sexta-feira, 30 de outubro de 2015

cozinhando com o Coveiro 5 - oriental femminili


Cozinhando com o Coveiro 5 – oriental femminili

 

           

A maioria das pessoas acha que um prato para ser aclamado tem que ser complexo e cheio de gourmetização. Tipo aqueles que ficam cozinhando por dias a fio ou em temperatura constante à perfeição. Eu entendo que comida boa pode ser simplificada e nem por isso perder sua essência. Outro engano é achar que tem que produzir tudo na cozinha. Tipo não pode usar maionese industrializada ou molho pronto. Depende. Existem tantos produtos de boa qualidade nos nossos mercados hoje em dia que a grande maioria das pessoas não consegue distinguir o caseiro do industrializado. Se tiver oportunidade faça a sua própria maionese (se bem que para chegar no ponto...) mas se a celeridade não lhe permitir, não tenha vergonha de lançar mão de produtos já prontos mas que tenham qualidade. Quer ver?

            Achei esses dias camarão médio já cozido. Muitos torcerão a cara dizendo que bom são os frescos com casca. Mas se só em pensar em descascar camarão te dá arrepio, deixe o pudor de lado e leve o pré cozido. Quer uma vantagem? Eles já estão no tamanho final de cozimento. Melhor que pegar aquele camarão extra grande que após passar na frigideira desaparece e te deixa com a sensação que comprou gato por lebre. Tempere-o com alho batido e sal (lembre-se que o camarão é primo primeiro do alho) e acrescente gengibre amassado. Gengibre é sem dúvida nenhuma, na minha opinião, o tempero que mais lembra que algo é oriental. Pois reserve esse camarão para pegar o tempero. Muitos perguntarão: e o limão? Não vai passar? Nesse caso não. O camarão já é pré cozido e o limão iria apressar ainda mais o processo de cocção. Além do que o uso do limão e outros produtos ácidos serve para retirar cheiro forte de peixe e frutos do mar. Nesse caso não há necessidade. Peque uma frigideira e em fogo alto despeje um fio de óleo de gergelim. Coloque uma porção generosa de ervilha torta (hummmm). Junte umas três folhas de salvia que colheu na horta (ainda não tem horta? Tá passando da hora né?). Salteie brevemente para manter a ervilha crocante. Sal e pimenta do reino. Reserve. Na mesma frigideira reforce o óleo de gergelim (pode usar azeite mas não fica com aquele gostinho oriental do gergelim) e coloque gengibre picado. Porção generosa. Deixe fritar como alho. Acrescente os camarões. O cozimento é bem rápido. Antes de chegar ao fim ponha uma dose de saque. Pensa no aroma na cozinha. Não invente de flambar senão vai sujar o fogão. Volte com as ervilhas tortas. Abaixe o fogo e acrescente molho para yakssoba. Aí vem a questão. Existem bons molhos no mercado. Se estiver com tempo faça o seu. Como? Carcaça de frango cozida na panela de pressão até derreter, shoyu, açúcar, gengibre, Ajinomoto, saquê para cozinha, sal e amido de milho (vulgo maisena). Fica show de bola, mas demora mais tempo fazendo o molho que o prato completo. Fique à vontade. Acrescido o molho deixe até borbulhar e reserve. Agora vem uma operação delicada. Cozinhar o bifum. O que é? Macarrão de arroz. Super delicado. Mas bota delicado nisso. Faz assim. Ferva água com sal. Assim que ferver, desligue o fogo e mergulhe o bifum. Tampe a panela e deixe por aproximadamente três minutos. Cuidado para não passar do ponto senão ele se desmancha. Escorra o macarrão e acrescente no molho que está reservado. Faça aquela firula com cebolinha verde picada. Nessa hora a cozinha já está com cheiro de oriente e está em tempo de abrir aquela cerveja especial. Qual? Lion Fish Femminili. Desenvolvida para o paladar sensível das mulheres tem adição de pétalas de rosas e hibiscos em seu feitio. Os aromas florais de rosas e sabores tendendo para o azedo do hibisco rasgam o verbo para o picante do gengibre. Posso lhe garantir que nem cachorro come. Porque não sobra. Bom apetite.         

 

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Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 30 de outubro de 2015


 

 

Quer ver a cara do bifum com camarões e ervilha torta harmonizando com a Lion Fish Femminili?
 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

a arte de envelhecer


A arte de envelhecer

 

            Ontem estávamos comemorando o aniversário de mamãe (como ela gosta de ser chamada) quando me detive a observar minha avó de 87 anos iniciando sua segunda caneca de chopp. Bebia como se aquela fosse a primeira de sua vida. Com uma boca boa. Lembrei-me de Miele que havia nos deixado há poucos dias. Muitos agora poderão se perguntar qual a relação entre minha avó e o Miele e eu me proponho a respondê-la de imediato. Nenhuma e muitas. A relação, na verdade, existe somente na mente do escritor que se esforça para compreender um pouco mais do sentido da vida. Mas do que estamos falando? Da arte de envelhecer.

           

Só fui entender quem foi a figura Luís Carlos Miele quando assisti a um musical sobre a vida da cantora Elis Regina em São Paulo uns tempos atrás. Vi a carreira de uma pessoa fora da curva, no caso de Elis, ser descoberta e alavancada por uma figura que dominava o meio cultural brasileiro nas décadas de 50 e 60. Não só a carreira da pimentinha, mas também a de artistas como Roberto Carlos, Alcione, Wilson Simonal, Sérgio Mendes, Milton Nascimento, Agnaldo Timóteo entre outros. Tudo isso numa classe fora do comum. Foi produtor, ator, escritor, apresentador e diretor de teatro, cinema, televisão e espetáculos. Hensga! Um currículo invejável. Até assistir o espetáculo sobre Elis tinha na figura de Miele um senhor muito do safado que apresentava um programa de top less, em pleno horário nobre da televisão brasileira, nos anos 90. Não que eu não gostasse, mas o tinha na mesma conta do Peréio. Um arremedo de bon vivant decadente. Estava enganado. Sua produção cultural foi invejável e continuou até o fim. Não com o glamour que o cercou nos tempos idos, mas com a maturidade que seus mais de 70 anos lhe conferiram. Soube alavancar os artistas e se alavancar. Pareceu entender o papel de coadjuvante que ajuda no sucesso geral. Soube envelhecer com classe.

           

Minha avó, mais conhecida como Dona Fia, ficou viúva muito cedo. Nem por isso terceirizou as rédeas da família. Nunca de maneira matriarcal italiana com pulso firme e tom elevado. Sempre ficou nos bastidores. Observando o que se passava em torno dos filhos, genros, noras, netos e bisnetos. De vez em quando conversava com um pontuando algo que ela entendia ser o essencial. Outras vezes mostrava sua discordância sem alterar o semblante. Eram conselhos de vovó. Nunca a vi alterando a voz. Nunca precisou. A família sempre se fechou em torno dela. O argumento era para cuida-la, mas no fundo ela que sempre cuidou da família. Curtiu as viagens as praias com todas as confusões provocadas pela aglomeração de pessoas. Foi a Disney e andou de montanha russa no carrinho da frente para agradar os netos. Mora sozinha, borda à perfeição e cuida de suas plantas com mãos de fada. Ontem quando a vi iniciar sua segunda caneca de chopp e lembrei-me de Miele, senti uma sensação diferente. Senti que ela observava a todos na mesa como se desse a benção para aquela balburdia familiar, mas também senti que envelhecia. Passava mais ainda aos bastidores. Assumia o papel de coadjuvante. Agora realmente precisava ser cuidada. Mas mostrava ali a todos que quisessem ver a sua arte. Suprema. Coisa que poucos dominam. A arte de envelhecer com classe.         

   

             

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 16 de outubro de 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

não é meu!


Não é meu!

 

           

Zé Coalho era o nome de guerra. Tinha adquirido a alcunha pelo ofício. Fabricante de queijos do Município de Cunhalândia no interior do Estado de Minas Gerais. Era o único a se ocupar do importante labor. Passava todos os dias nas fazendas recolhendo o leite e na volta vendendo o queijo. De tão conhecido resolveu um dia se candidatar a vaga de vereador. Diziam para ele que pessoa boa tinha que defender o povo. E ele era pessoa boa. Muitas vezes fazia queijo fiado quando via a dificuldade de um ou outro. Sua esposa Maria do Zé do Coalho não gostou muito da ideia do ingresso na politica. Dizia que esse assunto era para gente letrada, e seu marido assinava documentos com o dedo polegar. Não tinha nem conta bancário o pobre coitado de vergonha de ter que manchar o dedo na almofada azul. Mas nada desencutia da cabeça do Zé a possibilidade da candidatura. Precisava defender o povo do seu município. E assim foi feito. Candidatou e ganhou. Ascendência meteórica. Caiu nas graças do Prefeito e logo se tornou líder do governo na Câmara. Dai para Presidência da casa foi um pulo. Agora Zé do Coalho sentava na cadeira da cabeceira. Zé do Coalho não! Senhor Presidente da Câmara Municipal de Cunhalândia José da Silva. Mas nada adiantava esconder a alcunha. Todos o conheciam pelo apelido. E assim ia. Certo dia surgiu um boato. Uma conta bancaria de Zé Coalho na capital. Com um depósito vultoso. Logo se espalhou pela cidade. Igual rastilho de pólvora. Certeza que virou aglomeração de gente na frente da Câmara dos Vereadores. Um diz que me diz de gente querendo explicação. Gente acusando: “Como pode um vereador que veio do povo estar envolvido nesse tipo de irregularidade?”. Gente defendendo: “Pode ser engano”. Todos aguardando o pronunciamento do Senhor Presidente. Surgiu outro boato. O dinheiro depositado na conta na capital era propina de empreiteira que tinha feito a reforma na praça central. E que reforminha mais meia boca viu?!! Aí a confusão estava formada. Uma revolta só. Zé do Coalho tido como cidadão respeitado e honesto envolvido em corrupção?! A turba foi ficando histérica e já tinha empurra empurra quando o acusado saiu pela porta da frente e improvisou uma fala à multidão. Negou veementemente que tivesse conta em banco na capital e principalmente que tivesse recebido propina de empreiteiro que fosse. Aplausos foram ouvidos timidamente. Vaias em maior quantidade. Manoel do banco gritou indignado: “sou gerente do banco aqui do município há trinta anos e nunca abriu uma conta conosco. Agora abre uma na capital? Isso é muita trairagem!” Mas Zé do Coalho defendia a postura de que tudo não passava de intriga da oposição. Foi quando Maria do Socorro, irmã da esposa de Zé, veio em seu socorro: “você não está se lembrando Zé? Essa conta foi aberta na capital para pagar o tratamento da minha irmã.”. Nesse momento o acusado teve que admitir. Realmente havia uma conta em seu nome na capital. Mas tinha sido por um motivo justo. Sua esposa foi acometida de câncer e só havia tratamento na capital. Usou suas economias para custear as despesas. Fazia transferências para o hospital daquela conta aberta. Disse isso à multidão que estava se enfurecendo com os desencontros de informação. Admitiu o engano. Tinha realmente uma conta na capital. Tudo para salvar a esposa enferma. Zé chorou. A multidão chorou. A oposição não: “E o dinheiro depositado na conta?”. Soma considerável para o salário de vereador. Esse não estava explicado. Zé alegou que não era dele. Que tinha vida condizente com seu salário. Nada além disso. Muita gente assentiu daquela informação. Mas tem um dinheiro nessa conta. Precisava esclarecimento. Se não é do Zé então de quem seria? Quem teria depositado? Seria armação da oposição? Zé jurava tanto que aquele dinheiro não lhe pertencia que prometeu dividir a soma com a população do município. Ouviram-se muitas palmas e um coro de “Zé” “Zé” Zé”. Mas não era esse o caso. “Então vamos montar uma comissão para averiguações na capital”. Sugeriu um outro vereador. Boa ideia. Comissão foi sendo montada. Vai o Prefeito, Padre, Vice Presidente da Câmara, representante da oposição, Seu Antônio Ancião, Dona Maricota da rádio comunitária. E foi crescendo a quantidade de gente. Quando é fé metade da cidade compunha a comissão de esclarecimentos. E quem pagaria a conta do deslocamento? A prefeitura é claro! CPI do Zé. As mulheres correram em casa para preparar as marmitas de farofa de frango para a viagem. A distância não era grande mas tinha a tradição da parada para a farofa. Subiram todos no ônibus escolar para seguir para capital. Nesse dia não haveria aula porque não haveria ônibus escolar. Nem expediente na prefeitura porque não haveria Prefeito. Nem na Câmara porque nem vereador tinha. Feriado municipal foi decretado. E todos partiram rumo a capital. Chegando à porta do banco da capital aquela quantidade de gente, a população achou que era manifestação. E logo se formou aglomeração. Entraram todos no banco e logo se dirigiram ao gerente. Todo mundo era autoridade ali. Exigiam explicações. O gerente ainda tonto com aquela situação correu para a sala das gravações. Talvez conseguisse identificar o depositante da quantia pelos vídeos de segurança. Todo mundo seguiu para a sala apertada. Ninguém queria perder. E o Zé confiante que seu nome seria limpo daquela acusação infame. E não é que conseguiram identificar uma pessoa! Um senhor de barba farta e casaco. Uma coisa estranha para aquele calor dos trópicos. Mas o ângulo era muito ruim. Não dava para identificar mais detalhes. De qualquer forma não parecia ninguém da cidade. E com isso o acusado já gritava em bom e alto som: “Eu falei que não era meu esse dinheiro! Deve ser gente da oposição!”. O representante da oposição iniciou um bate boca que logo foi esfriado por outra ideia. “Vamos procurar nas fichas de depósito a identificação do senhor de barba e casaco. Com essa soma de depósito é norma do banco que haja identificação do depositante.”. Correram para o saguão do banco que há essa hora já estava aquela confusão de gente. Pega o livro de registro. Abre na página do dia. Eis que estava escrito lá o nome do meliante. O Zé já gritou para o Juiz da cidade que estava presente na comitiva: “manda prender Seu Juiz! Olha aí o safado que quer me denegrir”. O Juiz logo rebate: Então me diga logo no nome dele que já emito mandado de prisão.”. O gerente do banco leu o nome do cidadão em voz alta: “Santa Claus”. Era o que estava escrito. Nisso uma senhora do caixa gritou de lá: “Ah me lembro desse senhor que fez o depósito! Ele desceu num treno com umas renas!”. Eis que Zé não titubeou: “ então manda prender essa renas também Seu Juiz! Devem ser comparsas. Eu não disse que esse dinheiro não era meu?!” 

           

 

 

* essa é uma estória de ficção

 

    

   

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 09 de outubro de 2015

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

pelos meus, pelos seus, pelos nossos


Pelos meus, pelos seus, pelos nossos

 

           

            Hassan e Omar eram quase irmãos. Só não tinham os laços sanguíneos, mas nasceram no mesmo ano, foram criados juntos e principalmente professavam a mesma fé religiosa. Irmãos de direito. A periferia de Damasco, na Síria, foi o local onde aprenderam os primeiros passos, as primeiras palavras e os primeiros textos do Alcorão. Não podiam dizer que a vida era fácil, pois seu país sempre viveu em guerra. Desde que eles se entendiam como gente. Mas eram felizes com o que tinham e cultivavam um grande orgulho de suas origens e de seu país. Até o dia que apareceu o Estado Islâmico e separou os dois amigos-irmãos. Hassan conseguiu se esconder ajudado por sua família, mas Omar não teve a mesma sorte. Foi levado pelos soldados armados e ficaram mais de ano sem se verem. A família já o considerava morto, mas o amigo cultivava ainda a esperança de se encontrar novamente com Omar. E assim a guerra foi recrudescendo. Cada dia ficava mais difícil a sobrevivência em sua casa. Num ato extremo Hassan decidiu fugir. Traçou os planos, pegou o dinheiro que acumulara em seus anos de trabalho duro e mirou o destino. Alemanha. Lá seria seu porto seguro. Começou assim sua via crucis. Encomendou a travessia até a Turquia e de lá seguiria até o seu destino final. Estava disposto a atravessar a Europa a pé. De joelhos se fosse preciso. Numa noite sem lua entrou no barco que iniciaria sua jornada. De cabeça baixa entoava uma reza para o sucesso da jornada. Lágrimas escorriam ao lembrar-se dos familiares e amigos mortos pela guerra sem propósito. Mais lágrimas ao lembrar-se dos que ficavam no inferno. Aquele inferno que era sua pátria. Seu solo. Lembrou-se de Omar. Chegou a ouvir sua voz sussurrando as mesmas frases do Alcorão. Aquelas que aprenderam juntos. Foi quando tomado pela surpresa olhou para o companheiro que estava ao seu lado no barco e identificou sob a luz pálida da noite seu amigo querido. Irmão. Foi uma comoção sem par. Abraçaram-se e assim permaneceram por alguns minutos sem palavras. Só lágrimas. Um reencontro. Um bom sinal para uma vida nova que pretendiam começar. Omar contou ao amigo os terríveis dias que passou nas mãos dos terroristas. Torturas sem fim. Mas tinha escapado. E como Hassan, estava disposto a esquecer das agruras vividas em seu país e começar nova vida. Juraram ali naquele barco não se separarem mais. Juntariam forças e viveriam felizes. Porém a vida lhes pregaria nova peça. Com o mar revolto o barco não aguentou e virou. Homens ao mar. Foi um desespero total. Gritos e choros quebravam o silêncio da noite. Foi então que os amigos se separam mais uma vez. Hassan conseguiu nadar até a praia turca. Exausto procurou seu irmão. Nada. Passou dois dias naquela praia esperando notícias. Nada. Resolveu seguir caminho. Tinha perdido seu amigo mais uma vez. Mas restava-lhe a esperança. Sempre. Algo lhe dizia que iriam se encontrar de novo. Mais uma vez foi adiante. Andou um sem numero de milhas a pé. Trem. Carona. Chegou. Alemanha. Berlim. Foi acolhido. Uma família alemã lhe deu pouso. Água. Comida. Um banho. Uma esperança. Iniciou nova vida. Arrumou emprego. Trabalhou. Ajudou refugiados que fugiam da guerra como ele. Ganhou uma família. Berta e Claus. Não tinham filhos. Adotaram Hassan. Hassan os adotou. Saia todo dia de manhã para comprar o café da manhã de seus pais adotivos. Ia pensativo pelas ruas frias de Berlim mas sempre com um sorriso no rosto. Alá tinha lhe dado uma nova chance. E ele era imensamente grato por isso. Abriu a porta da mercearia e foi logo cumprimentando o dono. Já era conhecido no bairro. O filho sírio de seu Claus e Dona Berta. Foi quando num átimo de segundo viu Omar sentado numa mesa de canto. Seu coração transbordou de alegria. Parecia não acreditar que o destino tinha lhe presenteado mais uma vez com aquela oportunidade. Andou a passos largos em direção ao amigo. Parou na sua frente e esperou avidamente ser reconhecido. Omar levantou os olhos e olhou diretamente para Hassan. Sem uma palavra proferida levantou-se e foram de encontro um ao outro. Mas dessa vez foi diferente. Omar puxou uma arma e rendeu Hassan colocando-o em posição de refém. Gritou em voz alta palavras que Hassan não conseguiu entender. Não queria entender. De imediato as pessoas que estavam no estabelecimento saíram em disparada. Em segundos estavam os dois sós naquele local. O mesmo que Hassan comprava café todos os dias para seus pais. Ele custou a entender o que estava acontecendo. Não entendia. Ficaram horas em silencio enquanto do lado de fora se formava a aglomeração de pessoas. Polícia. Imprensa. Palanque. Adolf, político ultra direitista já estava a vociferar palavras de ódio aos imigrantes. Aqueles que a Alemanha acolhera com tanto desprendimento e agora envenenavam as entranhas da alma germânica. Quem olhava de fora quase via uma certa figura histórica que havia arrastado o mundo para uma guerra. Gritava em alto em bom som que fazia aquilo pelos seus compatriotas. Pelos seus. Mas Adolf não falou muito tempo sozinho. Logo começaram as contraposições de Ali. Sírio erradicado alemão que tinha uma ONG de direitos humanos de refugiados. Vivia para ajudar compatriotas que buscavam a sobrevivência na Alemanha. Muitas vezes radicalizava o discurso e levava até as últimas vias seus propósitos. Cada palavra gritada pelo extremista de direita era rebatida pelo extremista de esquerda. “Pelos meus compatriotas” falava Ali. Pelos meus. Alheios a toda essa confusão que se formava do lado de fora, Omar e Hassan permaneciam em silencio dentro da mercearia. Só lágrimas. Pareciam não querer entender os motivos um do outro. Foi quando Omar falou ao amigo que Alá o havia enviado para destruir o inimigo. Carregava bombas pregadas ao seu corpo e o detonador estava em sua mão. Esperava a hora que a aglomeração se tornasse mais intensa do lado de fora e sairiam para detonar a bomba e cumprir seu destino. Fazia aquilo por Alá, pelo Estado Islâmico e pelos nossos compatriotas. Pelos nossos. Foi nesse momento que Hassan pode olhar mais atentamente pelo vidro e enxergou seus pais perto do cordão de isolamento feito pela polícia. Berta e Claus olhavam para ele como se quisessem trocar de lugar com o filho. Nesse instante passou um filme por seus olhos. Todos os momentos que vivera até chegar aquele lugar. A vida em Damasco. Seus pais biológicos que morreram por conta da guerra. A travessia até chegar a Alemanha. Os pais que o acolheram com tanto carinho. O reencontro com o amigo-irmão. A vida que lhe sorrira novamente. A vida. Com os olhos marejados a olhar o casal que esperava apreensivo sua libertação, virou-se para Omar e falou que faria aquilo por todos. Pelos meus, pelos seus e pelos nossos. Apertou o detonador na mão do amigo e os dois morreram ali sozinhos naquela manha fria de Berlim. Sozinhos.             

 

 

* essa é uma estória de ficção

 

    

   

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 25 de setembro de 2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

cozinhando com o Coveiro 4 - carneiro e pimenta em Vienna


Cozinhando com o Coveiro 4 – carneiro e pimenta em Vienna

 

           

Um dos grandes baratos da culinária é misturar coisas que aparentemente não tem tradição de estarem juntas. Calma que não cometerei heresias gastronômicas. Nada perto de misturar leite com manga como profetizaram as mães ao longo dos séculos. Então antes que sejamos excomungados por nossas genitoras não delonguemos muito o papo e principiemos nossa receita:

 

            Ache uma banda de costela de carneiro. Como achar? Se vira! Toda cidade tem uma feira que tem um cidadão que vende carneiro. Ah você não gosta de carneiro? Desculpe mas nesse caso terá que esperar a próxima receita. Pois pegue essa costela e tempere. Faz assim. Bata tudo no mix de alimentos: cebola, alho (bastante), sal, pimenta do reino em grãos, sálvia, hortelã, alecrim, salsa e azeite. Essa rica pasta de temperos vai até uma vasilha média e recebe uma garrafa de vinho branco seco. Pelo amor de Deus não me vá colocar vinho doce! Nunca! O vinho além de servir como veículo dos temperos, ainda dá um toque de acidez necessário ao prato. Se a sua costela estiver com muita gordura ou aquele cheirinho de ranço comum à carne de carneiro, pode dar uma lavada na mesma com limão ou vinagre. Só tome cuidado para não cozinhar a carne. Pois bem. Deposite a costela em uma forma que já possa ir ao forno. Regue com o tempero que preparou acima. Lembre-se de regar em todos os cantos. Cubra a forma com um papel filme e leve a geladeira, pois você só irá assar essa costela no outro dia. Ah você queria fazer hoje? Então carregue um pouquinho mais no sal e reze para pegar o tempero. Para os que foram previdentes e fizeram o planejamento antecipado da marinada, no dia seguinte retire o papel filme da forma (nunca coloque nada no forno com papel filme tá?), retire um pouco do tempero para regar mais tarde e coloque papel alumínio para simular um forno. Esse processo faz o cozimento da carne. Leve ao fogo médio (250º) por aproximadamente uma hora e meia. Depois desse tempo decorrido verifique se a carne está cozida e retire o papel alumínio para terminar de assar. Nesse processo de transição de mais uma regada com o molho que restou no fundo da forma e com o que retirou antes de começar o processo de cocção. Recoloque a costela no forno e espere por mais uma hora. Aí vem a pergunta que não quer calar: Qual o acompanhamento? Aha! Agora que vem a questão levantada no início do texto. Presta atenção na prosopopeia. Pegue cebola. Muita cebola. Corte-as em fatias finas no sentido longitudinal. Depois lance mão de pimenta dedo de moça. Quantidade boa. Corte-as do mesmo modo que fez com a cebola. Ah, tire as sementes da pimenta. Isso dará o picante na medida certa (ou não). Reserve. Numa frigideira de fundo grosso (as de fundo fino queimam a farinha) coloque uma porção exagerada de manteiga de leite (nunca use margarina!). Mas uma porção que faria inveja a um cozinheiro francês. Coloque um fio de azeite para não queimar a manteiga e coloque as cebolas. Abaixe o fogo e tenha paciência. As cebolas vão dourar até quase queimar. Mexa sempre. Quando estiverem bem douradas as cebolas adicione a pimenta. Deixe por um tempo para se misturarem os sabores. Aí acrescente farinha de mandioca. Aquela que sua mãe trouxe de alguma cidade do interior que é famosa fabricante de farinha. Afinal você merece produtos de qualidade. Misture bem e deixe a farinha cozinhar. Acerte o sal. Dois cuidados que temos que ter nesse momento. 1) Sempre que colocar sal experimentar para não passar e 2) assim que finalizado retirar da panela para não queimar a farofa. Pronta? Pois bem. O carneiro também deve estar. Use o dourador do forno para dar a cor charmosa em nossa costela e monte o prato. Nesse momento entra outra pergunta que não quer calar: Com qual bebida harmonizaremos? Eu respondo sem pestanejar. Cerveja Lion Fish Vienna Lager. O amargor moderado dessa cerveja penetra na gordura do carneiro suavizando e casando com os temperos. E a carbonatação densa e pesada suaviza o picante da farofa de pimenta. Deixa-me falar uma coisa... melhor não. Experimentem a combinação e depois me contem. Se não gostarem eu mudo de nome.       

 

 

ps. Onde achar a Lion Fish Vienna Lager?  www.reinodomalte.com.br    

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 18 de setembro de 2015


 

 

 

 

Quer ver a cara da costela de carneiro e farofa apimentada harmonizando com a Lion Fish Vienna Lager?

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

veja bem


Veja bem

           

           

Veja bem. Vamos lá. Devido ao grande fluxo de reclamações em relação à situação atual do país, nós fomos convidados a participar com a solução. Faz de conta que assumimos o papel de juiz supremo. Toda decisão depende de nós. Tipo Todo Poderoso. Prontos para o exercício? Primeiramente vamos destituir a Presidenta. Ela anda muito esquecida, teimosa e condescendente com a corrupção (para não dizer participante). E ainda tem os discursos catastróficos e as frases de efeito negativo. Nosso ouvido não é penico. No lugar dela assume o Vice do PMDB. Que não é unanimidade nem dentro do próprio partido. Além de que se pensarmos bem, o PT, saindo da cadeira de Presidente passa a fazer jogo duro. E isso o PT sabe fazer como ninguém. Pensem na governabilidade. PMDB que não une em torno do Vice e o PT em debandada geral. Não funciona. Passemos a cadeira para o próximo na linha sucessória. Presidente da Câmara. Acusado de corrupção. Quase um déspota (as vezes usarei eufemismos para não fazer juízo de valor e tentar não polemizar). Presente na lista dos dez mais odiados do país. Melhor não. Anda a fila. O próximo a assumir a cadeira seria o Presidente do STF. Sabem quem é né? Pois é. Alguém o quer? Não né. Então quem é o próximo? Nova eleição? Intervenção militar? Melhor não. Vamos deixar a Presidenta na cadeira e tentar achar uma outra solução. Pois bem o país precisa resolver a questão do déficit. Leia-se arrecadar mais que gastar. Partimos pelo mais difícil. Cortar gastos. Vamos cortar o número de Ministérios ao meio e mandar metade dos comissionados para o olho da rua. Nesse caso perderemos o apoio de todos os partidos da base. Além de que se fizermos as contas isso não refresca muito o rombo. O grosso do gasto público está em investimentos, previdência, programas sociais, educação e saúde. Sendo que esses dois últimos são verbas carimbadas. Então deixemos de lado e partamos para os outros. Cortaremos os gastos da previdência e programas sociais. Então seremos conhecidos como carrascos dos pobres e desafortunados, além de usurpadores de velhinhos aposentados. Seremos enforcados em praça pública. Melhor não. Então cortemos investimentos. Nesse caso o país para de vez. Sem infraestrutura, sem produção, sem exportação, sem empregos, sem vendas, sem recolhimento de impostos. Menos faturamento maior déficit. Não resolve. Opa! Aumentar a base de tributação! Precisamos incentivar o consumo. Carros, linha branca e construção civil. Linha de crédito e juros baixos. O povo consome muito e a indústria vende muito e nós arrecadamos muito imposto. Mas como não temos investimento em infra e formação de pessoal as indústrias não conseguem produzir o suficiente. Muita gente para comprar com poucos produtos a disposição. O que acontece? Inflação. Melhor não. Então vamos aumentar os impostos! Pronto! Solução simplista e rápida. Igual na época de Tiradentes. Derrama. Se bem que nossa carga tributária está bem superior ao quinto instituído pelo Rei de Portugal. Aumenta os impostos aumenta o que? Sonegação. Aumenta o que? Informalidade. Diminui o que? Arrecadação. Vixe. E agora? E agora que entra o cerne da questão. Veja bem. Não existe solução única, simplista e mágica. Ao invés de querermos todos dar pitaco em assuntos que muitas vezes não dominamos, façamos a nossa parte. A decisão depende só de nós. Consciência política para colocar as pessoas certas para nos governar. Cobrança veemente em cima dos nossos representantes. Trabalhar e produzir riquezas. Formar cidadania nas gerações futuras. Simples? Não. Extremamente complexo. Mas ou é isso ou vamos de Raul:

 

“A solução pro nosso povo eu vou dá

Negócio bom assim ninguém nunca viu

Tá tudo pronto aqui é só vim pegar

A solução é alugar o Brasil!...”         

 

 

        

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 11/09/15

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

sobre pais e filhos


Sobre pais e filhos

 

           

            Berk Hazan estava se arrumando para trabalhar naquela manhã de setembro. Mais uma em sua vida. O sol ainda demoraria mais de hora para nascer, mas ele já estava de pé. Impávido como uma rocha. Personificava o nome dado pela mãe. Berk que em turco significava forte. Firme. Sólido. Ele era assim. Em todas as questões. Desde a criação do filho, Aaran, até no trato com os negócios. E como bom turco que era, fazia muitos negócios. Tinha uma fama de negociador duro na cidade onde morava. Kusadasi. Além disso, tinha na profissão mais um motivo para ser uma rocha de integridade. Era policial. A lei e a ordem em primeiro lugar. Acordava de madrugada todos os dias porque fazia viagem de quase duas horas entre sua cidade e o balneário de Bodrum onde trabalhava. Desde que começara o levante migratório do oriente médio para a Europa que ele não tinha mais sossego. O balneário paradisíaco se tornara entreposto de imigrantes buscando a sobrevivência no continente mais rico. E a confusão estava formada. Ele como a maioria dos turcos estava acostumado com essa passagem pelo país. A Turquia sempre fora rota de tudo quanto é coisa no mundo. Passagem obrigatória do oriente para o ocidente. Mas dessa vez a coisa estava se tornando mais séria. Mas ele não se preocupava muito. Fazia seu trabalho. Colocava o dinheiro em casa. Sustentava a família como um provedor honrado. E pensando assim deu uma olhada no filho ainda na cama antes de sair de casa. Chegou a escutar um soluço da criança advindo do choro intenso na noite anterior. Ele havia colocado o filho de castigo. Não tolerava desobediência. A mulher intervira em favor do pequeno alegando que se tratava de coisa de criança. Mas ele não remediava. Era firme. Castigo necessário. E o filho chorou até adormecer. E assim restava aquele soluço involuntário enquanto a porta se fechava na saída do policial em busca de seu serviço. Havia pensado em dar um afago na criança mas se deteve. Saiu. Sem palavras. Atravessando o mercado para pegar a condução que o levaria a Bodrum, viu seu pai que já montava a barraca que vendia temperos. Seu Ali fazia isso há 50 anos. Herdara o comércio do pai. Berk não queria herdar o ofício do pai. Resolveu ser policial apesar do talento para os negócios. Mas seu Ali não concordara hora nenhuma. “Filho meu tem que ser do comércio”. Ele dizia. “Foi assim desde o avô do meu avô”. Emendava. E por conta dessa desavença Seu Ali e Berk não se falavam há três anos. Desde que Aaran nascera. Muito por conta da firmeza de Berk. “Se não respeita minha decisão não podemos conviver”. Disse ele em sua última conversa com o pai. E desde então assim foi feito. O avô nunca havia colocado o neto nos braços. Ficava por vezes a espiar a família do filho passando pelo comércio com vontade imensa de fazer agrados ao neto, mas era impedido pela frieza e impavidez do filho. “Mas seja como Alá quer”. Dizia ele. Naquela manhã enquanto montava sua barraca no mercado Seu Ali viu o filho ir em direção ao trabalho. O coração apertou. Quis ir até Berk, mas se deteve. O filho nem levantou o olhar. Passou. Sem palavras. A viagem de duas horas era cansativa. Extenuante. Estrada ruim. Chegava sempre irritado. Mas tinha que cumprir sua função. Colocou a farda como era de costume e partiu para a ronda. Muitos turistas e gente de dinheiro. Hotéis grandiosos com espreguiçadeiras na beira do mar. Cada um cuidando da sua vida. Ele pensava na sua quando avistou de longe uma criança deitada de bruços na beira da água. Ela vestia um short azul e camisa vermelha. Parecido com as vestimentas de seu filho que deixara a soluçar em casa. Por um momento bateu-lhe um desespero. Só conseguia ver Aaran deitado na areia. Correu a socorrer. A criança que parecia seu filho. Se chegasse a tempo ainda poderia reanima-lo. Até se aproximar um filme foi passando por sua mente. Seu pai. Seu filho. A corrida na areia era ingrata. Dura. Como ele. Agora estava ali. Parado diante daquele que parecia seu filho. Ficou por alguns segundos parado. Estático. Uma rocha. Petrificado. Sem palavras. Buscava sinais de vida na criança. Mas não conseguia se aproximar. Tinha medo de virar o rosto da criança e ver Aaran. Tinha medo. Outro colega policial se aproximou. Questionou o fato de estar parado ali há alguns minutos. Berk desmoronou. Enquanto pegava a criança sem vida em seu colo uma lágrima desceu-lhe o rosto. A rocha desmoronava. Sentia o peso de carregar o filho morto nos braços. Naquele momento além da lágrima só conseguia sussurrar uma prece que seu pai lhe ensinara ainda criança. Rezou até a hora de voltar para casa. Não conseguia deixar de repetir as palavras como se a prece pudesse apagar aquela cena que não saia de sua mente. Foi assim até chegar a sua cidade. Anestesiado. Abrindo a porta de casa viu Aaran e seu coração transbordou. Assim como seus olhos. Pegou o menino num forte abraço e o colocou no colo como tinha feito com aquela criança na praia. Saiu num rompante até o mercado e parou diante de seu pai. Sem palavras entregou o neto ao avô. Sem palavras se abraçaram. Sem palavras se perdoaram. Sem palavras.      

 

 

* os fatos narrados acima são fictícios

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 04 de setembro de 2015