sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ser Pai também é...

Amigos leitores

Depois da poesia vem a conta.

Uma visão bem real sobre os ônus de ser pai



Ser Pai também é...



            Muitos dos leitores devem ser lembrar que a crônica da semana passada foi sobre o dia dos pais. Reeditei um semi poema dedicado a minha primeira filha por ocasião do seu nascimento. Ali ficaram escancaradas as sensações, descobertas e alegrias de um pai de primeira viagem embarcando na nave do amor incondicional. Muitos acharam lindo e poético. Eu também! Mas agora vamos bater uma real? Vamos ao lado “obrigações” do ser pai? Espero que estejam preparados, porque não vai ser nada poético dessa vez. Então aqueles que estão em dúvida sobre ter filhos, aconselho que abandonem o texto nesse momento. Não me responsabilizo por traumas de leitura.

           

            A frase “todos veem a cachaça que eu bebo, mas poucos veem os tombos que levo” seria cômica se não fosse trágica. E real. Educar filhos é uma arte no mínimo espinhosa. Delicada. Afinal estamos lidando com mentes em formação. Aí muitos poderiam supor que isso denotasse fragilidade e inocência. Ledo engano. Por estarem em formação, essas pequenas mentes ainda não distinguem bem o certo do errado e muitas vezes erram querendo acertar e acertam querendo errar. E os pais (sempre me colocando no meio destes) com seus conceitos bem definidos, não conseguem assimilar esse método infantil de erro e acerto. É fácil de entender. Mirem no exemplo. Você sabe qual cor é o azul. Eu sei também. Aprendi isso e a informação faz parte do meu conceito. Vamos lá. A criança não sabe o que é azul. Aí se você pergunta para ela onde está o azul e ela aponta o amarelo, é como se acendesse uma luz vermelha no seu cérebro. Você explica que aquele que ela apontou é o amarelo e aponta novamente o azul como a resposta certa. Pergunta de novo qual é o azul. Ela aponta para o verde. Nesse ponto o pai descobre que a repetição dos conceitos faz parte da fixação dos mesmos. Porém a paciência é inversamente proporcional ao número de vezes que você repete qual é o azul. Funciona assim. Minha filha mais velha tem me dito com frequência que não tem paciência para fazer suas tarefas de casa, e eu me pergunto: Será que eu tenho paciência suficiente para ensiná-la a ter paciência? Ou será que ela aprende melhor a ter paciência, detectando a paciência nos atos de seu pai? Seria a famosa educação por exemplos. Outro aspecto interessante que temos que lidar na educação de filhos é a firmeza de nossa postura e o valor da palavra. Essa semana estava eu, pai avulso (esposa tinha viajado), com os dois pequenos em uma feira que acontece no meu condomínio uma vez por semana. Procuro estabelecer as regras para esses eventos antecipadamente com os meninos. Tipo: primeira coisa que fazemos ao chegar é cumprimentar todo mundo da mesa e depois escolher algo para comer e depois ir brincar. Coisas desse tipo. Eis que a primeira regra estabelecida foi: Não teremos sobremesa hoje. Vocês estão comendo doce demais a noite. Ok? O mais novo pergunta: “papai, vou pedir um pastel de banana com canela. Pode?”. “Pastel de banana com canela é doce (pelo menos no meu conceito). Então não pode. Peça um de queijo.”. Sai um menino para cada lado e num átimo de segundo o que foi pedir o pastel volta. Sem o pastel e mastigando alguma coisa. Senti o cheiro de doce. Tentando me controlar pergunto o que ele comia. Ele, muito espertamente para a idade, mostrou que estava com a boca cheia e que responderia após engolir a comida. Provavelmente pensou que se falasse de boca cheia estaria cometendo dois delitos e que sua pena poderia ser maior. Logicamente que ele demorou uma década para terminar de mastigar imaginando que eu pudesse esquecer o delito. Pacientemente esperei a deglutição e perguntei novamente o que era em sua boca. Ele me respondeu que era um doce. Nessa hora dá vontade de pegar pelos cabelos e gritar qual parte do “não é para comer doce” ele não entendeu, mas de maneira sutil iniciei uma conversa. Nessa hora a mesa inteira de avós, tias e afins está a te olhar esperando sua reação. Relembrei a criança o combinado e sentenciei: Estará de castigo pelo resto da noite. O que significa isso na prática? Ficar sentado ao meu lado e não poder ir brincar no parquinho. Aí começa a revolta geral. Inicia-se pela irmã mais nova que vem igual uma cobra caninana tentar um Habeas Corpus. Nessa hora você já não está se sentido bem. Os olhares de reprovação são lançados por muitos. Você se sente injusto. A criança que está de castigo começa a argumentar e dizer que não fará mais isso e que se arrepende do seu erro. Você se sente um sem coração. A partir desse momento nada mais desce redondo. Nem o pastel nem o suco e nem a conversa. Você se sente um monstro, déspota, covarde e insensível. Mas uma coisa é certa. Você lançou sua palavra. E se tem alguma coisa que aprendi com educação é que a palavra lançada tem que ser cumprida. Uso muito um exemplo esdrúxulo para justificar a perspicácia das crianças em detectar erros paternos e se aproveitar deles. Digo que elas se assemelham aos Veliciraptores (dinossauros retratados no filme “Parque dos Dinossauros”) que ficam testando a cerca elétrica a todo o momento buscando uma falha para escaparem. Assim funcionam as crianças. Testam os pais a todo o momento e se apegam aos seus deslizes para errarem também. Correndo o risco de ser considerado um monstro, mantive minha palavra e fomos no mesmo enredo até o fim da noite. Se ele ficou com raiva de mim? Parece que não. No outro dia acordou com a felicidade que lhe é peculiar e a relação voltou ao seu estado harmônico. Se as avós, tias, irmãs e afins ficaram com raiva de mim? Provavelmente sim. Mas esse é um dos ônus da educação. Uma coisa é certa. Educar é uma função individual e intransferível. Não podemos achar que delegando a outros essa função, cumpriremos nossa missão de pai. E para não terminar só com bronca e para que o leitor não fique também achando que sou um monstro, citarei uma frase de minha autoria que postei no twitter essa semana. Ela expressa, no meu entendimento, a relação ônus e bônus de ser pai. É mais ou menos assim: “Se não tivesse tido filhos, talvez não tivessem tantos livros inacabados na minha vida, mas com certeza, o livro da minha vida estaria inacabado.”.        









Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 17 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ser pai é...

Amigos leitores

Esse mimo foi escrito por conta do nascimento da minha primeira filha, Helena. Confesso que meus olhos enchem de lágrimas toda vez que o leio. Coisas de pai.

Espero que gostem


Ser Pai é ...



... conversar com a barriga da esposa mesmo que isso pareça ridículo.

... ir às compras com a grávida e notar a diferença entre as roupinhas de bebê.

... olhar o preço dos carrinhos e não converter em cerveja.

... ir ao supermercado comprar mantimentos alegre e sorridente.

... saber que sua vida vai mudar e se sentir bem com isso.

... achar sua grávida linda e sexy.

... contar do fato para todo mundo e esperar um elogio.

...  ajudar a escolher os móveis do quarto e não brigar com a vendedora.

... ouvir as reclamações de dor e sempre ter uma palavra de incentivo.

... se abster da bebedeira e principalmente do charuto no quarto da maternidade.

... entrar na sala de parto mesmo correndo o risco de passar vergonha.

... não avançar no pediatra quando ele enfia todos aqueles tubos na criança.

... dizer que é linda mesmo que ela, a princípio, se pareça com um joelho.

... aceitar aquelas brincadeiras sem graça tipo: passar de consumidor a fornecedor.

... pegar o bebê sem medo de que você possa quebrá-lo.

... trocar a fralda assim que possível e as avós deixarem.

... participar do primeiro banho mesmo que seja de fotógrafo.

... cuidar da mãe para que ela não se sinta deprimida.

... começar a estudar farmácia e aprender os nomes dos remédios.

... interromper o jogo da TV ao meio para verificar qualquer barulho no berço.

... achar o espirro dela a coisa mais linda do mundo.

... cheirar o cocô para verificar se anda tudo bem.

... acordar a noite pra participar do pagodinho da madrugada.

... mudar seu ciclo de sono para de duas em duas horas.

... colocar para arrotar mesmo que isso exija uma dançinha especial.

... colocar a foto da filha no protetor de tela do computador.

... ter vontade de morder seus braçinhos e perninhas.

... conversar com ela mesmo que no começo ela não retribua.

... entender que o laço de mãe e filha é mais forte.

... perceber as pequenas mudanças que vão surgindo.

... explodir de orgulho quando alguém fala que ela se parece com você, mesmo que seja a sobrancelha.

... se pegar às vezes com os olhos cheios de lágrima olhando para aquela criaturazinha indefesa e pensando como a vida lhe foi generosa.



Ser pai é ...



Participar, ajudar, sofrer, ensinar, chorar, se emocionar...



É saber que a partir daquele momento você nunca mais será o mesmo, e ter orgulho disso.



Agora eu sou pai.



Guilherme Augusto Santana

21/09/2005

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Show do Mensalão

Bem amigos da Rede Globo!



Show do Mensalão



Bem amigos da Rede Globo! É hoje a grande decisão. Os times já se preparam para entrar em campo. As torcidas em polvorosa esperando o início do espetáculo. E vamos às escalações dos times. O STFutebol Clube entra em campo com a seguinte escalação: Presidente Ayres Britto no gol. A defesa é composta por Cesar Peluso na lateral esquerda, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello no miolo de zaga e Gilmar Mendes na lateral direita fechando. O Meio de campo é formado por dois volantes. Ricardo Lewandowski e Luiz Fux. Armando as jogadas e fechando o meio de campo estão as meninas (não tão meninas assim) Cármem Lúcia e Rosa Maria Weber. E finalmente no ataque os artilheiros Joaquim Barbosa e Dias Toffoli. Sendo que esse último não sabe se entra em campo, pois paira sobre ele a síndrome do PT (Perda Total). O time dos Mensaleiros Futebol Clube entra em campo com 38 réus e 122 advogados sob a vaia contundente da torcida. E vai começar o espetáculo! Apita o juiz!

            Poderíamos confundir muito bem o julgamento do Mensalão pelo STF, com as três paixões nacionais. Cito: futebol, carnaval e novela. Isso tudo devido à importância midiática do fato e do acompanhamento maciço pelo grande público. Está bonito de se ver as rodas dos botecos comentarem entre os resultados do Brasileirão, os embates entre vilã e mocinha da novela das oito, as notas 10 da comissão de frente e bateria e as questões de ordem do julgamento. Os interesses por entender a estratificação da justiça brasileira, os ritos, termos e porquês das coisas que se sucedem. São opiniões mil que se amontoam. Das mais corretas as mais esdrúxulas que demonstram que o brasileiro está cada dia mais evoluindo em seu dever cívico político. Mesmo que seja uma piadinha ou um comentário deslocado, tudo representa um afã do cidadão em entender como funciona e poder opinar sobre as questões de relevância do país. Bonito também de se ver o papel da mídia mostrando todas as nuances e replays dos melhores momentos. Requentando notícia de vez em quando, é certo, mas tentando traduzir para o grande público os termos difíceis de nossos Ministros. Ao menos tentando. Outra coisa interessante de se ver é a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público que de certa maneira tenta mostrar ao cidadão brasileiro que está atuando em defesa dele e da lei. Com certos exageros aqui e ali, mas de maneira geral tentando cumprir com sua obrigação. E mais louvável ainda o comportamento do brasileiro. Acompanhando, opinando, criticando e principalmente descobrindo que aquilo tudo que está lá sendo julgado, faz parte da sua história política e é reflexo do seu voto. Da sua decisão perante as urnas. Fico feliz. Pode-lhes parecer que acordei meio Poliana hoje. Pode até ser. Confesso. Mas os que me leem há mais tempo sabem que sou um otimista de carteirinha. Porém, também o sabem, que não sou adepto da solução imediata e sem dor. Sempre defendi a tese de mudanças lentas e graduais. Um processo de evolução da cultura do brasileiro. E vendo esse julgamento do STF cercado de interesse inédito, sinto que não estou de todo errado. Estamos evoluindo. Lentamente e dolorísticamente (permitam-me o neologismo). Porque mudança nenhuma vem sem dor. E para finalizar vai uma torcida mais otimista ainda. Espero que esse jogo não termine empatado e nem tenha seu resultado decidido no tapetão. Um golzinho basta. Pode ser até de mão. Mas que dê ao brasileiro o aceno de que ele está no caminho certo. Assim eu espero. Assim espero que os brasileiros esperem.







Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 03 de agosto de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Meu Araguaia

Caros amigos leitores

uma prosa poética para uma paixão de infância.



Meu Araguaia



            Fecho os olhos por um instante e sinto o calor do meio da tarde surrar o ar. Quente. A sorte é que a sombra do rancho impede que o sol incida diretamente sobre minha pele. Pele já castigada pelos dias passados desafiando o astro rei. Lembro-me de Bial e seu filtro solar. Cuido-me, apesar de ser de uma geração que passava óleo de cozinha na pele para espantar os mosquitos da beira do rio. Sinto também a água morna correr por entre as pernas. Metade do corpo dentro d’água e metade fora. A correnteza vai levando todas as energias negativas. Rio abaixo. Vão desembocar no mar. Diluídas. Silêncio profundo. Escuto no máximo minha respiração. Estado zen. Zen nada para fazer. Tão abstraído que me esqueci de almoçar. De propósito. Delongando ao máximo aquela sensação de contato íntimo com a natureza. Um contato entorpecente. De êxtase e de álcool. Tomei uma cervejinha. Duas. Vamos lá... várias. O calor e o suor permitem esse excesso. Aliás, o que seria da vida sem excessos né? Chata. Preciso tomar uma decisão drástica. Ou levanto da cadeira semi enterrada na água para almoçar ou para dar um novo mergulho no rio. Mergulho. Melhor. Comida para que? Ali já tem alimento demais para alma. Congestão. Não sinto as picadas dos insetos. Naquela altura do Rio Araguaia quase não existe mosquitos. Lembro-me onde estou. Araguaia. Meu Araguaia. Lá para as bandas do Estado do Tocantins divisa com Pará e Maranhão. Longe. Prá mais de mil e duzentos quilômetros da minha casa. Mas minha casa parece ser ali. Sinto a brisa quente bater. Ameniza o calor. Lembro-me que mais tarde ela amornará. Virá o cair da noite. Na beira da fogueira com lenha crepitando e viola desfiando. Moda da boa. Alguma coisa a assar na brasa e uma bebida quente para esquentar o corpo. E a alma. Sinto o cheiro da seresta. Mais a noitinha barraca. Ver a lua. Ver as estrelas. Ah as estrelas... parece que lá elas são mais. Na cidade elas não brilham como no céu da beirada do Araguaia. Meu Araguaia. Sinto cheiro do sereno. Friozinho da madrugada, edredom e lanterna. Dias quentes, noites frias, coração morno. Sinto o cheiro do orvalho logo ao raiar o sol. Não dá preguiça de levantar cedo na beira do Araguaia. Os pássaros cantam em algazarra e o sol começa a castigar as barracas de lona. Levanta e vai em direção ao cheiro do café. Morno. Qualquer coisa de alimento para o corpo. A alma já está enfastiada. Começa tudo outra vez. Sinto o cheiro de nostalgia. Passei quase todos os meus aniversários na beira do Rio Araguaia. Meu Araguaia. Quase não ganhava presente. Quem vai lembrar-se de levar presente para beira do barranco? Não importava. O Rio era meu presente. Justo e necessário. Parecia que éramos feitos um para o outro. Separados no nascimento. Sinto o cheiro de cidade. Ainda estou de olhos fechados. Parece que ligaram o ar condicionado. Mas na beira do rio? A água parece que molha minha roupa, meu sapato. Abro os olhos para me certificar. Estou sentado no meu escritório. Só. Sinto um desapontamento desabar. Sinto vontade de chorar. Sinto muito. Não estou na beira do Araguaia. Esse ano não ganhei presente de aniversário. Mas deixa estar. Enquanto viver será meu. Enquanto viver serei seu. Meu Araguaia.  





Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de julho de 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

ei você aí, me dá um dinheiro aí?

Seu salário já está na internet?


Ei você aí, me dá um dinheiro aí?





Quanto você ganha de salário? Você mesmo servidor público! Estou falando com você! Não adianta olhar para o lado e disfarçar. A resposta à sociedade terá que ser dada! E a polêmica está no ar. Fruto da Lei n. 12.527/2011 que foi sancionada pela Presidente Dilma. A famosa lei de acesso a informações públicas. Cento e oitenta dias foram dados para que todos os brasileiros pudessem ter acesso aos rendimentos dos funcionários dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Entre cumprimentos e descumprimentos, o fato é que “nunca antes nesse país” se falou tanto sobre os salários do funcionalismo público. E junto a isso, logicamente, nunca se falou tanto em transparência versus invasão de privacidade. E você que está lendo nesse momento? É a favor ou contra a divulgação dos proventos dos funcionários públicos? Acha que é direito do cidadão brasileiro, como pagador, saber essas informações? Ou acha um descabimento total? O fato é que entre desculpas e argumentações, muitos cumpriram a determinação. E ai entram os jeitinhos brasileiros travestidos de erro de informação. “Mas olha que esse é o salário bruto! Tem a retenção do Imposto de Renda que come quase metade do salário!”. “Gratificação não conta como salário!”. Tudo na tentativa de esconder o real provento a que são agraciados os trabalhadores públicos. O pessoal do Judiciário então... Nunca se buliu no Poder Judiciário. Bastião da integridade e retidão. Falar em dinheiro é quase uma blasfêmia. E aí surgem os pensamentos errados no imaginário popular. “Imagina se meu vizinho descobre quanto eu ganho?!?! Vai querer me pedir dinheiro emprestado.”. “Se divulgam meu salário, meus filhos correm risco de serem sequestrados.”. “Todos vão achar que ganho muito e trabalho pouco.”. Aí entra o cerne da questão. O ponto onde o cronista queria chegar com toda essa prosopopeia. Sendo sincero, não acho que os servidores públicos recebam excessivamente. Não vejo essa disparidade de proventos que tanto se alardeia na mídia. Conheço vários profissionais liberais, empresários e executivos que recebem tanto quanto ou mais que muitos funcionários públicos de alto escalão. Acho que muitos cargos deveriam receber ainda mais como Prefeitos, Delegados e Juízes. São funções extremamente desgastantes e que muitas vezes colocam a própria vida em risco. E afinal de contas a maioria deles prestou concurso para estarem ali ou foram eleitos de forma popular. O que me causa indignação é a maneira como muitos se portam no trato público. O conceito de corrupção arraigado no âmago do brasileiro que leva o funcionário público a cair em tentação e sujar as mãos na lama do crime. Do colarinho branco ou não. O que me causa indignação é a ideia esdrúxula de que passou em um concurso, não terá que trabalhar mais nunca na vida. Pode viver de pernas para ar, afinal estabilidade é meu nome. Pelo contrário! Deveria fazer jus ao provimento pago pelo cidadão brasileiro. Assim como em todo emprego. Vestir a camisa. Cumprir com suas obrigações. O que me causa indignação é a cultura imbecil de que a coisa pública não é de ninguém. Pois sim. É sim. É minha e sua e de todo povo brasileiro. Se os salários estão ou não na internet, pouco me interessa como cidadão. O que me interessa de verdade é que cumpram suas funções. E sejam dignos delas.   









Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 20 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Auto Epitáfio

Amigos leitores

que minha loucura seja perdoada.


Auto Epitáfio



O tema da crônica de hoje é um tanto fúnebre. Não tanto se recobrarmos o ofício do cidadão que vos escreve. Mas diríamos que não se trata de abordagem cotidiana e banal. A arte de escrever epitáfios remonta os primórdios da humanidade e tenta deixar para posteridade, em breves palavras, as vidas que jazem sob sete palmos. Poucos tiveram a coragem de escrevê-los ainda em vida. Talvez os poetas loucos e os coveiros (espero encaixar-me somente na segunda categoria). Dentre os raros que se arriscaram destaco “A hora íntima” de Vinícius de Morais com seu começo icônico: “Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo para estar no caixão comigo?”. Tirando a loucura e morbidez, muitos poderão se perguntar o porquê dessa atitude. Respondo de bate pronto. Aproxima-se a data de meu aniversário e aproveitando a máxima do inferno astral que supostamente beira tais dias, faço-o como um balanço desses anos passados de vida. Um resumo de atitudes, feitos, dores e amores que marcam a vida de um ser vivente e pensante. Talvez seja esse um dos motivos que levem os homens a não fazê-lo. Será que tenho algo de bom a dizer em defesa própria? Vivi uma vida que pôde, de alguma forma, ser cantada em verso e prosa? Tenho algo de importante que mereça ser grafado em minha lápide? Que cada um responda por si só essas perguntas. Mas deixemos de lado os delongados questionamentos da ignorância humana e partamos para o objetivo final. Segue escrito em letras esculpidas no frio mármore:
 

“ Aqui jaz um homem que morreu...

... de amores pela vida, pela morte, pelo nascer do sol, pelo por do sol, pelos sóis que iluminaram sua vida.
 

        Aqui jaz um homem que escreveu...

... seus sonhos, suas glórias, suas decepções, suas virtudes, seus amores, suas dores e suas mentiras.

Aqui jaz um homem que amou...

... as pessoas, as histórias, as paisagens, os excessos, as comidas, as bebidas, as músicas, os perfumes e a si próprio.


Aqui jaz um homem que falhou...

... em não ser rico, famoso, bonito, inteligente, perspicaz, humilde e sincero.


Aqui jaz um homem que abundou...

... em deficiências, erros, ilusões, vícios, paixões e comedimentos.

Aqui jaz um homem que mentiu...

... em dizer que era forte, que era imortal, que era capaz, que era único e que era passageiro.

Aqui jaz um homem que chorou...

... enquanto filho, marido, pai, irmão, amigo e criança.
 

Aqui jaz um homem que viveu...

... e que agora só o faz na lembrança dos que lhe queriam bem.”



Segue o cortejo.        




Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 13 de julho de 2012



sexta-feira, 6 de julho de 2012

O toque de Midas

caros amigos leitores

uma história de empreendedorismo.

em especial para meu amigo Newton Fernandes


O toque de Midas



Nos idos de 2003 em um desses aeroportos do Brasil no qual os goianos são obrigados a fazer conexão, estava eu sentado na sala de embarque quando um senhor sentado ao meu lado puxou conversa. De uma maneira muito simpática perguntou de onde vinha e para onde ia. Respondi-lhe que vinha de Goiânia e ia para meu primeiro congresso cemiterial. Apressei-me logo a explicar que era engenheiro e que naquele momento minha missão era desenvolver e construir um cemitério parque na capital de Goiás. Essa pressa em esclarecer ainda era fruto do meu preconceito interno sobre minha atual ocupação, qual seja, empresário do setor funerário. Ele muito tranquilamente escutou minhas palavras e em seguida, mais tranquilamente ainda, disse que também militava na área cemiterial. Era proprietário de um cemitério vertical em Curitiba. Naquele momento meus olhos brilharam como se tivesse encontrado alguém que de certa forma não me olharia torto pela ocupação funesta. Perguntei o que pude, e ele, dentro do meu afã por conhecimento, respondeu da maneira que pôde. Encantei-me por suas histórias e a partir daquele momento comecei minha paixão pelo setor que abarcava. Nascia ali naquela sala de embarque, a figura do “Coveiro”. Trocamos cartões de visita e nos despedimos prometendo encontro em breve para nova conversa. Deixei aquele senhor sentado na sala de embarque com a sensação de que ainda tinha muito a aprender com ele, mas que aquele não era o momento. Tudo na vida tem o momento certo.



            Semana passada estava tomando café e folhando uma revista, enquanto aguardava a hora de retornar ao batente, quando me deparei com uma reportagem que chamou a atenção. Falava sobre o sonho de um empreendedor em montar a primeira fábrica de automóveis 100% nacional. O ano era 1963 e o automóvel proposto era o Democrata. Na mesma hora identifiquei aquele senhor que havia encontrado no aeroporto no ano de 2003. Depois de devorar a reportagem, fotografei as páginas e enviei, via celular, para meu sócio e amigo na cidade de Curitiba. Sentia orgulho naquele momento, pois uma história que eu já conhecia estava sendo contada em uma revista de circulação nacional. Senti como um filho que escuta falar bem de seu pai. A Reportagem contava uma história de empreendedorismo e superação. Uma história digna de Cervantes. Em pleno florescimento dos anos de chumbo brasileiro a tentativa de implantar uma indústria nacional batendo de frente com as grandes montadoras automobilísticas da época. Realmente se assemelhava a Dom Quixote e suas batalhas desumanas contra os moinhos de vento. Mas não era ilusão. Talvez um pouco fora de seu tempo, mas aquilo era empreendedorismo.  



            Hoje recebi, via correio, uma encomenda de Curitiba muito especial. Um exemplar do livro “Democrata – o carro certo no tempo errado” de Roberto Nasser. O remetente foi o mesmo para quem mandei as fotos da reportagem na semana passada. Meu amigo e sócio Newton Fernandes. Filho do senhor que encontrei no aeroporto. Nelson Fernandes. Não contive a ansiedade e rasguei o envelope começando de imediato a leitura. Gosto muito de histórias de empreendedores. Ainda mais essa que está tão próxima do meu convívio. Já tive várias oportunidades de conversar com Dr. Nelson após o breve encontro no aeroporto, e toda vez que o faço tento sugar casos e contos de sua experiência de vida. Além da Indústria Brasileira de Automóveis Presidente – IBAP são de sua autoria o Acre Clube e o Hospital Presidente na cidade de São Paulo. Hoje o projeto é o belíssimo e bem sucedido Cemitério Vertical de Curitiba, administrado pelo filho e herdeiro de virtudes Newton. Penso que na vida às vezes nos encontramos com pessoas que estão além do seu tempo. E Dr. Nelson é uma dessas pessoas. E digo mais ainda. O empreendedor não é tão importante pela obra física que deixa para a posteridade, e sim pelo exemplo que incentiva novos feitos. Talvez aquele senhor do aeroporto não saiba e eu posso nunca ter dito, mas naquele momento ele deu a primeira martelada na forja do que poderia ser um projeto de futuro empreendedor. De forma desinteressada e magnânima. Característico dos homens além de seu tempo. E quem recebe só pode agradecer, e tentar retribuir passando seu legado para frente. Tudo no seu tempo.
    



Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 06 de julho de 2012







CAPA DO LIVRO