sexta-feira, 8 de maio de 2020

Desliga e Liga


Desliga e liga

 

Esses dias estava assistindo alguns movimentos sociais pela volta do regime militar no Brasil, quando me lembrei de imediato de um filme do Dwayne “The Rock” Johnson intitulado “arranha-céu” que vi com meus filhos. Preciso antes esclarecer que não estou indicando que assistam o filme. Estou citando-o só por uma questão de linha de raciocínio. Pois bem. No final das contas (dando spoiler) o mundo é salvo de uma explosão com um comando de resetar o sistema. Isso mesmo. O antigo “puxar o fio da tomada”. Na época que assisti o filme recordei-me que essa máxima de desligar e ligar os aparelhos eletrônicos me parecia muito simples, porém de extrema eficácia. Não que isso pudesse ser usado para salvar a humanidade como aludia o filme, mas para salvar grande parte de nossos problemas tecnológicos. Outra coisa que me veio a recordação, era a grande felicidade que ficava quando o método dava certo, e consequentemente não tinha que pesquisar soluções mais complexas ou levar o equipamento ao técnico especializado. Mas aí não tarda a pergunta: O que isso tem a ver com os movimentos pela volta do regime militar? Calma que vem a explicação. Não é assim tão fácil.

          Quando vejo esses movimentos pelo retorno do governo militar e todas as consequências que advêm dele, penso que os brasileiros acham que o país é um aparelho eletrônico. Que basta resetar que volta a funcionar normalmente. Tipo assim. As instituições não estão funcionando direito, o executivo quer julgar, o judiciário quer legislar e o legislativo quer executar. Tudo errado. Solução? Desliga da tomada e religa nossa democracia. Simples assim. Outra figurinha fácil. Nós temos um problema crônico de corrupção no Brasil que está estampado em todos os poderes, e com isso impede o país de avançar rumo as reformas estruturantes e consequente progresso. Mais uma vez qual a solução? Reseta. Como se nesse processo de derrubar e reerguer as instituições da democracia, pudéssemos voltar às configurações de fábrica. Ou pior ainda, como se nesse processo de “desligar” e “religar” pudéssemos resolver todos os problemas seculares do país. Seria fácil se não fosse trágico.

          Tudo isso que foi descrito acima tem um nome: propensão ao fácil. Vejo isso como parte da cultura brasileira. Essa ilusão de que as coisas vão se resolver de uma hora para outra como num passe de mágica. Essa mania de simplificar problemas complexos. Esse engano de achar que um messias descerá do céu e trará a paz e o desenvolvimento que nós merecemos. E com essa propensão em curso as faculdades mentais vão travando, fazendo com que percamos a capacidade de pensar e buscar soluções para nossos problemas complexos. E com essa propensão galopante a vontade do brasileiro vai se esvaindo, nos transformando num exército de zumbis reclamantes à espera de uma solução milagrosa. Trágico esse cenário né? Parece até o filme citado no começo da crônica. Porém, dessa forma que estamos caminhando, não teremos final feliz para esse filme. Mas a solução é fácil?

          Sem esforço não existe conquista. Esse é o resumo de tudo. Mas não é só o esforço no dia a dia com nossos trabalhos e nossa capacidade produtiva, pois isso o brasileiro tem de sobra. Precisamos de esforço para mudarmos conceitos errôneos. Trocar entendimentos tortos que foram se arraigando em nossa cultura como vermes sanguessugas. A propensão ao fácil é uma delas. Entender que temos problemas crônicos em nossa democracia e que eles são complexos. São seculares. Mas são passíveis de solução. Mas que tudo é um processo. Que as mudanças vêm aos poucos através de um esforço coletivo constante. Ou entendemos isso ou vamos ficar igual Sísifo e acabar queimando a nossa máquina de tanto desligar e ligar.                  

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 08 de maio de 2020

sexta-feira, 20 de março de 2020

Tão longe e tão perto


Tão longe e tão perto

 

          Nessa sexta feira chuvosa que pospõe a enchente de São José, sinto-me saindo do exílio. Pode parecer um antagonismo visto que me encontro em quarentena, mas refiro-me ao retorno às crônicas. A libertação das letras apesar da reclusão do corpo. Daria música de Chico. Confesso que esse tempo sem escrever me levou a inúmeras reflexões e exercícios de contenção e de parcimônia. Muitos aprendizados e conclusões. Por inúmeras vezes coçaram os dedos e efervesceu a mente, mas não a ponto de quebrar o ciclo da desintoxicação de opinião. Mas todo ciclo tem seu fim. E seu recomeço. E aí entro no tema da crônica de hoje. Quem é responsável pelo retorno? Qual tema? O afortunado rompedor dos grilões do silêncio. O corona vírus. Ele mesmo. O assunto da vez. Mas gostaria de focar em um ponto específico. Nada de tecnicidades, conjunturas políticas, exageros ou teorias da conspiração. Gostaria de falar sobre a distância e a proximidade em tempos de pandemia. Vocês já notaram o que o isolamento pode provocar nas relações humanas? Observaram o quanto a comunicação digital ficou mais consistente, necessária e cuidadosa? Observaram retornar os telefonemas aos pais, avôs, tios e parentes que há tempos não falávamos? Observaram o quanto o tempo se dilatou? Eu tenho observado. E mais ainda, vocês observaram as modificações nas relações daqueles que estão cumprindo quarentena em conjunto? Digo principalmente pais e filhos, mas se estende a todo conjunto familiar. Surgiram oportunidades de conversas antes adiadas, afazeres em conjunto antes postergados e principalmente atenções antes suprimidas. O moinho do cotidiano muitas vezes transforma em pó a convivência humana. Não essa convivência de trabalho ou proforma dentro de casa. Digo a convivência real. Afetuosa. Simbiótica de humanidade. A solidariedade que brota diante das agruras do vírus se reflete nas relações humanas. Somos todos seres humanos e devemos nos lembrar disso no que tange a nossa convivência harmoniosa. Nem que as vezes quem nos lembre isso seja um ser microscópico. E o principal. Pensemos em perpetuar essas modificações de convivência quando todo esse maremoto passar. Porque assim teremos certeza de que aprendemos algo e evoluímos como seres pensantes diante das adversidades da vida.    

 

               

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta-feira 20 de março de 2020

sexta-feira, 8 de março de 2019

a oportunidade e a empada


A oportunidade e a empada

 

          Hoje a missão era espinhosa. Comprar castanhas para a esposa no mercado do centro da cidade. Quem já o fez sabe das dificuldades que estou falando. Desde movimento, trânsito, estacionamento, correria, impaciência e todos os obstáculos presentes nas idas aos centros das grandes cidades. Muitas vezes me perguntei porque ir ao centro e não comprar nos supermercados mais próximos de casa. Confesso que já refleti sobre mil justificativas como qualidade do produto, rotatividade, preço, mas no fundo não conseguia entender bem a força motriz que me conduzia a tal ato instintivo. Hoje acho que comecei a descobrir.

          Após passar pela corrida de obstáculos inerentes à missão e conseguir alcançar o objetivo traçado, deparei-me retornando ao estacionamento por um caminho menos objetivo. Algo me levava por caminhos mais tortuosos dentro do mercado. Foi quando, espantosamente, dei de cara com as famosas empadas do Alberto. Quem é glutão por natureza como esse que vos escreve, tem uma certa idade, e mora em Goiânia com certeza já provou ou ouviu falar de tal acepipe. E olha que estão naquele local desde 1947! Não podiam esperar mais para serem devoradas. Assim o pensamento defendeu a causa. E assim a faculdade de julgar deu veredito procedente e sentei-me no banco à beira do balcão. Olhei as variedades e questionei a moça do atendimento: “elas são grandes demais”. Eis que ela me responde: “bom que enche a barriga”. Convenci-me. Eu e meu pensamento. A moça era boa de argumento (quase a convidei para se juntar a mim na venda de jazigos mas achei melhor não entrar no assunto). Escolhi uma de frango com guariroba. Quem não sabe o que significa essa palavra de origem indígena, nada mais é que um palmito amargo. Pensa que foi pouco. Escolhi outra de frango com pequi. Pequi vocês sabem o que é né? É o acompanhamento mágico para frango e guariroba. Para quem achava que era grande uma empada, fiquei com duas. Enchi a barriga. Para arrematar uma coca bem gelada. Dá pequena que é para vocês não torcerem o nariz. Afinal hoje é sexta né? Para finalizar mandei embrulhar uma de cada variedade para levar para a esposa. Se ela descobre que comi empada no mercado e não levei p/ ela... ai, ai, ai.

          Saí todo “cururu teitei” do mercado com a encomenda e a não encomenda. Aí vocês devem estar se perguntando: e qual o objetivo do cronista com essa cena além de nos passar vontade com a empada? Pois calma que eu respondo: Não perder as oportunidades que a vida lhe apresenta. E não estou falando de empada nesse momento. Estou falando de um abraço apertado em um filho, de um colo de mãe, de um mimo para o cônjuge sem ele esperar, de um sorriso para uma pessoa andando apressada na rua, de uma palavra amiga a um amigo. Estou falando dessas pequenas coisas que muitas vezes deixamos passar por entendermos que são muito pequenas, mas que ao final somadas, representam a essência de uma vida. Pois como ia dizendo, saí do mercado carregando as encomendas, um sorriso largo e a sensação de ter aproveitado a oportunidade quando a vida me ofereceu. Vai que eu morro amanhã sem ter comido a empada do Alberto de novo né?         

 

   
            

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta-feira 08 de março de 2019

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

pausa para ver as nuvens


Pausa para ver as nuvens

 

          Hoje de manhã, como de costume nos últimos seis meses, madruguei no aeroporto. Munido de mala de mão e mochila, já decorei os apelos da companhia aérea alegando que o avião está com alta ocupação, então entra por um ouvido e sai pelo outro. Vou despachar mala não. Tenho que chegar no destino, sair correndo do avião, alugar o carro e partir para o objetivo, qual seja, trabalhar. Por isso sento impreterivelmente no corredor mais à frente. Desembarque, quando autorizado, somente pela porta dianteira. Tudo cronometrado. Levo um livro de Logosofia para estudar e o computador para adiantar o serviço a bordo. Saco do fone de ouvido, isolo-me do ambiente, ligo o PC e quando vejo já estamos pousando no destino. Nada longo. Hora e pouco de voo, mas como tem se tornado constante, utilizo o avião como escritório. O máximo que desconcentro é para atender o serviço de bordo oferecendo água e dar um bom dia ao companheiro da poltrona vizinha.

          Mas hoje de manhã foi diferente. Entrei no avião primeiro (por conta do cartão de fidelidade da companhia aérea e não por ser da fila “P” de prioridades prevista por lei. Ainda não), sentei como de costume no corredor à frente, pluguei o fone de ouvido no canal de notícias, abri o computador até o fecharem portas da aeronave. Os aparelhos eletrônicos devem ser mantidos em modo avião. E vai entrando gente. E de repente chega meu companheiro de fila. Pede licença, e eu numa rapidez meteórica, recolho fone, computador, levanto, dou passagem e me sento novamente. Abro o computador e recoloco o fone de ouvido. Eis que surge a primeira frase do cidadão: “é a primeira vez que ando de avião. Será que cai?”. Os pensamentos logo pulularam na minha mente, pois responder à pergunta naquele momento batia de frente com meu “way of flylife”. Mas como percebi que o senhor (depois vim saber que ele tinha a mesma idade minha. Será que as pessoas também me veem como um senhor?)  estava meio nervoso, retirei os fones, fechei o computador novamente e tentei falar algumas palavras de conforto: “calma senhor, eu viajo toda semana e o avião nunca caiu”. Logicamente que minha intenção era finalizar aquela conversa ali e voltar à programação normal. Ledo engano. Foi aí que o homem destampou a falar. Descobri que era da cidade de Belo Jardim, estado de Pernambuco. Pertinho de Caruaru. Mas estava morando em Gurupi, Estado do Tocantins. Contou-me que era professor de música lá. Dava aulas para crianças. Contratado como temporário pelo município. Explicou-me a diferença entre funcionário público concursado e contratado por tempo determinado. Falou-me que dava aula de qualquer instrumento mas era bom mesmo nos de sopro. Explicou-me sobre teoria musical e a dificuldade de se tocar bateria. Falou que saiu da cidade natal por conta de um amigo major do exército que o tinha convidado para ser professor de música. Disse ainda que o dito major tinha capotado o carro na estrada quando tinha ido busca-lo para a mudança. Capotou o carro com a esposa e o filho de dois meses dentro. Ninguém havia se ferido. Ele mesmo queria ser militar. O cidadão. Mas tinha sido dispensado na junta militar da cidade natal. Antes tivesse se alistado na capital. Falou que a aposentadoria de militar era boa. Que eu devia colocar meus filhos na escola militar para estudar música. Lembrou-me mais uma vez que era a primeira vez que voava de avião. A esposa dele também nunca tinha voado e pediu que ele ligasse quando chegasse ao destino. Estava preocupada. E tinha um filho de cinco anos. E reclamou quando peguei uma balinha do serviço de bordo alegando que levaria para meus filhos: “se eu soubesse tinha pegado uns cinco pacotes para meu filho. Será que precisa guardar na geladeira?”. Perguntou a aeromoça. Ela explicou com toda paciência que não. Relatou logo após que tinha saído de Gurupi de ônibus até Palmas. Passagens todas compras com dinheiro emprestado do amigo major. Pagaria em suaves prestações. De lá avião até Goiânia. De Goiânia um voo até Belo Horizonte. De BH outro voo até Recife. Um amigo do irmão o pegaria de carro e levaria até Caruaru. De lá o irmão o levaria a Belo Jardim. Fiquei com pena: “mas para que essa saga?”. Baixou o tom da voz e disse que tinha falado para a mãe ao telefone: “mãe, não deixa papai ir. Segura ele”. Estava indo para o enterro do pai. A pena triplicou. Perguntou o que eu fazia. Engoli seco e respondi sem graça que trabalhava com cemitérios. Ele espantou-se. Contou dos irmãos. Vários. Um já tinha morrido. Bebia demais. Era o único musico entre todos. Olhou as nuvens e perguntou que altura estávamos. Mostrei o mapa na tela. Indagou porque voar acima das nuvens. Tentei explicar. Disse que as nuvens pareciam feitas de algodão. De repente calou-se e dormiu. Por hora esqueceu a agonia de voar pela primeira vez tentando chegar ao enterro do pai a tempo. Pensei logo em retomar minha jornada habitual, mas as nuvens me chamavam a contemplação. Brancas e macias como algodão. Havia me esquecido disso. Dessa sensação de fazer algo fora do script. De passar prazo observando as coisas triviais da vida. E assim fiquei até ele acordar no pouso. De novo a preocupação do que fazer em seguida. Tentei tranquiliza-lo. Iria ajudar. Descemos e logo busquei informações do voo dele que seguiria até Recife. Ainda tinha duas horas de espera no aeroporto. Eu permaneceria em Belo Horizonte. Perguntou se no outro voo serviria almoço. Tive que lhe dar a má notícia que no máximo balinhas de gelatina e goiabinha integral. Ele estendeu a mão. Agradeceu. Desejei-lhe boa viagem. Parti. Ele ficou. Em mim uma sensação de querer ficar mais lá e escuta-lo. Deixar o computador e os fones dentro na mochila, tomar um café demorado e saber mais da sua vida. Mas faltou a resolução. Virei as costas e segui meu rumo. Mas não sem antes olhar pela janela da sala de embarque e pensar que há tempos não observava as nuvens. Como eram parecidas com algodão. Brancas e macias.

               

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, terça-feira 26 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

sobre cores e opções


Sobre cores e opções

 

 

Hoje fui acometido de uma dúvida atroz. Comentar ou me abster sobre a polêmica declaração da nossa nova Ministra de Direitos Humanos e afins. Sabe aquela do “menino veste azul e menina veste rosa”? Se não está ciente melhor pesquisar no youtube porque foi trend topics. A cena é no mínimo hilária. Parece aquelas provocações de criança quando ganha no pique pega e quer curtir com a outra. Tipo: “eu ganhei e você perdeu!! Ná, ná, ná, ná, ná! Você é feio e bobo!! Ná, ná, ná, ná, ná!”. Mas, independente da cena cômica, a minha dúvida em relação a escrever ou não sobre o assunto veio exatamente do que dizer. Ou não dizer. Dizer da infantilidade da declaração? Falar sobre os conceitos totalmente retrógrados? Que tal sobre a tolerância e respeito para com a diversidade? Ou sobre o Estado laico? Talvez pudesse raciocinar no sentido de coerência de discurso, afinal nada está sendo dito o contrario do que foi prometido em campanha. Ou poderia dizer dos inimigos imaginários que o governo se propõe a combater como a diversidade de gênero e o socialismo. Ou poderia tentar explicar sobre definição de socialismo e de como estamos num país capitalista selvagem. Ou mais ainda em como isso se torna uma cortina de fumaça sobre o que realmente interessa para a população brasileira. Poderia dizer que não esperava algo diferente? Ou seria pragmático demais? Será que poderia dizer que tenho camisas rosas no meu armário e sou hetero? Ou isso causaria mais desinteligência? Ou isso não tem nada de relevante? Poderia levantar a fala de que o discurso de união confronta veementemente com esse tipo de atitude revanchista? Afinal foi uma atitude revanchista ou infantil? Ou as duas? Ou néscia? Ou inteligente? Podemos voltar à cortina de fumaça? Ela encobre o que? O medo do governo de não “estar com essa bola toda” quando tentar aprovar as reformas? De dar amplitude aos latidos dos cães enquanto a caravana passa? Ou simplesmente porque estamos passando por uma fase “tentativa, erro e acerto”? Poderia dizer que a isca foi lançada e nós mordemos? Que cada enxadada será uma minhoca? Ou que teremos tempos bicudos pela frente? Poderia dizer tanta coisa ao mesmo tempo para uma simples declaração? Ou não dizer nada pela declaração irrelevante?

Ao final de toda essa algazarra de perguntas e não respostas, resolvi perguntar a minha filha de treze anos o que ela tinha achado da declaração. Talvez viesse daí uma luz. Sabe o que ela respondeu?

- Para uma Ministra de Direitos Humanos ela está errada. Todos temos o direito de usar azul ou rosa. Eu uso o que eu quiser. Até roupa transparente se quiser.

É isso. Na simplicidade a melhor resposta. Voto com a relatora.

 

 

ps. Papai não deixa sair de roupa transparente não. Foi só uma metáfora dela. Espero.

        

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 04/01/2019

terça-feira, 25 de setembro de 2018

eles não


Eles não

 

          Na eminencia de uma nova eleição para presidente, e diante da situação periclitante da campanha, esse cronista resolveu, diferentemente de sua trajetória, opinar com maior veemência. Espero que o possa fazer de maneira democrática como é inerente ao nosso princípio constitucional, sem derramamento de sangue com facadas ou derramamento de ódio por represálias. Afinal é somente a opinião de um cidadão eleitor.

          Lembro-me da eleição de Fernando Collor. Recém egressos de períodos de chumbo, queríamos retomar as rédeas do nosso direito cívico depositando em urna a vontade de uma nação. Por isso tantos candidatos a esse protagonismo surgiram. Todos querendo ser esse que figuraria como o primeiro presidente pós regime de ditadura militar. E a eleição do então jovem político alagoano refletia isso. Um grito contido na garganta. O desenrolar da história mostraria que a decisão talvez não tenha sido acertada, mas era muita empolgação para um momento histórico. Talvez tenha faltado experiência, mas nunca juízo.

          E depois desse recomeço turbulento veio o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Nesse momento mais economista do que propriamente social. Era o que a população ansiava. A estabilidade econômica após malfadados planos Bresser, Verão, Cruzeiro, Cruzado Novo, congelamento de poupança, entre outras experimentações e aberrações. Era só isso que queríamos. Elegemos um presidente que representava essa estabilidade. Essa oportunidade de conseguirmos enxergar um futuro. Talvez tenha faltado opção, mas nunca juízo.

          Eis que surge o presidente mais popular do Brasil após JK. Não sem antes ter tomado um banho de loja, de bons modos e de ótimos marqueteiros. Era a esquerda, finalmente, assumindo as rédeas do país. O metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva ascendia ao posto máximo da nação após várias tentativas. Era o triunfo da classe operária com aval do empresariado. Depois da estabilidade econômica viria o galopar rumo ao desenvolvimento e ao protagonismo mundial. Chegamos a sentir o gosto de sermos a bola da vez. Talvez tenha faltado clarividência, mas nunca juízo.

          A primeira presidente do Brasil foi festejada em verso e prosa. Passava da hora das mulheres assumirem esse papel principal. Mesmo que fosse uma mulher que batesse a mão na mesa como um homem. Para fugir da alcunha de fantoche, Dilma Rousseff bateu mais que a mesa podia suportar. Num presidencialismo de coalizão, a mesa precisa estar de pé, senão o presidente cai. E diante da sua falta de capacidade de articulação, característica primaz da natureza feminina, o seu mandato ruiu diante da crise financeira e institucional. Mais um impeachment no currículo do país. Talvez tenha faltado firmeza, mas nunca juízo.   

           E aí chegamos na encruzilhada da história brasileira. Literalmente em frangalhos. Só a capa do Batman e em pé de guerra. Os caminhos estão à nossa frente e precisamos decidir por onde ir. Direita de Bolsonaro ou esquerda de Haddad. Diametralmente opostos. Indubitavelmente incertos. Igualmente danosos. E diante do cenário pergunto: ainda temos tempo de optar por um caminho de centro mais equilibrado? Tenho medo da resposta e do resultado. Porque nesse momento não está faltando aos brasileiros experiência, opção, clarividência e nem firmeza, mas pelo visto está faltando juízo. 

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de setembro de 2018

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

o menino, a bola e o perdão


O menino, a bola e o perdão

 

          Nada mais comentado essa semana que finda, que o pedido de desculpas gilettiano do menino Ney. Olha que a metáfora vem bem a calhar já que o mesmo cortou dos dois lados. Ou seja, provocou reações ambíguas nas pessoas. Não sendo unanimidade, resta-nos a análise.

Eu estava lá no intervalo do Fantástico. Eu vi. Não me contaram. Querem que lhes diga o que senti? Emocionei-me. Fiquei tocado por aquela mensagem. Achei-a de uma coragem fora do comum. Logicamente que após o enternecimento, veio a razão ponderar os fatos. Uma propaganda em cadeia nacional, o patrocínio milionário, uma certa presunção de ídolo do povo, uma estratégia de marketing. Todos os fatos pulularam em minha mente e a conclusão do positivismo ou não do ato não ficou claro. Resumindo. Fiquei como a grande maioria dos brasileiros. Dividido. Talvez o fiel da balança tenha sido a emoção que senti quando assisti o comercial. Quando a razão não consegue julgar o fato, entregue-o a sensibilidade. Ela quase nunca erra. Não o sentimentalismo barato da comoção. Mas aquela sensibilidade que vem do fundo da alma. Essa manda pagar o cheque. E eu acabei pagando.

          Mereço ser crucificado por ouvir meu coração? O menino Ney o merece? Essa pergunta pontuou minha análise sobre todo o processo. Não só o polêmico pedido de desculpas, mas todo o processo que o jogador vem passando ao longo de sua carreira e a nossa última frustrada tentativa de conquista do hexa. E a conclusão que já tinha chegado é que Neymar não merecia essa pecha de responsável. E muito menos ser execrado em praça pública. Suas deficiências como jogador já estavam gerando consequências a sua carreira. O exagero de suas quedas resultou em um exagero de memes, piadas, escárnios. Mas esse não foi o maior dano. O arranhão em sua credibilidade como jogador restou na maior das consequências. Brincadeiras de internet passam, mas as cicatrizes na credibilidade demoram a sarar. E no fundo, no fundo, o pedido de perdão em cadeia nacional veio para tentar resgatar um pouco dessa credibilidade perdida. Mas as consequências estão aí. Visíveis. E com certeza um pedido de perdão, por mais sincero que seja, não fará com que as mesmas cessem. Aliás, no meu entendimento, não há necessidade desse pedido. Inócuo. Não concordo com o perdão de outrem. Agora a própria redenção de Neymar, o auto perdão, essa sim importante, ele só obterá com o tempo. Pensando e melhorando suas atitudes em campo, evoluindo como ser humano e fazendo o que sabe melhor. Jogando futebol. Então... bola para frente menino!                          

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 03 de agosto de 2018