Sobre moinhos
de vento e bancos da frente
Começo essa crônica me
desculpando. Sei que não é uma boa maneira de principiar, mas é necessário e oportuno.
É que hoje acordei saudoso. Sabe assim com o coração apertado? Coisa sem
explicação. Tal qual a música de Zeca Baleiro “hoje eu acordei com uma vontade
danada de mandar flores ao delegado e de bater na porta do vizinho e desejar
bom dia”. Coisas desse tipo. Por isso depois de longo e tenebroso inverno
resolvi escrever novamente. Uma tentativa de colocar no papel essa melancolia
sem explicação.
Por esses dias esbarrei
com uma série espanhola no Netflix que tem como pano de fundo uma funerária. Mortos
S/A. Para um coveiro de ofício, isso é um prato cheio. A história é vivida por
um agente funerário como protagonista e retrata suas artimanhas para chegar ao
topo da escala hierárquica na empresa. Uma reedição moderna de Don Quixote que
inclui até um fiel escudeiro aos moldes de Sancho Pança. Sem querer dar
spoiler, e chegando ao motivo real dessa minha citação, o aprendiz de cavaleiro
da triste figura chega a uma conclusão cabal sobre a vida e a morte. Quem se
sentará no banco da frente da cerimônia de despedida quando ele estiver
estirado no caixão? Quem vai se levantar e falar aquelas palavras de homenagem no
momento final? Instintivamente me fiz essas mesmas perguntas.
Também por esses dias
meu sogro solicitou que eu fizesse uma revisão do livro que ele está
escrevendo. Trata-se de um copilado de histórias sobre a engenharia em Goiás e
seus protagonistas. Minha disposição foi imediata afinal para um contador de
histórias isso é um prato cheio. Em determinado momento da leitura e no meio de
tantas histórias, voltei-me ao banco da frente da cerimônia de despedida e as
perguntas foram inevitáveis. Quais histórias sobre mim contarão as pessoas que
estiveram comigo nesse plano terreno? Terão boas histórias para contar?
Repetidamente me fiz essas perguntas.
Talvez seja esse o
motivo pelo qual acordei com esse aperto no peito. Essa melancolia vinda de não
sei onde. As perguntas sem respostas. Por isso termino essa crônica do mesmo
modo que comecei. Pedindo desculpas. Por despejar tantas indagações sem pistas
das soluções. Por não terminar com uma frase motivadora ou um ensinamento
profundo. Deixo só reflexões. Dúvidas. Porque ao final, sem dúvida,
permaneceremos na memória coletiva pelas histórias que vivemos e pelos moinhos
de vento que enfrentamos. Simplesmente isso. Qual a história que seu ser viveu
e que será lembrada quando seu ser não for mais? Pense nisso.
Guilherme
Augusto Santana
04/09/ 2026