assim para estabelecer limite aos meliantes. Era uma maneira de tentar suprir a total falta de preparação para exercer o cargo. Aliás, preparado mesmo para a função ali na delegacia não tinha quase ninguém. Com exceção da Dona Maricota, a cozinheira, que era super preparada e fazia um feijão de comer ajoelhado. Vivia botando culpa de tudo no Estado. É a falta de preparo dos agentes, é o sucateamento das viaturas, é a ineficiência das armas... sem contar a estrutura física que estava caindo aos pedaços. Costumava dizer que aquela cidade era esquecida do mundo. Que sorte é essa? Dizia sempre aos colegas. Foi nesse rompante que começou o interrogatório do meliante. Começou em termos porque o cidadão não parava de chorar. Trás um copo de água com açúcar pro homem Dona Maricota! Pra ver se ele acalma. Acalmou. Contou. Desfiou o rosário de suas mazelas. Destramelou, como se diz no interior, a falar. Exagerou que só ele. Falou do filho que passava fome, da mulher que estava doente, do Bolsa Família que tinha atrasado, da falta de emprego. Só parou quando percebeu que tinha atingido seu objetivo. Consternação geral. Foi quando Mario Policial teve uma ideia casual. Vamos fazer uma vaquinha e pagar a fiança do pobre coitado. Comoção geral. Todos queriam colaborar. Propôs ser o caixa e contribuir com sua parte. Pois a derrama se realizou e Mario Policial, como de costume, se eximiu do seu quinhão de colaboração. Juntou o dinheiro dos colegas e pagou a fiança. Propôs ainda que fizessem um extra de arrecadação e comprasse mantimento para o eletricista. Mais uma vez sua ideia foi louvada e acatada. Assim foi feito e mais uma vez ficou incumbido da compra e entrega dos mantimentos. Utilizando-se dessa desculpa pediu dispensa do restante do dia para cumprir a missão filantrópica. Seu pedido foi deferido e o policial saiu com o dinheiro no bolso. Passando pela banca do jogo do bicho resolveu parar e tentar a sorte. Apostou o seu dinheiro e o da vaquinha. Jogou na vaca. Deu burro. Perdeu. Desolado com a má sorte saiu a caminhar pela rua e resolveu parar na venda para tomar umas e esquecer os desalentos “jogatícios”. Nem percebeu que entrara no estabelecimento de Seu Mario Vendeiro. Tinha conta pendurada lá. Tinha até guardado o dinheiro para quitar a dívida, mas havia perdido na vaca. Mentiu ao comerciante sua disposição em pagar a conta, mas que havia feito uma boa ação com o dinheiro naquele dia e que pagaria o que devia no recebimento do próximo salário. Seu Mario Vendeiro, escondendo a decepção e a desconfiança da veracidade da conversa engoliu a justificativa e perguntou o que o levara a gesto tão nobre. O policial contou que na hora pensou em seu próprio filho e em suas atitudes caso o menino estivesse passando fome. Seu Mario encheu os olhos de fúria sem identificar que o cidadão era o mesmo que havia tentado furtá-lo mais cedo. E não há de ver Seu Mario que o rapaz ainda vai responder processo por furto?!?! Que sorte é essa? Emendou o policial pensando na sua má sorte no jogo. Seu Mario foi obrigado a concordar pensando na conta do policial que continuaria pendurada. É o que sempre digo: que sorte é essa?            

   

* essa é uma estória de ficção

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 22 de maio de 2015


 

 

Policiais civis de Brasília que se sensibilizaram com a história do homem que furtou para alimentar o filho descobriram nesta sexta-feira (15) que o eletricista Mário Ferreira Lima já tinha três antecedentes criminais por furto em comércio no estado de Goiás, todas de carne. Lima nega que tenha cometido os crimes, disse que realmente passa por necessidades e declarou que não quer comentar o assunto.

(G1 16/05/2015)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Você tem fome de que?



Você tem fome de que?



Mario Vendeiro era conhecido comerciante de Santa Maria, cidade satélite de Brasília, respeitado por sua rigidez com os bons costumes e pelo coração mole com as mazelas do povo sofrido. Mas não era para menos. Tinha chegado da sua longínqua Paraíba quando da inauguração da capital federal em 60 com uma mão na frente e nenhuma atrás, pois era maneta. Comeu o pão que o diabo amassou para arrumar ofício, pois sabia no máximo cuidar da criação de fazenda. O trabalho na edificação do sonho de JK tinha a contribuição do seu suor, sangue e juventude. E foi com trabalho pesado que ele juntou um dinheirinho e montou a Venda Madre Tereza no povoado de Santa Maria. O nome foi sugerido pela esposa em referência a Madre que dedicou sua vida aos pobres e necessitados, como uma critica ao marido pela benevolência e o coração mole que ela entendia excessivos. Se não fosse essa moleza do Mario, já seríamos ricos. Contava a esposa a todos que passavam na rua a lhe dar bom dia. Mas Seu Mario era assim. E assim ia tocando a sua vida de correção e solidariedade. Para que ficar rico? Dizia ele. De que vale aquele povo com tanto dinheiro e egoísta para com o próximo? Que justiça é essa? Ruminava ele a um cliente que entrava na pequena venda. Foi nesse momento que percebeu um movimento suspeito na porta do estabelecimento. Um cidadão mal feito estava tentando surripiar uma manta de carne de sol que pairava sobre a pequena estufa de tela verde que ficava na calçada. Produto artesanal que Seu Mario produzia no quintal de casa, aprendido com a mãe que era sertaneja. Botou a única mão que tinha no ombro do cliente que se encontrava do outro lado do balcão e num salto longo, coisa quase não permitida pela idade e limitação física, saltou por sobre o balcão e correu em busca da captura do meliante. Quase numa cena cinematográfica se embolaram no meio da calçada como novelo de lã o que resultou no rendimento do ladrão. Instaurada a confusão. Ajuntamento de gente foi pouco. Naquela hora da manhã quase não havia passantes pelo local, e os poucos que se encontravam não queriam saber de confusão. Chamada a polícia e entregue o usurpador de carne, limpou o avental e voltou ao trabalho. Sempre fora muito solidário com as misérias humanas, mas não admitia o delito. Sua vida sempre fora exemplo de retidão. Pediu desculpas ao cliente que ainda se encontrava petrificado a beira do balcão, mas não sem antes esbravejar o bordão que o acompanhava: que justiça é essa?
Mario Eletricista foi colocado no porta malas da viatura policial como um pedaço de carne. Mal conseguia erguer a cabeça de tanta vergonha. Era eletricista de formação e
nunca havia se imaginado naquela situação. As pessoas o olhando como se fosse um bandido da pior espécie. Naquele momento lembrou-se do filho de 12 anos que o esperava em casa com alguma coisa para forrar o estômago. Tinha dois dias que não comiam praticamente nada. Na verdade ele tinha saído cedo para fazer um bico na casa do Alaor padeiro. Consertar uma tomada que estava dando curto. Mas dera com a cara na porta. O padeiro anoiteceu e não amanheceu. Um vizinho contou ao eletricista que foi coisa de traição da esposa e que Seu Alaor não aguentou o falatório do povo. Evadiu-se com a família. Mas Mario Eletricista não queria saber da vida particular de ninguém. Sua preocupação era levar comida para casa. Como o bico não deu em nada o jeito era procurar outra solução. Foi quando passou em frente à Venda Madre Tereza e viu uma manta de carne pendurada na estufa. Olhou para dentro do estabelecimento e viu o dono encoberto por um cliente. Num segundo de bobeira o mal tomou sua cabeça. Abriu a porta da estufa e lançou mão no pedaço de carne. Foi quando viu o homem que estava detrás do balcão, num salto plástico, alcançar e derrubar ao chão. Carne humana e de sol. Depois disso se lembrava de muito pouco. A vergonha bloqueou seus pensamentos. Nunca tinha se apossado de nada que não fosse seu. Nem mesmo nos meses em que a esposa passara doente e a família passara por momentos de privação extrema. Tinha seu ofício e dele se orgulhava. Quando a esposa melhorou culminou a crise econômica. Não tinha emprego. Preferiu que a mulher fosse morar com um filho de outro casamento. Não tinha condição de sustenta-la em recuperação. Mas ficou com a incumbência de cuidar do filho adolescente. E assim, às duras penas, ia fazendo. Teve inclusive que se inscrever no plano de ajuda do governo. Bolsa Família. Odiava e se envergonhava disso. Como um trabalhador como eu pode se sujeitar as esmolas do governo? Que justiça é essa? Dizia ele. Agora com a lembrança do filho que estava sozinho em casa a espera de comida, ele era jogado dentro da viatura. Só conseguiu proferir mais uma vez a frase antes que o porta malas se fechasse em um som surdo sobre sua cabeça: que justiça é essa?
Mario Policial era agente. Estava de plantão na delegacia no momento que a viatura estacionou no pátio. Mais um meliante que não teremos onde colocar. Pensou. Com dificuldade para andar por conta de um ataque de gota, foi até o local e ajudou a retirar o homem de dentro do porta malas. Mal conseguia enxergar o rosto do sujeito. Não levantava a cabeça. Olha pra mim rapaz! Esta com vergonha do mal feito? Agora não adianta mais! Botou banca para mostrar quem mandava no pedaço. Sempre agia assim para estabelecer limite aos meliantes. Era uma maneira de tentar suprir a total falta de preparação na academia de polícia. Aliás, preparado mesmo para a função ali na delegacia não tinha quase ninguém. Com exceção da Dona Maricota, a cozinheira, que
era super preparada e fazia um feijão de comer ajoelhado. Fora a falta de preparo dos agentes tinha também o sucateamento das viaturas e a ineficiência das armas. Sem contar a estrutura física que estava caindo aos pedaços. Costumava dizer que aquela cidade era esquecida do mundo. Que justiça é essa? Dizia sempre aos colegas. Foi nesse rompante que começou o interrogatório do meliante. Começou em termos porque o cidadão não parava de chorar. Trás um copo de água com açúcar pro homem Dona Maricota! Pra ver se ele acalma. Acalmou. Contou. Desfiou o rosário de suas mazelas. Destramelou, como se diz no interior, a falar. Só parou quando percebeu que ninguém mais falava. Só havia cara de consternação. E o pior. Ficaria preso pois não tinha dinheiro nem para comida, quanto mais para a fiança. Mario Policial já era calejado desse tipo de situação, mas nunca havia escutado uma história tão sincera e emotiva. Fez o impensado. Tirou dinheiro do bolso e pagou a fiança do preso. Os colegas policiais, também em estado de solidariedade, prometeram fazer uma vaquinha e comprar alimentos para Mario Ferreira e o filho. Levariam mais tarde em sua casa. Despediram-se com um aperto de mão afetuoso e o ex-preso seguiu o rumo de casa. Na saída o policial olhou o homem se afastando e pensou que o eletricista ainda responderia processo por furto, mas tinha certeza que nesse momento isso não passava por sua cabeça. Tinha certeza que o homem só tinha desejo de abraçar seu filho em casa. Foi nesse interim que Mario Policial resolveu que não trabalharia mais naquele dia. Pediu dispensa do serviço. Queria também ir para casa abraçar seu filho. Liberado pelo Delegado saiu a caminhar pela rua e resolveu parar na venda para levar uns mimos para casa. Nem percebeu que entrara no estabelecimento de Seu Mario Vendeiro. Tinha conta pendurada lá. Tinha até guardado o dinheiro para quitar a dívida, mas havia disposto de todo o numerário para pagar a fiança do eletricista. Contou ao comerciante sua disposição em pagar a conta, mas que havia feito uma boa ação com o dinheiro naquele dia e que pagaria o que devia no recebimento do próximo salário. Seu Mario Vendeiro, coração mole, assentiu da justificativa e perguntou o que o levara a gesto tão nobre. O policial contou que na hora pensou em seu próprio filho e em suas atitudes caso o menino estivesse passando fome. Seu Mario encheu os olhos de lágrimas sem identificar que o cidadão era o mesmo que havia tentado furtá-lo mais cedo. E não há de ver Seu Mario que o rapaz ainda vai responder processo por furto?!?! Que justiça é essa? Desabafou o policial. Seu Mario emendou concordando. É o que sempre digo: que justiça é essa?
* essa é uma estória de ficção


Guilherme Augusto Santana
Goiânia, sexta feira 15 de maio de 2015
santanagui@hotmail.com

"Após tentar furtar 2kg de carne em um mercado de Santa Maria, o desempregado Mário Ferreira Lima foi preso em flagrante. Mas a polícia se comoveu com a história do rapaz: depois que ele contou a história de vida dele, policiais pagaram a fiança e ainda fizeram compras para a família. Entregaram os mantimentos nesta terça-feira (13/5), na casa do suspeito, no Jardim Ingá, cidade do Entorno do DF."
(Correio Brasiliense 14/05/2015)


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Du Queiroz Du Anzóis


Du Queiroz Du Anzóis

 

            Eduardo Queiroz, Du Queiroz para os íntimos, era contabilista. Orgulho só da formação. O pai queria que ele tivesse feito Direito. A mãe que ele continuasse tocando oboé. Resolveu diferenciar. Contabilidade foi o que resultou. Já saiu da faculdade empregado. Uma grande empresa de construção, entre as cinco maiores do país, tinha o privilégio de tê-lo em seus quadros. Pelo menos era assim que pensava. Autoestima era seu forte. Digamos que se gabava um pouco em excesso disso. Aliás, se gabava de um bocado de coisa. De como não tinha ficado nenhum dia desempregado. De como trabalhava em uma grande empresa. De como tinha todos os benefícios trabalhistas previsto em lei. De como tinha bônus por produtividade no fim do ano. De como tinha um bom relacionamento com seus colegas de trabalho. De como tinha uma noiva paciente que namorava há 12 anos. Mas principalmente de como era exímio pescador. Ah nisso ele subia no banquinho e entoava estórias fascinantemente suspeitas de suas peripécias piscosas como se interpretasse uma ópera. Tenor. O pessoal do lava jato da esquina do seu trabalho era o público preferencial. Chegava a ficar horas a fio desfiando o rosário de tambaquis, pacus, caranhas e piranhas (de salto inclusive) que faziam parte do seu currículo. E em seu redor se formava uma roda dos funcionários a escutar as prosopopeias contadas com tanta riqueza de detalhes. O dono do lava jato, Seu Vacaro, por vezes ficava irritado e tentava fazer a dispersão, mas o fazia de forma sutil, pois não queria perder o freguês. Era conhecido no estabelecimento como Du Anzóis, um apelido bem humorado colocado pelo gerente do lava jato que era o chefe da resenha. E Eduardo se gabava disso também. De ter um apelido tão ligado a sua pessoa. Gabava-se também do veículo que tinha comprado com os tais bônus de fim de ano. Era completo. Air bag, ABS, ar condicionado e tudo. Tinha postergado seu casamento com Rita por conta da aquisição do carro. E das pescarias que fazia com os amigos todo ano. Sabe como é né? Não sobra dinheiro para o casório. Mas a noiva era paciente e mantinha o Santo Antônio em cima da geladeira para tentar antecipar o evento. Se bem que por vezes ela achava que pinguim é que ficava em cima da geladeira e talvez o santo não estivesse gostando do local de sua estada e tivesse dando uma gelada na noiva. Mas por via das dúvidas ficava por ali mesmo até que subisse ao altar. Uma das coisas que Du mais se gabava, fora a pescaria, era de ser um funcionário exemplar. Não me meto onde não sou chamado, dizia sempre na pausa para o café. Fazia o seu trabalho e pronto. Não questionava nada. O chefe mandava assinar os documentos e ele obedecia de pronto. Nem se preocupava em ler, afinal esses documentos de contabilidade são muito chatos e repetitivos. Foi assim com esse tom de galhardia que entrou na sala do diretor da empresa, logo na primeira hora da manhã, após ser convocado para uma conversa. Provavelmente receberia um elogio, ou até quem sabe um aumento. Autoestima pura. Pois não foi assim que saiu do escritório do chefe com dois papeis assinados. O aviso prévio e uma convocação do oficial de justiça para prestar esclarecimentos sobre uma tal operação policial. A empresa em que trabalhava estava sendo investigada pela Polícia Federal por corrupção. Lavagem de dinheiro. Logo aquela empresa que lhe garantia todos os benefícios trabalhistas. Os de lei e os de mérito. Ele custou a acreditar. O que diria para Rita? O que diria aos amigos? Como pagaria as dez prestações restantes da pescaria do ano anterior que foi dividida no cartão de crédito? Desceu as escadas do prédio macambúzio remoendo seus pensamentos e nem percebeu a entrada de agentes da PF no escritório. Apreenderam tudo. Até a máquina de café. Até o porta retrato com a foto da Rita e do Pirarucu de cinquenta quilos que estava sobre a sua mesa. Até a sua dignidade. Entrou no lava jato cabisbaixo. Sem chamar a galera para a resenha habitual. Todos estranharam. Esperavam pelo momento das estórias. O dono do lava jato se preocupou. Inquiriu. Ele contou. Seu Vacaro se assustou. Mas essa empresa? Pois é. Mas você? Pois é. Compadecido com a situação do contabilista o dono do lava jato disse que se quisesse tinha emprego para ele ali no estabelecimento. Não na gerência como a capacidade e formação de Eduardo. Nem com os direitos trabalhistas todos, porque assinava só metade da carteira trabalhista e o resto era pago por fora. Nem com os bônus de final de ano. Mas tinha. E era o que podia oferecer. Com um sorriso amarelo na boca Du Queiroz agradeceu e disse que aceitava. Precisava. Começaria no outro dia. Primeiro daria a notícia a noiva e tentaria colocar os pensamentos em ordem. Logo ao raiar o sol já havia se apresentado no novo emprego. Lavador de carro. Logo no café e pão com margarina dos funcionários do lava jato já começou a se formar a roda para escutar as estórias. Mas dessa vez Seu Vacaro dispersou a turba e mandou todos voltarem ao trabalho. Aqui é lava jato, mas não é atrapalhado igual vocês estão achando não! E volte ao trabalho Seu Du Anzóis que meu dinheiro não é capim! E assim todos voltaram as atividades como de costume. E assim começava o primeiro dia de Eduardo no seu novo trabalho. Sorriso na cara e autoestima estampada nos dentes. Afinal ele era brasileiro, e brasileiro não desiste nunca.   

      

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 08 de maio de 2015

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Prioridade


Prioridade

 

            Quando escuto a expressão “isso é cláusula pétrea da Constituição” chega dá um arrepio no pé da nuca. Lá vem assunto polêmico. Assim na mesma classificação de aborto e pena de morte. E lá vem também assunto longo. Discussão que não acaba mais e não convence a todos de maneira igual. É o que temos passado nos últimos dias ao discutirmos a redução da maioridade penal no Brasil. Há algum tempo atrás, nem se cogitava conversar sobre esse assunto, porém a escalada da violência serviu de plataforma eleitoral de muitos (e coloca muitos nisso) para incluir na pauta o tal assunto polêmico. Confesso aqui minha dúvida em relação à eficácia ou não dessa medida. E olha que tenho lido um bocado sobre o assunto e me considero uma pessoa aberta a argumentações de todos os flancos. São muitas dúvidas e poucas certezas a permear esse assunto que envolve não só os jovens infratores, mas toda a sociedade civil. Há os que argumentam que a redução da maioridade trará o crime para idades menores ainda, visto que os meliantes poderão utilizar crianças abaixo de 16 anos como escudo em suas ações. Pode ser. Há os que argumentam que a redução da maioridade diminuiria essa sensação de impunidade quanto ao jovem infrator e inibiria o uso desses jovens como escudo em crimes. Pode ser. Há os que dizem que o sistema carcerário está falido e abarrotado não suportando a quantidade de presos e muito menos uma nova leva de jovens na faixa pretendida pela redução da maioridade. Pode ser. Há os que falam que medidas tem que ser tomadas contra a violência, pois a sensação de impunidade provoca caos social. Pode ser. Há os que argumentam que os presídios são fábricas do crime e que a ida de mentes jovens e sem proteção para esses locais culminaria em irresponsabilidade flagrante. Pode ser. Há os que ponderam que tendo o jovem de 16 anos direito a voto, escolhendo assim os governantes do seu país, teria o discernimento suficiente para responder por crimes e ser condenado por tais. Pode ser. Há os que constatem que em vários países onde a maioridade foi reduzida, houve um retrocesso e se voltou ao status inicial após a constatação do erro. Pode ser. Mas quer saber uma unanimidade? Aquilo que todos concordam? A solução está na educação. Atitudes repressoras e punitivas são consequência e não causa. São necessárias sim. Nisso tenho certeza que todos concordamos. Uma sociedade por mais civilizada que seja não pode se abster de seus meios repressores e punitivos, pois a noção de cidadania varia de cidadão para cidadão, e os julgamentos de delitos prescinde desses meios para se fazerem eficazes. Parece bem clichê o que disse aqui sobre a educação, pois muitos argumentariam que isso é utópico, mas prefiro acreditar que cada passo que damos para o lado do perfeito deixamos de lado um pedaço do imperfeito. O que não podemos é almejar que esse salto para a educação seja dado de uma vez como por um processo milagroso. Não existem milagres na educação, senão paciência, persistência e exemplo. Então independente de qual lado “vença” essa batalha pela maioridade penal, todos nós temos que trabalhar para a melhoria da sociedade. E para isso só temos um caminho: educar nossos filhos. Prioridade.       

  

    

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 17 de abril de 2015

sexta-feira, 10 de abril de 2015

vaticinium


vaticinium

 

            “A revolta começou entre 10 e 18 de novembro mais ou menos. Apesar do perigo iminente da doença, parte da população não aceitou a campanha de vacinação proposta pelo governo. Um misto de falta de informação e excesso de crenças levou a várias manifestações contrarias a admissão da vacina. Um dos motivos principais foi um boato infundado de que a vacina atentaria contra os princípios religiosos dos cidadãos de bem.”

 

            Um desavisado poderia ler o trecho escrito acima e deduzir que se trata da discussão atual sobre a campanha de vacinação contra o vírus HPV instituída pelo Governo Federal desde o ano de 2014. Porém o período de dias do mês de novembro citado refere-se ao ano de 1904, ano em que aconteceu no Brasil, mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina. Na época a guerra estava sendo travada contra a varíola, que provocava baixas pelo mundo todo e no país não era diferente. O então jovem médico sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu que o Congresso aprovasse a Lei da Vacina que tornou obrigatório o processo de vacinação de toda população. Esse termo obrigatório foi levado ao pé da letra sendo dado salvo conduto aos agentes sanitaristas para adentrarem as residências e efetuarem o procedimento mesmo que a força. Diante desses fatos e tendo como pano de fundo o desconhecimento dos efeitos da vacina e como pano de frente o atentado a religiosidade, visto que os boatos de que a vacinação de mulheres seria feita em suas partes íntimas, necessitando que as mesmas ficassem despidas diante dos agentes, fez com que a população se revoltasse e chegasse a pegar em armas contra a legião de sanitaristas e soldados que foram destacados para cumprir a determinação da lei. O saldo final da revolta compreendeu 30 mortos, 110 feridos e mais de 1.000 detidos. Praticamente uma guerra urbana. Mesmo diante da insatisfação e revolta popular flagrante, o governo prosseguiu com o intento e promoveu a vacinação em massa e em pouco tempo a varíola estava erradicada do país. Esse fato, juntamente com o desenvolvimento da vacina contra a febre amarela, ajudou a elevar o nome de Oswaldo Cruz ao panteão da ciência mundial.

 

            Pois vamos às analises. Não pretendo aqui discutir tecnicamente a eficiência ou não da vacina contra o HPV até porque não tenho conhecimentos técnicos suficientes para tal, e esse não o objetivo primaz da análise.  O que pretendo salientar e questionar são os argumentos ainda usados no Brasil do século 21. Apesar de passados mais de 100 anos de fatos como a Revolta da Vacina ainda nos deparamos com “desculpas” no mínimo ultrapassadas e carcomidas pela evolução dos tempos. São pais alegando que não vacinarão suas filhas por recearem a antecipação da vida sexual das mesmas (como se uma simples picada de agulha tivesse um poder catalisador perante os hormônios da juventude) e homens alegando que também não o farão por serem casados e consequentemente fieis à suas esposas (como se o casamento apagasse toda a vida sexual pregressa e desse atestado de fidelidade). Tudo travestido de moral e religiosidade. Isso sem contar os adeptos das teorias da conspiração que acham que as doenças são criadas pelos laboratórios para vender vacina. Argumentos que no meu entendimento reforçam a tese de que a necedade e a ignorância são as piores armas para se usar no campo das ideias, principalmente quando elas vêm disfarçadas de princípios religiosos e morais. Ideias antigas e ultrapassadas que parecem emergir de séculos passados. Nem Dr. Oswaldo Cruz deve ter vaticinado que isso aconteceria de novo. Deve estar revirando em seu túmulo nesse momento.    

   

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 10 de abril de 2015