terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

pausa para ver as nuvens


Pausa para ver as nuvens

 

          Hoje de manhã, como de costume nos últimos seis meses, madruguei no aeroporto. Munido de mala de mão e mochila, já decorei os apelos da companhia aérea alegando que o avião está com alta ocupação, então entra por um ouvido e sai pelo outro. Vou despachar mala não. Tenho que chegar no destino, sair correndo do avião, alugar o carro e partir para o objetivo, qual seja, trabalhar. Por isso sento impreterivelmente no corredor mais à frente. Desembarque, quando autorizado, somente pela porta dianteira. Tudo cronometrado. Levo um livro de Logosofia para estudar e o computador para adiantar o serviço a bordo. Saco do fone de ouvido, isolo-me do ambiente, ligo o PC e quando vejo já estamos pousando no destino. Nada longo. Hora e pouco de voo, mas como tem se tornado constante, utilizo o avião como escritório. O máximo que desconcentro é para atender o serviço de bordo oferecendo água e dar um bom dia ao companheiro da poltrona vizinha.

          Mas hoje de manhã foi diferente. Entrei no avião primeiro (por conta do cartão de fidelidade da companhia aérea e não por ser da fila “P” de prioridades prevista por lei. Ainda não), sentei como de costume no corredor à frente, pluguei o fone de ouvido no canal de notícias, abri o computador até o fecharem portas da aeronave. Os aparelhos eletrônicos devem ser mantidos em modo avião. E vai entrando gente. E de repente chega meu companheiro de fila. Pede licença, e eu numa rapidez meteórica, recolho fone, computador, levanto, dou passagem e me sento novamente. Abro o computador e recoloco o fone de ouvido. Eis que surge a primeira frase do cidadão: “é a primeira vez que ando de avião. Será que cai?”. Os pensamentos logo pulularam na minha mente, pois responder à pergunta naquele momento batia de frente com meu “way of flylife”. Mas como percebi que o senhor (depois vim saber que ele tinha a mesma idade minha. Será que as pessoas também me veem como um senhor?)  estava meio nervoso, retirei os fones, fechei o computador novamente e tentei falar algumas palavras de conforto: “calma senhor, eu viajo toda semana e o avião nunca caiu”. Logicamente que minha intenção era finalizar aquela conversa ali e voltar à programação normal. Ledo engano. Foi aí que o homem destampou a falar. Descobri que era da cidade de Belo Jardim, estado de Pernambuco. Pertinho de Caruaru. Mas estava morando em Gurupi, Estado do Tocantins. Contou-me que era professor de música lá. Dava aulas para crianças. Contratado como temporário pelo município. Explicou-me a diferença entre funcionário público concursado e contratado por tempo determinado. Falou-me que dava aula de qualquer instrumento mas era bom mesmo nos de sopro. Explicou-me sobre teoria musical e a dificuldade de se tocar bateria. Falou que saiu da cidade natal por conta de um amigo major do exército que o tinha convidado para ser professor de música. Disse ainda que o dito major tinha capotado o carro na estrada quando tinha ido busca-lo para a mudança. Capotou o carro com a esposa e o filho de dois meses dentro. Ninguém havia se ferido. Ele mesmo queria ser militar. O cidadão. Mas tinha sido dispensado na junta militar da cidade natal. Antes tivesse se alistado na capital. Falou que a aposentadoria de militar era boa. Que eu devia colocar meus filhos na escola militar para estudar música. Lembrou-me mais uma vez que era a primeira vez que voava de avião. A esposa dele também nunca tinha voado e pediu que ele ligasse quando chegasse ao destino. Estava preocupada. E tinha um filho de cinco anos. E reclamou quando peguei uma balinha do serviço de bordo alegando que levaria para meus filhos: “se eu soubesse tinha pegado uns cinco pacotes para meu filho. Será que precisa guardar na geladeira?”. Perguntou a aeromoça. Ela explicou com toda paciência que não. Relatou logo após que tinha saído de Gurupi de ônibus até Palmas. Passagens todas compras com dinheiro emprestado do amigo major. Pagaria em suaves prestações. De lá avião até Goiânia. De Goiânia um voo até Belo Horizonte. De BH outro voo até Recife. Um amigo do irmão o pegaria de carro e levaria até Caruaru. De lá o irmão o levaria a Belo Jardim. Fiquei com pena: “mas para que essa saga?”. Baixou o tom da voz e disse que tinha falado para a mãe ao telefone: “mãe, não deixa papai ir. Segura ele”. Estava indo para o enterro do pai. A pena triplicou. Perguntou o que eu fazia. Engoli seco e respondi sem graça que trabalhava com cemitérios. Ele espantou-se. Contou dos irmãos. Vários. Um já tinha morrido. Bebia demais. Era o único musico entre todos. Olhou as nuvens e perguntou que altura estávamos. Mostrei o mapa na tela. Indagou porque voar acima das nuvens. Tentei explicar. Disse que as nuvens pareciam feitas de algodão. De repente calou-se e dormiu. Por hora esqueceu a agonia de voar pela primeira vez tentando chegar ao enterro do pai a tempo. Pensei logo em retomar minha jornada habitual, mas as nuvens me chamavam a contemplação. Brancas e macias como algodão. Havia me esquecido disso. Dessa sensação de fazer algo fora do script. De passar prazo observando as coisas triviais da vida. E assim fiquei até ele acordar no pouso. De novo a preocupação do que fazer em seguida. Tentei tranquiliza-lo. Iria ajudar. Descemos e logo busquei informações do voo dele que seguiria até Recife. Ainda tinha duas horas de espera no aeroporto. Eu permaneceria em Belo Horizonte. Perguntou se no outro voo serviria almoço. Tive que lhe dar a má notícia que no máximo balinhas de gelatina e goiabinha integral. Ele estendeu a mão. Agradeceu. Desejei-lhe boa viagem. Parti. Ele ficou. Em mim uma sensação de querer ficar mais lá e escuta-lo. Deixar o computador e os fones dentro na mochila, tomar um café demorado e saber mais da sua vida. Mas faltou a resolução. Virei as costas e segui meu rumo. Mas não sem antes olhar pela janela da sala de embarque e pensar que há tempos não observava as nuvens. Como eram parecidas com algodão. Brancas e macias.

               

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, terça-feira 26 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

sobre cores e opções


Sobre cores e opções

 

 

Hoje fui acometido de uma dúvida atroz. Comentar ou me abster sobre a polêmica declaração da nossa nova Ministra de Direitos Humanos e afins. Sabe aquela do “menino veste azul e menina veste rosa”? Se não está ciente melhor pesquisar no youtube porque foi trend topics. A cena é no mínimo hilária. Parece aquelas provocações de criança quando ganha no pique pega e quer curtir com a outra. Tipo: “eu ganhei e você perdeu!! Ná, ná, ná, ná, ná! Você é feio e bobo!! Ná, ná, ná, ná, ná!”. Mas, independente da cena cômica, a minha dúvida em relação a escrever ou não sobre o assunto veio exatamente do que dizer. Ou não dizer. Dizer da infantilidade da declaração? Falar sobre os conceitos totalmente retrógrados? Que tal sobre a tolerância e respeito para com a diversidade? Ou sobre o Estado laico? Talvez pudesse raciocinar no sentido de coerência de discurso, afinal nada está sendo dito o contrario do que foi prometido em campanha. Ou poderia dizer dos inimigos imaginários que o governo se propõe a combater como a diversidade de gênero e o socialismo. Ou poderia tentar explicar sobre definição de socialismo e de como estamos num país capitalista selvagem. Ou mais ainda em como isso se torna uma cortina de fumaça sobre o que realmente interessa para a população brasileira. Poderia dizer que não esperava algo diferente? Ou seria pragmático demais? Será que poderia dizer que tenho camisas rosas no meu armário e sou hetero? Ou isso causaria mais desinteligência? Ou isso não tem nada de relevante? Poderia levantar a fala de que o discurso de união confronta veementemente com esse tipo de atitude revanchista? Afinal foi uma atitude revanchista ou infantil? Ou as duas? Ou néscia? Ou inteligente? Podemos voltar à cortina de fumaça? Ela encobre o que? O medo do governo de não “estar com essa bola toda” quando tentar aprovar as reformas? De dar amplitude aos latidos dos cães enquanto a caravana passa? Ou simplesmente porque estamos passando por uma fase “tentativa, erro e acerto”? Poderia dizer que a isca foi lançada e nós mordemos? Que cada enxadada será uma minhoca? Ou que teremos tempos bicudos pela frente? Poderia dizer tanta coisa ao mesmo tempo para uma simples declaração? Ou não dizer nada pela declaração irrelevante?

Ao final de toda essa algazarra de perguntas e não respostas, resolvi perguntar a minha filha de treze anos o que ela tinha achado da declaração. Talvez viesse daí uma luz. Sabe o que ela respondeu?

- Para uma Ministra de Direitos Humanos ela está errada. Todos temos o direito de usar azul ou rosa. Eu uso o que eu quiser. Até roupa transparente se quiser.

É isso. Na simplicidade a melhor resposta. Voto com a relatora.

 

 

ps. Papai não deixa sair de roupa transparente não. Foi só uma metáfora dela. Espero.

        

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 04/01/2019

terça-feira, 25 de setembro de 2018

eles não


Eles não

 

          Na eminencia de uma nova eleição para presidente, e diante da situação periclitante da campanha, esse cronista resolveu, diferentemente de sua trajetória, opinar com maior veemência. Espero que o possa fazer de maneira democrática como é inerente ao nosso princípio constitucional, sem derramamento de sangue com facadas ou derramamento de ódio por represálias. Afinal é somente a opinião de um cidadão eleitor.

          Lembro-me da eleição de Fernando Collor. Recém egressos de períodos de chumbo, queríamos retomar as rédeas do nosso direito cívico depositando em urna a vontade de uma nação. Por isso tantos candidatos a esse protagonismo surgiram. Todos querendo ser esse que figuraria como o primeiro presidente pós regime de ditadura militar. E a eleição do então jovem político alagoano refletia isso. Um grito contido na garganta. O desenrolar da história mostraria que a decisão talvez não tenha sido acertada, mas era muita empolgação para um momento histórico. Talvez tenha faltado experiência, mas nunca juízo.

          E depois desse recomeço turbulento veio o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Nesse momento mais economista do que propriamente social. Era o que a população ansiava. A estabilidade econômica após malfadados planos Bresser, Verão, Cruzeiro, Cruzado Novo, congelamento de poupança, entre outras experimentações e aberrações. Era só isso que queríamos. Elegemos um presidente que representava essa estabilidade. Essa oportunidade de conseguirmos enxergar um futuro. Talvez tenha faltado opção, mas nunca juízo.

          Eis que surge o presidente mais popular do Brasil após JK. Não sem antes ter tomado um banho de loja, de bons modos e de ótimos marqueteiros. Era a esquerda, finalmente, assumindo as rédeas do país. O metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva ascendia ao posto máximo da nação após várias tentativas. Era o triunfo da classe operária com aval do empresariado. Depois da estabilidade econômica viria o galopar rumo ao desenvolvimento e ao protagonismo mundial. Chegamos a sentir o gosto de sermos a bola da vez. Talvez tenha faltado clarividência, mas nunca juízo.

          A primeira presidente do Brasil foi festejada em verso e prosa. Passava da hora das mulheres assumirem esse papel principal. Mesmo que fosse uma mulher que batesse a mão na mesa como um homem. Para fugir da alcunha de fantoche, Dilma Rousseff bateu mais que a mesa podia suportar. Num presidencialismo de coalizão, a mesa precisa estar de pé, senão o presidente cai. E diante da sua falta de capacidade de articulação, característica primaz da natureza feminina, o seu mandato ruiu diante da crise financeira e institucional. Mais um impeachment no currículo do país. Talvez tenha faltado firmeza, mas nunca juízo.   

           E aí chegamos na encruzilhada da história brasileira. Literalmente em frangalhos. Só a capa do Batman e em pé de guerra. Os caminhos estão à nossa frente e precisamos decidir por onde ir. Direita de Bolsonaro ou esquerda de Haddad. Diametralmente opostos. Indubitavelmente incertos. Igualmente danosos. E diante do cenário pergunto: ainda temos tempo de optar por um caminho de centro mais equilibrado? Tenho medo da resposta e do resultado. Porque nesse momento não está faltando aos brasileiros experiência, opção, clarividência e nem firmeza, mas pelo visto está faltando juízo. 

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de setembro de 2018

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

o menino, a bola e o perdão


O menino, a bola e o perdão

 

          Nada mais comentado essa semana que finda, que o pedido de desculpas gilettiano do menino Ney. Olha que a metáfora vem bem a calhar já que o mesmo cortou dos dois lados. Ou seja, provocou reações ambíguas nas pessoas. Não sendo unanimidade, resta-nos a análise.

Eu estava lá no intervalo do Fantástico. Eu vi. Não me contaram. Querem que lhes diga o que senti? Emocionei-me. Fiquei tocado por aquela mensagem. Achei-a de uma coragem fora do comum. Logicamente que após o enternecimento, veio a razão ponderar os fatos. Uma propaganda em cadeia nacional, o patrocínio milionário, uma certa presunção de ídolo do povo, uma estratégia de marketing. Todos os fatos pulularam em minha mente e a conclusão do positivismo ou não do ato não ficou claro. Resumindo. Fiquei como a grande maioria dos brasileiros. Dividido. Talvez o fiel da balança tenha sido a emoção que senti quando assisti o comercial. Quando a razão não consegue julgar o fato, entregue-o a sensibilidade. Ela quase nunca erra. Não o sentimentalismo barato da comoção. Mas aquela sensibilidade que vem do fundo da alma. Essa manda pagar o cheque. E eu acabei pagando.

          Mereço ser crucificado por ouvir meu coração? O menino Ney o merece? Essa pergunta pontuou minha análise sobre todo o processo. Não só o polêmico pedido de desculpas, mas todo o processo que o jogador vem passando ao longo de sua carreira e a nossa última frustrada tentativa de conquista do hexa. E a conclusão que já tinha chegado é que Neymar não merecia essa pecha de responsável. E muito menos ser execrado em praça pública. Suas deficiências como jogador já estavam gerando consequências a sua carreira. O exagero de suas quedas resultou em um exagero de memes, piadas, escárnios. Mas esse não foi o maior dano. O arranhão em sua credibilidade como jogador restou na maior das consequências. Brincadeiras de internet passam, mas as cicatrizes na credibilidade demoram a sarar. E no fundo, no fundo, o pedido de perdão em cadeia nacional veio para tentar resgatar um pouco dessa credibilidade perdida. Mas as consequências estão aí. Visíveis. E com certeza um pedido de perdão, por mais sincero que seja, não fará com que as mesmas cessem. Aliás, no meu entendimento, não há necessidade desse pedido. Inócuo. Não concordo com o perdão de outrem. Agora a própria redenção de Neymar, o auto perdão, essa sim importante, ele só obterá com o tempo. Pensando e melhorando suas atitudes em campo, evoluindo como ser humano e fazendo o que sabe melhor. Jogando futebol. Então... bola para frente menino!                          

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 03 de agosto de 2018

sexta-feira, 27 de julho de 2018

o canudinho da vez


O canudinho da vez

 

          Estava levando a filha mais velha aos inúmeros lugares que eles vão nas férias, quando escutei alguma coisa sobre a campanha de abolição do canudinho plástico no rádio. Confesso que não tinha pensado a fundo no significado daquilo até aquele momento, mas como a filha tinha recém passado por um episódio de compadecimento por uma causa, resolvi lhe perguntar sobre o assunto. Logicamente que ela me respondeu: “legal”. Não satisfeito pedi que discorresse mais sobre os porquês. Ela explicou do lixo e da morte de tartarugas por conta dos artefatos, até então inofensivos, de plástico. Depois da conversa pus-me a refletir sobre o assunto e os convido a fazer o mesmo. Com certeza é legal uma campanha para evitar a morte de tartarugas por asfixia. Não é? Tenho certeza que quase ninguém seria contra. Mas vamos dar profundidade nisso? Antes do canudinho ser considerado vilão mor da sociedade mundial, foram as sacolas plásticas. E antes delas foi o gás de geladeira. E antes dele foi o petróleo. E assim teceremos uma lista infindável de condenados de crime ambiental. Agora a pergunta nevrálgica seria: Como esses artefatos foram parar nas vias aéreas de uma tartaruga, ou nas vias gástricas de um golfinho ou até mesmo nas penas de uma ave migratória? Eles apareceram lá por milagre? Quando fazemos essa pergunta e notamos que existe uma cadeia imensa entre usar o canudinho e o mesmo ser encontrado em um cadáver de tartaruga, chegamos a conclusão que o simples fato de usarmos um artefato de plástico não reflete em quase nada o problema. E aí bate-me, não sei se em vocês ocorreu o mesmo, uma sensação de que estou sendo usado numa campanha no mínimo rasa. O meu compadecimento foi usado nisso. Cheguei a olhar torto para os canudinhos. Mas refazendo-me do sentimentalismo, vejo que na verdade, estamos culpando a vítima. Não a tartaruga, mas o canudo. Visto que o verdadeiro culpado disso tudo somos nós. Olha que conclusão interessante. Ou você sabe exatamente o que é feito com o lixo depois que sai da sua casa? Ou você acompanha toda parte de reciclagem e tratamento dos resíduos que provocamos? Não né? Nem eu. E isso estamos falando só de lixo já produzido. Pensa no consumismo de maneira geral e no que isso reflete de absorção de recursos naturais. Sentiu o drama? E aí vem a conclusão mais importante de toda essa prosopopeia: Deveríamos fazer uma campanha para mudar o ser humano, não os canudos de plástico. Aliás, a campanha deve começar dentro de cada um. Uma auto campanha. Somos responsáveis incondicionalmente pelos nossos atos e pelas consequências dos mesmos. Eu sou responsável por mudar minhas atitudes e entregar um cidadão melhor a sociedade. Cada um o é. Senão, como diria Marcelo D2, lava as mãos como Pilatos achando que já fez sua parte. Pensemos.           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sábado 27 de julho de 2018

perder e ganhar


Perder e ganhar

 

          Quando vi a filha chorando copiosamente não resisti ao ímpeto paterno de consolá-la. Desses ímpetos que trazemos junto com o instinto, mas que é potencializado imensamente pela sensibilidade. Queria dar colo, queria explicar, queria relativizar, queria tirar a decepção com a mão. Sim decepção. As lágrimas caiam de pura e singela decepção. Era a primeira Copa do Mundo que ela acompanhava com dedicação. Com afinco (sorte a dela não o ter feito nos 7x1). Gritava vai Phillipe, dribla Neymar, avança William como gente grande. Que entende o que diz. Por isso o choro valia. Cada lágrima valia. E ela só queria verte-las. E o pai só contê-las. Ou tentar pelo menos. Mostrei-lhe a bandeira que carregava desde a Copa de 94. Mais derrotas do que vitórias. Contei da seleção favorita de 82 e do fiasco de 90. Narrei os gols da França na final de 98 e da mesma em 2006. Falei da Holanda em 2010. Todos entalados na garganta. Mas ela continuava no choro copioso. Não tinha passado por aquilo. Não sabia quem eram Caniggia, Paolo Rossi, Zidane, Henry. Sabia que a sua Seleção tinha sido eliminada. A sua Seleção. E por isso chorava. Aí o pai percebeu que as decepções não podem ser explicadas, narradas, inculcadas. Devem ser vividas, sentidas, assimiladas. Assim como as vitórias. Por mais que eu explicasse a sensação do pênalti perdido por Baggio, ou o gol de falta de Branco contra a Holanda ou ainda a falta de Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra, ela não sentiria o gostinho do que foi. A sensação. O êxtase. Têm coisas na vida que carecem de explicação. Ou não tem explicação. Ou são explicáveis por si só. Ou sentidas. Assim são as alegrias e decepções da vida. Vitórias e derrotas. E olha que estamos só falando de futebol aqui, sendo que a regra se estende por praticamente tudo. No momento que entendi, deixei que ela chorasse. As lágrimas foram feitas para serem vertidas. Nos momentos de alegria e de tristeza. Porque elas expressam e curam. Até que o luto vire saudade e a euforia, boa lembrança.        

  

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sábado 07 de julho de 2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

seriam os deuses vingadores?


Seriam os deuses vingadores?

 

          Esses dias saí pensativo do cinema. Não concluam os caros leitores que estava assistindo algum filme cabeça. Pelo contrário. Estávamos, eu e meu filho mais novo, saindo de uma seção do último filme da série Vingadores. Pois é. Primeiro devo confessar minha meia ignorância em relação aos personagens oriundos dos quadrinhos. Nunca fui um aficionado leitor de Marvel e nem DC Comics. Por conta disso, o filho mais novo, teve que fazer um release de metade dos personagens que eram por mim desconhecidos. Não obstante isso, era para ser uma tarde de convivência entre pai e filho com direito a seção de filme de ação e milk-shake de Ovomaltine. Quão engano da minha parte. Daí vem a explicação do “pensativo” ao fim do filme, que me compeliu a, chegar em casa, abrir uma garrafa de vinho e concatenar as ideias para escrever essa crônica. Tudo por conta do vilão. Pasmem.

          Sem me preocupar com spoiler, Thanos, o antagonista da película, é um show de personagem. Um vilão completamente diferente dos sanguinários e dementes personagens que povoam essas séries de aventura e ação. O carisma do sujeito, travestido com feições brutas, chega a comover quem acompanha o filme. Sua objetividade e argumentação matemática aliada a falta de truculência e quase gentileza fizeram-no o coadjuvante que sobrepôs os principais. Nada de Homem de Ferro, Thor, Hulk ou Homem Aranha. Thanos surfou na onda da popularidade. E a pergunta básica é porque? Sempre né? Pois vamos lá.

          A ideia do aumento desmedido da população mundial em detrimento dos recursos naturais, não é novidade no pensamento humano. Não o primeiro a levantar essa lebre, mas o mais famoso deles foi Thomas Malthus, um economista britânico que no final do século XVIII já previa as catástrofes oriundas da superpopulação. Baseado na teoria malthusiana, vimos, durante o transcorrer da História mundial, vários personagens defenderem o extermínio indiscriminado de parte da população em detrimento da outra. Isso anexado a fatores de ordem econômica, racial e ideológica que pautaram a limpeza populacional. Não vamos longe ao citar que a teoria do economista britânico permeou os pensamentos de várias figuras históricas como Hitler, a dupla Marx e Engels, Darwin, Keynes e mais recentemente expresso por Dan Brown no Best Seller “O Inferno”. Baseados na ideia da sobrevivência humana, defendeu-se uma teoria de eliminação de parte da população. Matemático e preciso.

          Assim se apresentou o vilão Thanos roubando a cena e o filme propriamente dito. Sem truculência e diria até, com um cavalheirismo quixotesco, foi eliminando seus oponentes e rumando para o objetivo traçado. Eu assistindo aquela epopeia, mas já vacinado quanto as teorias de Malthus, incomodei-me quando o filho sussurrou em determinado momento, se referindo ao vilão: “sabe que ele tem razão?!”. Daquele momento em diante parei de prestar atenção no enredo e comecei a raciocinar sobre o fato em si, buscando uma maneira de levar um conceito vacinado àquela mente indefesa e a mercê das ideias simplistas e vilanescas. E olha que demorou terminar o filme porque, para os nécios em Marvel, existe uma tal cena oculta após os créditos. E pensa nuns créditos compridos... quase um filme inteiro. Terminada a tal cena extra, e após o filho explicar toda a sua teoria sobre o final surpreendente, pude puxar o assunto e entender o pensamento da criança. De imediato comecei a fazer questionamentos sobre as decisões a serem tomadas. Se realmente resolvêssemos eliminar metade da humanidade, como seria esse caráter de seleção? Teria um critério justo? Conseguiria a sensibilidade permitir essa eliminação indiscriminada? Não teria o homem recebido do Criador a inteligência para utiliza-la de maneira correta e não em soluções simplistas? Seria essa a forma correta de lidar com o problema? Não deveríamos procurar uma solução mais equilibrada?

          Ao final penso que o filho conseguiu assimilar um pouco das indagações e internaliza-las. Como uma vacina que requer tempo de resposta, espero que ele obtenha bons resultados. Não esquecendo de sempre reforçar a dose de proteção. Quanto ao pai, saiu melhor do que entrou no cinema. Sempre aprendemos muito quando ensinamos algo de transcendente aos filhos. E fica sempre uma pontinha daquela sensação de pai super-herói, mesmo sabendo que não existem. Só não sei se Thor ou Tony Stark.            

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 11 de maio de 2018