sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobre moinhos de vento e bancos da frente


Sobre moinhos de vento e bancos da frente

 

 

Começo essa crônica me desculpando. Sei que não é uma boa maneira de principiar, mas é necessário e oportuno. É que hoje acordei saudoso. Sabe assim com o coração apertado? Coisa sem explicação. Tal qual a música de Zeca Baleiro “hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado e de bater na porta do vizinho e desejar bom dia”. Coisas desse tipo. Por isso depois de longo e tenebroso inverno resolvi escrever novamente. Uma tentativa de colocar no papel essa melancolia sem explicação.

Por esses dias esbarrei com uma série espanhola no Netflix que tem como pano de fundo uma funerária. Mortos S/A. Para um coveiro de ofício, isso é um prato cheio. A história é vivida por um agente funerário como protagonista e retrata suas artimanhas para chegar ao topo da escala hierárquica na empresa. Uma reedição moderna de Don Quixote que inclui até um fiel escudeiro aos moldes de Sancho Pança. Sem querer dar spoiler, e chegando ao motivo real dessa minha citação, o aprendiz de cavaleiro da triste figura chega a uma conclusão cabal sobre a vida e a morte. Quem se sentará no banco da frente da cerimônia de despedida quando ele estiver estirado no caixão? Quem vai se levantar e falar aquelas palavras de homenagem no momento final? Instintivamente me fiz essas mesmas perguntas.   

Também por esses dias meu sogro solicitou que eu fizesse uma revisão do livro que ele está escrevendo. Trata-se de um copilado de histórias sobre a engenharia em Goiás e seus protagonistas. Minha disposição foi imediata afinal para um contador de histórias isso é um prato cheio. Em determinado momento da leitura e no meio de tantas histórias, voltei-me ao banco da frente da cerimônia de despedida e as perguntas foram inevitáveis. Quais histórias sobre mim contarão as pessoas que estiveram comigo nesse plano terreno? Terão boas histórias para contar? Repetidamente me fiz essas perguntas.

Talvez seja esse o motivo pelo qual acordei com esse aperto no peito. Essa melancolia vinda de não sei onde. As perguntas sem respostas. Por isso termino essa crônica do mesmo modo que comecei. Pedindo desculpas. Por despejar tantas indagações sem pistas das soluções. Por não terminar com uma frase motivadora ou um ensinamento profundo. Deixo só reflexões. Dúvidas. Porque ao final, sem dúvida, permaneceremos na memória coletiva pelas histórias que vivemos e pelos moinhos de vento que enfrentamos. Simplesmente isso. Qual a história que seu ser viveu e que será lembrada quando seu ser não for mais? Pense nisso.

 

    

 

Guilherme Augusto Santana

04/09/ 2026

santanagui@hotmail.com