sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cuidareis de sua casa

Cuidareis de sua casa





Aproveitando o dia morno e parado pelo feriado do dia dos funcionários públicos, apesar de não o ser, fui beber direto da fonte da sabedoria. Coisas de sexta. Conversa sem pretensões e sem responsabilidades com uma das maiores cabeças pensantes do nosso país. Daquelas conversas que poderiam perfeitamente acontecer em um boteco ou mesmo em um restaurante caro na capital federal, logicamente diferindo o valor da conta a ser paga no final. Junto comigo no bate papo, encontrava-se meu pai, que tinha a mesma faixa etária de nosso interlocutor. Como sempre, começa-se a conversa com as amenidades e as perguntas do tipo “onde está fulano?”, “você tem visto sicrano?”, “bons tempos aqueles!”. E o cidadão que vos fala já na impaciência para adentrar logo ao assunto. Espera a deixa para introduzir o real motivo da conversa. E conversa vai. E conversa vem. Quando não obstante, entram no assunto de meio ambiente e progresso. O cidadão que vos fala, mudo. Lembra-se do ditado de que se tem duas orelhas e somente uma boca para escutar mais e falar menos. Vamos escutar. É nessas horas que percebo que a sabedoria está nas entrelinhas. Na frase dita com convicção que provoca uma reação em outrem. Mas não aquela reação cega de gado sendo espetado, mas sim aquela reação que te faz pensar. Aquela que te mostra um cenário diferente do que você considera o modelo perfeito. Aquela que harmoniza conceito e vivência. Mesmo que não seja o seu conceito e nem a sua vivência. Mas qual ponto de vista está correto? O seu ou o deles? A resposta é nenhum. Nem o do seu pai, nem o seu e nem o do seu filho. Ficou confuso? Imagina eu que tentava entender isso no meio da conversa?!?!



    

Cresci escutando sobre a fase de ouro de crescimento do país e de como demos um salto de desenvolvimento rumo ao progresso. Tudo em nome da natureza, afinal o homem também faz parte da natureza. Também escutei muito que as gerações de hoje se preocupam mais com os animais e as árvores do que com o ser humano e suas necessidades. Escutei também que o progresso do país está travado pelos ambientalistas ecochatos e suas ONG´s patrocinadas pelos países de primeiro mundo que não querem ver nosso país crescer. Discursos e discursos. Também cresci vendo os efeitos dos desmazelos com o meio ambiente. Esses eu tenho notado. Climas endoidecendo. População mundial crescendo. Miséria aumentando. Recursos naturais diminuindo. Talvez a minha geração seja a primeira a perceber isso. E não venhamos com idealismo de dizer que o fizemos por consciência. Não foi. Foi por necessidade. Por estarmos sofrendo na pele os primeiros efeitos da chamada deteriorização global. A minha geração não era sustentável, ela está tentando se tornar sustentável. As duras penas, diga-se de passagem. Então às vezes quando escuto as gerações anteriores dizerem que estamos exagerando e que estamos de certa forma impedindo o progresso do país, sinto um certo choque. Mas aí reside o ponto nevrálgico do parágrafo anterior. Quem será que está certo? Será que a geração anterior a de meus pais é que estava certa ou será a dos meus filhos? A resposta é a mesma. Nenhuma. E me reservo o direito de complicar mais um pouquinho. Todos estão certos. Aí que bagunçou mesmo né? Pois tento esclarecer. Cada geração agiu baseada no momento que estava vivendo. Reagiu às necessidades que se apresentavam para o instante. Coube a nossa geração enxergar que sem sustentabilidade, não chegaríamos a lugar nenhum. Aliás, essa geração chegaria ao fim, mas as próximas não teriam início. E como temos dois instintos muito fortes gravados em nosso DNA: Sobrevivência e perpetuidade, estamos tentando, volto a negritar, as duras penas, deixar um planeta mais consciente para os próximos. Isso é fácil? É rápido? Infelizmente não. A evolução é lenta e gradual. Mas tenho certeza que ela se refletirá nas futuras gerações. Vejo nos meus filhos a mudança. Isso é meu maior alento. Tenho certeza que um dia estaremos nos mesmos papéis que hoje me encontro com meu pai. E ficarei extremamente orgulhoso se eles pensarem que seu pai está ultrapassado e saudosista, como penso muitas vezes do meu. Sinal de que a evolução está acontecendo.     





 



Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 28de outubro de 2011

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

sexo, drogas, rock and roll e smartphone

Se tem sexta, tem crônica. Parece engraçada mas não é.




Sexo, Drogas, Rock and Roll e Smartphone





Quinta feira como outra qualquer. Um amigo manda uma DM: vamos jogar squash? DM volta: 18hs? DM reretorna: combinado. Tudo certo. Essa modernidade é dez né? Agora achar alguém para buscar as crianças na escola. De duas uma eu acho. Ou a mãe das crianças ou a minha mãe. Liga para a minha. “Posso não meu filho!”. Peço p/ outra mãe. “Posso não marido!”. Das duas, nenhuma. Pensa rápido. Se sair mais cedo e correr, consigo buscá-los e ainda chego para o jogo. Tudo planejado vamos à ação. Veste a roupa de jogar para não perder tempo e sai em disparada para a escola. Manda DM para o amigo: atraso 15 minutos. DM volta: ok. Estaciona e desce correndo. Carteira fica no porta luvas porque a roupa de jogo não tem bolso. O celular tem que ir. Chega na sala dos meninos. Corre meninada! Sai menino com mochila e uma infinidade de badulaques. Vale salientar que o dia que você está com pressa e o dia que eles fizeram oficina artesanal e tem um caminhão de coisinhas para carregar. O pai sai em disparada parecendo uma mula de carga. Vale salientar também que o dia que você esta com pressa é o dia que seu filho não está com pressa. Chega no carro. Coloca os badulaques no chão e o celular no teto do carro para colocar cinto de segurança nos meninos. Amarra cinto, enfia mochilas no porta malas e os badulaques joga por cima dos meninos. Entra no carro. Vamos embora. “Papai estou com fome!”. “Não vou agüentar chegar em casa de tanta fome!”. “Quando chegar em casa sua mãe resolve isso.” No meio do caminho escuto um barulho seco na lataria do carro. Olho para trás. “O que foi isso?”. “Isso o que papai?”. “Esse barulho!”. “Não fomos nós.”. Então tá então. Segue o cortejo. Aí, do além, manifesta-se uma mania dos maníacos por internet. Leva a mão no celular. Cadê o celular? CADÊ O CELULAR?!?!?! Para o carro. Olha em todos os cantos. Nada. Aí vem aquele capetinha e sussurra ao seu ouvido: “sabe aquele barulho seco que você escutou? Era seu celular rolando pelo teto do carro e se esborrachando no chão, Mané!”. Volta o carro. Anda a pé. Procura. Nada. Volta ao carro. Meninos chorando de fome. Deixa os meninos em casa. Pega o celular da esposa. Volta ao local do crime. Liga no celular. Está chamando! Ninguém atende. Liga de novo. Ninguém! Liga e anda pela rua. Nada. Depois da décima ligada não toca mais. Sabe aquele toquezinho de que a pessoa do outro lado está fazendo uma ligação? Pois é. Oh meu Deus a pessoa que achou o celular já está fazendo ligação para as Bahamas! (isso foi o capetinha que sussurrou). Andei mais de hora procurando o celular. Nada. Olhava para as pessoas paradas na calçada e no ponto de ônibus e todas tinham cara de que estavam com meu celular no bolso e que tinham ligado para as Bahamas. Desisto. Volto para casa desconsolado. Não quero falar com ninguém. Desolado. Estalo. Entro no iCloud e localizo o celular! Você é um gênio!!!. Ligo o PC. Localizar celular. Localizando... celular desconectado. Ou acabou a bateria (improvável), ou alguém achou o celular e desligou, ou ainda pior, um carro o matou! Hora do óbito: 19:50 do dia 20/10/2011. Morreu.





Confesso que me senti órfão. É uma sensação esquisita. Praticamente toda sua vida está ali. Seus contatos, seus email, suas músicas, suas fotos, seu twitter, seu facebook, seu tudo! A sensação de invasão de privacidade é irremediável. Diria que é quase um estupro moral. Quando começa a bater a síndrome de abstinência eletrônica, você se dá conta do pior. Sou viciado nisso. Não consigo viver sem meu smartphone. Aí é o fundo do poço. Senti-me o pior dos seres humanos. Dependente de uma máquina. Mas como tudo na vida, temos que achar o lado positivo. O bom das fatalidades é saber analisá-las e absorver ensinamentos. Até que ponto as relações humanas estão ficando distantes com a tecnologia? O que era para estreitar distâncias por muitas vezes coloca barreiras. Será que somos seres humanos melhores com esse excesso de informações que não se consolidam em conceitos? Será que temos conceitos ou somente um amontoado de pensamentos alheios? Pensava nisso tudo enquanto via o carregador de baterias do celular abandonado no canto sem ninguém para repor a vida. Quantos órfãos de pais vivos teremos que consolar por conta da tecnologia?





      De manhã ainda tive o reflexo de olhar o carregador na tomada com esperanças de vê-lo lá pronto para o uso. Vazio. A mesma iniciativa das pessoas que vão ao cemitério no dia após o sepultamento para ver se é verdade. É verdade. Segue o cortejo. Resolvi. Não vou me apressar em comprar outro. Passei a manhã toda sem celular. Que tranqüilidade. Ninguém me ligando, nem passando mensagens, nem twitter, nem face. Nada. Nunca me senti tão liberto. Alforriado. Isso que é vida. Pouco antes do almoço passei na porta da loja da operadora de celular. Síndrome de abstinência. Parei. Só para olhar. Tremi. Comprei. Afinal é um vício pequeno perto de alguns que vejo por aí. Até me orgulho um pouco desse vício. Só um pouquinho. Prometo usar com moderação.  





Guilherme Augusto Santana
Goiânia, 21de outubro de 2011

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A escolha de Sofia

aos que acompanham as vivências de um coveiro, segue uma do fundo da alma.

boa e chuvosa sexta a todos.


A ESCOLHA DE SOFIA





Depois que comecei a trabalhar no setor funerário, adquiri um hábito que tem deixado minha vida mais saudável e por conseqüência, mais feliz. Procuro não sair de casa de manhã antes que meus filhos acordem. Abraço-os sempre com muito entusiasmo. Pergunto como dormiram, apesar da resposta ser sempre a mesma. Pergunto se querem uma mamadeira, apesar de também saber que a resposta é certa. Depois disso me despeço e os deixo com suas atividades infantis. O sorriso estampado na face. No caso o meu sorriso. Pode parecer fato cotidiano, mas faz uma grande diferença. Recarrego minhas baterias afetivas e aproveito cada sentimento puro que emana deles. A relação do hábito adquirido com meu trabalho é obvia e entendo que não preciso discorrer muito sobre o assunto. Limito-me a dizer que já presenciei muitas separações definitivas e a dor que isso causa nas pessoas. Já que não podemos escolher como morreremos, podemos ao menos escolher como viveremos. E é exatamente esse o assunto que tratarei hoje: escolhas.

Essa semana me senti a própria Sofia do filme estrelado por Meryl Streep. Diante de uma escolha crucial e dilacerante. Aquela escolha que pai ou mãe nenhum gostaria de fazer. Aquela que causa arrepio a qualquer ser vivente. Qual filho abandonar? Qual dos filhos é o mais apto a sobrevivência? Quais as conseqüências permanentes dessa separação? Vou conseguir viver com essa dor? Calma a quem está achando que precisarei separar-me de Helena e Otávio. Não é isso. Estou me reportando à esfera profissional. Deixar um filho empresarial em detrimento de outro. Guardadas as devidas proporções, entendo que a sensação de perda e dor é profunda. Imaginem descobrir, planejar, gerir, dar a luz, embalar, alimentar, ensinar, amparar, dedicar e amar um empreendimento como um filho. Imaginaram? Agora imaginem ter que abandoná-lo em detrimento de outro filho que nasce, porque os dois juntos geram conflitos de interesses. Imaginaram? É essa a sensação. É essa a perda. E agora Sofia?

Essa semana, mais do que as outras, retardei minha saída de casa pelas manhãs. Curti cada sorriso e cada dengo. Medo. Medo de um dia ter que fazer uma escolha. Medo de um dia ter que abandonar um dos meus. Reflexo natural de pai que quer manter as crias debaixo da asa. Mas sei que escolhas estão por vir. São inevitáveis. E que ma maioria das vezes não dependem dos pais. Eles, os filhos, farão as escolhas. E cabe aos pais aconselhar e apoiar. E principalmente cabe a adaptabilidade de enfrentar as escolhas de peito aberto, porque um dia nos também as fizemos e de certa forma nos separamos de nossos pais. Temos que estar disposto a seguir vivendo. Mas enquanto as escolhas dependem de mim, opto por abraçá-los a cada manhã como se fosse a última vez. E torcendo sempre para que não seja.    





    



Guilherme Augusto Santana

14/10/ 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Jobs por O Coveiro

Em primeira mão o obituário de Jobs por O Coveiro.
Segue o cortejo.


Poucos dias atrás, eu conversava com uma amiga sobre a arte da escrita dos obituários. Ela me recomendou um livro sobre o assunto e eu prontamente adquiri e comecei a desfrutá-lo. “O livro das Vidas” é uma compilação de obituários publicados no The New York Times e que demonstram com peculiaridades, um traço pitoresco da cultura americana. Confesso que como sou da área funerária, bateu-me a vontade de experimentar a arte e aproveito o falecimento de tão nobre figura do cenário mundial para fazer meu intróito. Espero que ele, o falecido, não leia.



Jobs por O Coveiro



Steve Paul Jobs nasceu em São Francisco, uma cidade sem preconceitos na ensolarada Califórnia, onde se toma um belíssimo vinho escutando jazz da mais alta qualidade, nos idos do ano de 1955. Esse fato parece até ironia, pois nesse mesmo ano morreria outro grande gênio da humanidade. Albert Einstein. Há de se imaginar que nada nesse mundo é por acaso. Filho de uma americana e um imigrante sírio, estava fadado ao insucesso quando seus pais o deram para adoção por não conseguirem pagar sua faculdade. Outra ironia do destino, pois ao que me consta, após a adoção, os altos custos da Faculdade do Oregon o fizeram abandonar os estudos. Talvez fosse seu destino vencer na vida sem o embasamento estudantil de uma faculdade americana. Talvez fosse melhor assim.

Nos idos dos anos 70, enquanto os hippies estavam pregando a paz e o amor livre, o pequeno Jobs criou a Apple, junto com o amigo Wozniak. Isso também não quer dizer que ele não tenha tomado LSD e participado de Woodstock, mas com certeza isso não queimou seus neurônios e nem o fez andarilho vendedor de pulseiras de fibra na praia. Menos mal. Se bem que algumas de suas criações pareciam estar sobre o efeito de alucinógenos. Deixemos de lado. A escolha da maça mordida como símbolo também não pareceu obra do acaso, visto que representa o pecado em forma de fruta. Deixemos de lado também. Entre encontros e desencontros, Jobs idealizou vários conceitos que iriam revolucionar o conceito do homem moderno sobre comunicação. E talvez essa rapidez e facilidade de comunicação o tenham colocado na berlinda da exposição mundial quando da sua doença. Convenhamos que Jobs era um quase desconhecido para a maioria da população mundial no começo dos anos 2000. Os seus inventos o fizeram ser personagem de um BBB de agonia. E talvez para sustentar esse sistema bilionário de tecnologia, ele tenha negligenciado sua saúde e apressado o seu encontro com a morte. Vai saber né?

Eu confesso que não gostava de Jobs até pouco tempo atrás, pois tive que carregar um Macintosh dentro da mochila, vindo dos Estados Unidos e quando cheguei no Brasil a porcaria não funcionava direito. Tudo bem que estávamos nos idos de 1994, mas não aplacou minha decepção com a Apple e com seu criador. Mas hoje vejo que o erro não estava em Jobs. O erro estava em nós, brasileiros, que não estávamos preparados para essa tecnologia. Hoje, com conceito mudado, nutro uma relação de amor com meus produtos Apple e consequentemente, nutro um respeito profundo por quem os criou. Logicamente se valer o meu testemunho pessoal.

Jobs faleceu em Palo Alto, na mesma Califórnia onde nasceu. Foi considerado o Rei do Vale do Silício. Deixa 8,3 bilhões de dólares de patrimônio. Um arqui-rival, Bill Gates. A esposa Laurene e quatro filhos. Além disso, deixa milhões de órfãos usuários de suas traquitranas que lutaram junto com ele para tentar vencer sua doença. Foi vencido pela morte física, mas deixa um patrimônio intelectual inapagável.

    



Guilherme Augusto Santana

07/10/ 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

papai 24 hs

Iniciando os trabalhos primaveris, nada como uma crônica light. Espero que gostem.


PAPAI 24 HS



Estou aqui nesse primeiro dia de primavera tentando achar um tema para escrever essa crônica sexta feiral. O calor está de matar, o que atrapalha em muito a escolha do dito cujo. Penso que meu cérebro está derretendo. Ainda por cima tenho dois pinhecos fazendo algazarra do meu lado. Aí nesse ponto vocês vão me perguntar: “onde diabos você está?””No inferno?” Eu respondo que estou em minha casa. E os pinhecos são os meus. Aula? Hoje não tem. Vai entender esses calendários escolares. Secretária do lar? Arrumou suas coisinhas e se pirulitou. Mãe? Foi trabalhar. Tinha assuntos urgentes a resolver. Pai? Uai! Está aqui! Os meus assuntos urgentes? Melhor não responder essa pergunta. Corro o risco de dizer um palavrão. Mas como diz minha querida mãezinha: “deixa ferver com a espuma”. Aí, como vocês perceberam, sobrou para mim a função de babá. O problema é que eu insisto em trabalhar. Ligo meu computador e com meia palavra digitada um grita para ligar a banheira. O outro quer que eu coloque um filme. O que estava na banheira agora quer lanchar e o que estava assistindo o filme quer ir ao banheiro. Aí eles começam a se estapear e aquele texto que você está tentando ler, parece estar escrito em grego. Concentração. Presta atenção no trabalho. Opa, um minuto de silêncio... O que você está fazendo menino!?!? Jogando o sabonete no vaso sanitário!?!? As vezes eu acho que criança deveria ficar amarrada ao pé da mesa. Quando eles vêem que você está trabalhando, fazem questão de brincar perto. Do lado. Em cima. Querem aquela caixa que está na última prateleira da estante. Porque não podem brincar com os brinquedos que estão embaixo? Fora a sujeira. Espalham todas as coisas em todos os lugares possíveis. Olha vou ser muito sincero. Se você ainda não tem crianças é melhor parar de ler essa crônica agora. Depois não diga que não avisei.

Aí como vocês estão acostumados ao contraponto positivo em minhas crônicas (estou tentando achá-los), não poderia de forma alguma decepcioná-los. Falei à Helena, a mais velha, que fizessem de conta que eu não estava aqui. Para que brincassem como se estivessem somente os dois. Ela me respondeu muito simplificadamente: “Mas você está aqui papai. E quando você está aqui, nós gostamos de brincar com você. Filhos devem ficar perto de seus pais.” Toma! Vai mais! Como não parar para pensar? Como não olhá-los com os olhos diferentes e imaginar que esses pequenos seres além de dependerem de você, gostam incondicionalmente da sua presença? Eles te amam. Te querem. Te veneram. Te enlouquecem. Como não associar a entrada da primavera com essas pequenas flores que dependem do seu carinho para sobreviver? Aí o “paimonha” se rende. Onde estão as Pollys e os Hot Wheels? Quem ainda não tem crianças e me desobedeceu no parágrafo anterior e seguiu com a leitura, saiba de uma coisa importante. Não trocaria esses pinhecos por nada nesse mundo. Não tem dinheiro, nem fama, nem realização capaz de suplantar um sorriso deles. É isso.

E vou terminando essa crônica por aqui porque eles estão aqui no meu pé pedindo para fazer o lanche. E depois tem passeio de bicicleta e depois ler história....    



Guilherme Augusto Santana

Início da primavera de 2011




ps. Para não acharem que estou faltando com a verdade, segue a prova cabal.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mãe, não vou à casa da Tia Ernestina!

Como de costume, segue mais uma de sexta.
Podem comentar. Mata ninguém não. Mas se falarem mal da crônica lembrem-se da maldição do Coveiro.
bom fds a todos


Mãe, não vou à casa da Tia Ernestina!





Ao começar a ler essa crônica, talvez você imagine que o seu escritor não sabe o rumo que quer chegar. Nem se quer chegar. Mas não se preocupe. Na medida do possível tento fechar o raciocínio. Conta a história que por volta dos anos 1500, foi alçado a qualidade de Papa, o Cardeal Rodrigo Borgia, que estando empapado, passou a ser chamado Papa Alexandre VI. Para conseguir a eleição de pastor máximo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana na época, Rodrigo lançou mão de todos os recursos, principalmente os mais sórdidos. Esse Papa tinha filhos (não me questionem esses dogmas). Um deles era a famosa Lucrécia Borgia que ficou famosa com a alcunha de pior mulher do mundo. E outro filho, Cesare Borgia, que foi a peça fundamental para que o pai conseguisse chegar a Papa, ficou imortalizado na obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel. Aí chegamos ao ponto que eu queria abordar. Maquiavel e sua teoria. Muitas vezes utilizamos expressões e pensamentos sem saber ao certo de onde vieram e em que circunstâncias foram proferidas. Todos vocês já devem ter escutado a expressão: “fulano é maquiavélico”. Parecendo com isso que o fulano seria o diabo em pessoa. Estou certo? Pois bem. Diante disso alguém se considera maquiavélico? Senão vejamos.

Vamos partir de uma das frases que define o maquiavelismo: “os fins justificam os meios”. Daí podemos traçar um raciocínio lógico. Veja se você se encaixa em uma dessas cenas. Cena 1: eu preciso enforcar aquele feriado para viajar com a namorada e estou sem coragem de falar com meu chefe. Chego de mansinho olho o porta retrato em cima da mesa e pergunto sobre os filhos e a esposa. Digo a ele da importância que a família tem na vida de um homem. Digo também da necessidade das horas de lazer na produtividade de um funcionário. Digo que gostaria de ter uma família linda como a dele. Por fim elogio sua gravata (que está ridiculamente descombinante com a camisa) e numa tacada só, com cara de pessoa zelosa pela manutenção da família, solicito o enforcamento do feriado. Mas olha, foi por uma causa justa. Se eu não fosse, a namorada ia com outro. Cena 2: Você precisa comprar um presente de aniversário para um filho de um amigo. Entra no shopping correndo (porque só tem 20 minutos de estacionamento grátis), pega o primeiro brinquedo que vê na sua frente, paga em dinheiro (cartão pode enrolar), fala para a empacotadora agilizar, pois você deixou o forno de casa ligado e sai correndo do shopping aos 19:45 do segundo tempo. Aí para justificar a compra de um quebra cabeça de 200 peças para uma criança de 1 ano, porque não teve tempo de ao menos olhar a indicação etária, você pensa: “um dia ele vai usar”. Ou “criança nem repara nessas coisas”. Ou ainda “tem gente que nem presente vai levar”. Mas olha, foi por uma causa justa. Não tinha trocado para pagar estacionamento. Cena 3: Você está no caixa do supermercado e tem uma senhora da melhor idade na sua frente pagando meia dúzia de coisas. Ela tira a niqueira (artigo que só as senhoras da melhor idade possuem) e começa a contar as moedas lentamente. Você com carne e cerveja dentro do carrinho e o celular tocando o tempo todo porque todos os seus amigos já estão na piscina. Aí você vê que ela ainda não começou a embalar as compras e começa a auxiliá-la com os saquinhos. Muito rapidamente você termina o trabalho e ela lhe agradece como se você fosse o super prestativo. Menino bem criado né? Mas olha, foi por uma causa justa. A churrasqueira já estava acesa. Cena 4: Sua mãe te chama, no domingo, para visitar a Tia Ernestina que mora naquele bairro lá onde Judas perdeu as botas. Você se recorda que sua tia faz um doce de casca de laranja que fica quase uma década na prateleira a espera de um otário para consumi-lo. Lembra também que toda vez que você vai visitá-la, ela abre aquele álbum velho e mofado com as fotos da sua mãe quando pequena te fazendo espirrar o resto do dia. Aí num átimo de segundo, você faz uma voz anasalada ao telefone com sua mãe e fala que acha que está gripando e que vai ficar debaixo das cobertas. Sua mãe, como toda mãe, vai se compadecer e lhe recomendar que não pegue friagem e tome canja de galinha. Aí para matar de vez você pede a sua mãe que lhe traga um pedaço daquele doce de casca de laranja delicioso da Tia Ernestina na volta. Mas olha, foi por uma causa justa. Sabia que certos tipos de ácaros podem matar?

Resumindo? Penso que no fundo no fundo, todos nós somos um pouco maquiavélicos. Quer seja pensando em nós mesmos, na carreira, na família ou até nas deficiências. Os métodos e maneiras que alçamos mão para alcançar nossos objetivos muitas vezes são camuflados na égide de uma boa causa. Será que as causas são somente justas, ou justas somente para nós? Pensemos.        







Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 09/09/2011


@santanagui

santanagui.blogspot.com


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Eu sou Coveiro

Meninos e meninas
Segue abaixo mais uma crônica fresquinha desta sexta escaldante. Bom proveito e bom fim de semana.


Eu sou Coveiro





Geralmente os assuntos que movem as crônicas são suscitados por pequenos detalhes que vejo na rua. Tipo uma notícia, um fato inusitado ou uma coisa engraçada. A de hoje não foge à regra. Estava eu dirigindo meu carro na ida para o almoço, quando me deparei com um adesivo fixado em um carro com o seguinte dizer: “minha filha faz UFG”. Antes de mais nada, para os não goianos, esclareço que UFG nada mais é do que Universidade Federal de Goiás. Esclareço ainda que é uma faculdade pública e consequentemente não paga. Terminados os esclarecimentos voltemos ao tema. Após ler tal escrito fiquei me perguntando: qual seria o complemento subliminar da frase ao qual tinha a intenção de dizer o autor, e não teve “coragem” de fazê-lo? Seria: “minha filha faz UFG e a sua filha faz faculdade paga, seu bocó!”? Ou ainda: “minha filha faz UFG e sua filha nem faculdade faz, seu idiota!”? Quem sabe seria: “minha filha faz UFG e a sua filha fuma crack na esquina, seu irresponsável!”? Poderia ser até: “minha filha faz UFG e a sua filha até poucos dias atrás era filho, seu Mané!”? Nos meus devaneios “cronísticos”, recordei-me dos diversos adesivos que tinha observado e que tinham uma certa ligação com esse tipo de orgulho ofensivo/excessivo. Quem nunca viu um: “Sou Católico graças a Deus”? Ou um “Eu amo meu marido”? Ou ainda um: “presente dado por Deus”? E até o: “Kattlyyn Victtórya a bordo”? Qual seria a raiz dessa tentativa de exprimir orgulho de forma agressiva e emblemática? Não seriam essas tentativas uma faca de dois gumes? Não estariam essas pessoas discriminando ao invés de incluindo?

Gostaria antes de continuar, fazer-lhes uma confissão bem íntima. Eu fiz UFG! Um dos cursos mais concorridos: Engenharia Civil! Eu amo minha esposa! Meu carro não foi presente, pois ainda devo um monte de parcelas do financiamento! Não sou Católico, nem Evangélico, nem Espírita, nem Muçulmano e nem Nada! E por fim, meus filhos não tem nomes compostos com várias dobras de letras e mesmo assim os amo de paixão! Ufa... Desculpem o desabafo. Precisava fazer isso para me sentir melhor. Voltemos. Qual seria o motivo pelo qual as pessoas estão escancarando a sua “felicidade” aos quatro ventos? Seria carência de reconhecimento de realização pessoal?  

O que vou dizer agora não é criação minha, mas entendo como a verdade mais verdadeira dita sobre o homem. “O objetivo do ser humano é ser feliz”. E nessa busca as pessoas estão esquecendo que a felicidade se basta, ou seja, não precisa de outdoor para sua divulgação. O orgulho de um pai que tem sua filha universitária não deveria ser esfregado na cara de outro que não teve o mesmo sucesso. A sua felicidade devia lhe bastar. Ser expressa para quem lhe causou felicidade. E quem disse que a filha que fez faculdade será uma pessoa melhor do que a que ficou só no ensino básico? Ou que a filha que nem ensino teve? O mundo está cansado de exemplos de pessoas que venceram na vida com pouca ou nenhuma formação. E vamos mais longe. Quem garante que a pessoa que teve sucesso na vida será uma pessoa feliz? Também estamos cheios de exemplos de pessoas bem sucedidas e completamente infelizes. Penso que não precisamos dizer que estamos felizes, pois as feições de uma pessoa feliz são percebidas de longe. Não há necessidade de a esposa dizer que ama seu marido, pois seus atos dirão por ela. Essas manifestações exageradas, ao meu ver, soam mais como um mantra em busca da felicidade do que como expressão fidedigna da mesma. E vou me arriscar mais ainda. Acho que a evocação excessivamente orgulhosa das coisas funciona como repelente para sua concretização. Já dizia minha avó que traz olho gordo.

Para finalizar e corroborar com a minha tese, vou mandar fazer um adesivo com dizeres que a maioria das pessoas não teria o mínimo orgulho, mas que demonstra cabalmente que a felicidade pode estar onde menos se espera: “Eu sou Coveiro”. Tese sustentada. Só espero não atrair olho gordo. Por via das dúvidas vou plantar um pé de arruda no meu quintal.          







Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 02/09/2011



twitter.com/santanagui