domingo, 17 de outubro de 2021

Juventude pasteurizada

 

Juventude pasteurizada

 

Prometi que voltaria da viagem à praia e escreveria uma crônica. Não que não tivesse escrito em outras ocasiões de retorno, mas essa seria diferente. Não seria de exaltação cênica, gastronômica e etílica. Nem um fato extemporâneo que merecesse um enfoque individual. Não. Dessa vez escreveria sobre um fenômeno que presenciei nas areias do sul da Bahia. Um fenômeno que imagino estar ocupando as praias desse nosso belo país tropical. Estou me referindo à juventude pasteurizada. Sabe aquele processo criado por Pasteur que utilizamos no leite? Pois é. Mas não levem em conta que seria algum artifício de eliminação de germes. Não. Seria mais um caminho para tornar todo leite igual. Sem características próprias. Matar aquilo que dá características individuais à bebida. Expliquemos melhor.

Gostaria que os leitores imaginassem a cena de comercial de bronzeador. Jovens na flor da idade com seus corpos malhados desfilando pelas areias da praia. Para as mulheres, em sua grande maioria, os vários preenchimentos. O campeão é o de lábios. Mas temos vários outros. Silicone já ficou obrigatório. Maquiagem de quem está indo para uma festa de casamento, inclusive com penteados ao sabor do vento. Acabaram de sair do salão de belezas. Trajes de banho impecáveis das grifes da moda com suas saídas esvoaçantes para se alinhar com os cabelos. Chapéus! Não nos esqueçamos deles. De vários tipos e formatos, predominando o boné do New York Yankees (não entendi o porquê do time de beisebol e se alguém puder me explicar esse fenômeno eu agradeceria). Tem os óculos escuros espalhafatosos também. Bebem espumante, porque cerveja dá barriga. Claro. Escutam música de balada imaginando DJs em praias na Riviera Francesa. Para os homens temos sungas estampadas para os corpos malhados. Tatuagens cobrem os braços como os jogadores de futebol. Cabelos penteados à perfeição. O copo térmico Stanley (descobri o nome na viagem) encontra-se em quase todas as mãos. Bebem algo a base de gin, porque vocês sabem que cerveja dá barriga. Terminam com uma bermuda quase sempre branca de sarja amassada com uma camisa em tons pasteis, linho eu imagino, também amassada. Sentam-se todos à beira da praia em futons brancos e miram o celular o tempo todo. Só se dirigem à beira d´água para uma breve seção de filmagem e fotos que deverá inundar as redes sociais com o objetivo de mostrar o quanto a viagem está sendo incrível. Conseguiram imaginar?

Eu do local onde estava a observar todo esse enquadramento de costumes, fiquei a me perguntar mentalmente algumas coisas. O que havia de mal em entrar no mar? Como prescindir da experiência de levar pelo menos um caixote das ondas e voltar à tona com a sunga cheia de areia? Onde estava o cenoura e bronze de dia e a calamina a noite para contar a história do encontro com o sol? Cadê os trajes de banho comprados em lojas de departamentos com o elástico meio frouxo? E a companheira cerveja que nos acalentou por esses anos todos indignada ao ser trocada por uma bebida insonsa? Que mal há em uma barriguinha constituída de chopp a se bronzear sobre canga com estampas diversas adquirida ali mesmo na praia? Por que não comprar um par de óculos escuros Ray Ban do ambulante para ajudar na economia local? E o queijo coalho, água de coco e milho cozido? Por onde andarão os castelos de areia, piscinas escavadas na praia, enterrados vivos com a cabeça de fora, estrelinhas na margem d´água, simples caminhas à catar conchas? E as conversas ao vivo? Onde estão? Onde estão os risos de quem guardou dinheiro o ano todo para estar ali naquele momento rindo do pileque do amigo? Estar ali na Bahia e não fingindo estar em Ibiza. Ao final cheguei à conclusão simples de que o sistema de pasteurização pode até ser bom para o leite, mas para a juventude tenho minhas sinceras dúvidas. Se bem que leite não dá barriga né?

 

Guilherme A. Santana

17/10/2021

santanagui@hotmail.com      

sexta-feira, 14 de maio de 2021

 

Memória seletiva

 

Estava eu levando quatro adolescentes à escola, dois deles inclusive com idade para votar nas próximas eleições, quando a galera destampou no assunto preferido do momento. Falar mal do Presidente Bolsonaro. Encheram a boca para falar dos episódios dantescos do nosso atual mandatário. Foi quando um deles citou a última pesquisa eleitoral divulgada que dava uma considerável vantagem ao ex-Presidente Lula num futuro embate presidencial. Nesse momento passei à reflexão de alguns fatos que me intrigaram momentaneamente e me inquietam ao longo dos tempos. O que leva o brasileiro à possibilidade plausível de reconduzir ao poder um partido político, inclusive por seu líder maior, que recentemente esteve envolvido num dos maiores esquemas de corrupção já vistos na história? Seria a memória curta, tão clamada em verso e prosa do nosso cidadão? O que leva uma juventude, tão recheada de informações, a embarcar nessa dita ideia vermelha? Foi aí, quando a discussão dentro do carro estava em uníssono, que me lembrei da última eleição. E voltei ainda nas anteriores, quando o Partido dos Trabalhadores assumiu o poder. Naquela época tinha-se a ideia de que havia necessidade de romper um ciclo de “social democracia” e experimentar um governo mais à esquerda. Mesmo que fosse apoiado pela clássica classe industrial e pelo sistema de bancos. Assim se fez e Lula conseguiu sentar na cadeira de Presidente. Após esse período, já na última eleição, a maré virou e novamente o clamor por uma virada mais a direita se fez sentir no cidadão brasileiro. Inclusive esse que vos escreve foi um que levantou, no segundo turno para não sentir tanta culpa, que precisávamos de um rompimento com o status quo do PT. Aí vocês podem me perguntar: Mas você não sabia quem era o Bolsonaro? Aí eu respondo de bate pronto: sim, sabia. Nos meus vários anos de militância em Brasília tinha a visibilidade da carreira do político. Sabia de suas ideias. Do seu conceito conservador. Mas naquele momento de decisão do segundo turno, achei que a quebra do ciclo seria mais benéfica ao país do que os princípios conservadores seriam maléficos. Embarquei na canoa. Hoje, com os acontecimentos desenrolados desde aquela eleição, e diante da ineficiência e ignorância do nosso Presidente (para não dizer coisas piores), penso que talvez a decisão tenha sido equivocada. Aí vem a pergunta cabal: será que a minha memória foi curta ao votar em um político que sabia ser completamente inapto? E eu respondo antes que vocês o façam, que não foi questão de memória curta, mas sim de memória seletiva. Por um pensamento maior, uma vontade de quebra de ciclo, deixei de lado as informações negativas que detinha em minha memória. E muitos eleitores fizeram algo parecido com isso. E penso que o cidadão brasileiro, hoje, está indo pelo mesmo caminho. Se não surgir uma terceira opção viável, coisa que minha experiência de vida grita que não ocorrerá, apesar da minha imensa vontade, correremos pela mesma opção seletiva. Esqueceremos momentaneamente o histórico recente de corrupção encabeçado pelo PT, e para virar o ciclo Bolsonaro, colocaremos Lula de novo na Presidência. Se me perguntarem se isso é certo ou errado, eu respondo que não importa. Não é essa a análise que deve ser feita. Entendo ser o processo de amadurecimento político do brasileiro que está em curso. Isso é que importa e é o que ficará para a posteridade como evolução. Apesar de muitos acharem que só involuímos nas últimas décadas, eu discordo frontalmente. Se isso não fosse verdade, não teríamos quatro adolescentes dentro de um carro, indo para escola, falando sobre política, ao invés de assuntos corriqueiros da juventude. Isso no fundo que alenta meu senso cívico. Aliás só isso alenta.

Guilherme Augusto Santana

14/05/2021

santanagui@hotmail.com             

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

a ida do boêmio

 

A ida do boêmio

 

Precisei abrir uma cerveja gelada e colocar uma música na playlist para conseguir escrever esse obituário em forma de crônica. Não uma cerveja qualquer, mas uma Antárctica, como nos velhos tempos. E muito menos uma música qualquer, senão Nelson Gonçalves. Uma homenagem. Já peço desculpas por escrever de forma tão pessoal e introspectiva, mas é que o coração necessita.

Boemia, aqui me tens de regresso

E suplicante lhe peço a minha nova inscrição

Voltei, pra rever os amigos que um dia

Eu deixei a chorar de alegria

Me acompanha o meu violão”

              Foi assim a minha primeira impressão do Ferola. Melhor. Do Tio Ferola. Aquele boêmio que chegava nas festas a entoar as músicas de seresta com sua voz grave e seu tom embriagado. Cena de assustar as crianças e corar as carolas. Profano como a terça de carnaval. Santo como o canto do barítono. Porém nunca ignorado. Presente como a chaga mais dolorosa ou o sorriso mais caloroso. Sempre esperei sua entrada triunfal como se chegasse de uma cena de Jorge Amado a encher o ambiente de música e alegria. E foi assim que ele foi entrando em minha vida. Com uma alegria que me fazia alegre.

              A segunda impressão foi quando, por ocasiões de férias escolares antecipadas, fui “trabalhar” na Caneta Dourada. Patrimônio e tradição familiar e goianiense. Ali na rua do lazer encrustada entre a 3 e a Anhanguera. Perto do caldo de cana com pastel que desfrutava com os trocados que ele me dava nos intervalos da lida. O Tio Ferola comerciante. Vendedor. De canetas e almas. A ensinar um pequeno garoto burguês o barulho da máquina registradora e o cheiro das notas recém impressas. Inúmeras vezes vi os amigos chegarem à loja e chamarem Ferola ao escritório. Um sem par de vezes. Quando questionei onde ficava o raio do escritório, descobri que se tratava do Café Central. Escritório de interlocutórios fraternais. Quantos amigos presenciei solicitando por esse café, e ele com paciência, mandando cuidar da lojinha enquanto ia ao escritório. Jason, Orlando, Antônio, João, José, Aristides, Muitos. Todos tios. Sempre esperei a chegada deles como uma cena de cinema em preto e branco a encher o ambiente de amizade e cumplicidade. E assim ele foi entrando na minha vida. Com uma amizade que me fazia amigo.

              Não tardou estarmos mais juntos. Na terceira impressão. Elogiava minhas “petições” falando que muito advogado não escrevia com tal clareza. Ainda mais para um engenheiro de formação. Eu acreditava. Sabia que no fundo o afeto falava mais alto. Esse afeto que ele tinha de graça. Uma capacidade de elogiar as qualidades e relevar as deficiências que ainda não havia encontrado em ser algum. Sentia-me especial perto dele. Quantas vezes, em começo de conversa com um estranho, não citei seu nome para me dar a conhecer. Sou sobrinho do Ferola! Ah o Ferola! Conheço demais. Quem não conhecia? Até meu filho mais novo que o chamava de vovó Ratatouille, a vibrar pelas moedas que ele tirava do bolso, ofertando a criança como um tesouro. Como não conhecer? Quando minha filha mais velha encasquetou com uma máquina de escrever, entrei na sala do Tio
Ferola e perguntei se não sabia de alguma peça para satisfazer a pequena milênio. Ele mais que depressa levantou-se e abriu um de seus velhos armários e lá de dentro tirou uma velha máquina de escrever. “Com essa eu ganhei a minha vida. Leve e entregue a Helena”. Sempre esperei dele esses atos de afeto como nas músicas de Pixinguinha. E assim ele foi entrando na minha vida. Com um afeto que me fazia afetuoso.

              Nos últimos tempos travamos uma convivência pacienciosa. A quarta e última impressão. Ia quase todas as semanas vê-lo na empresa para somente conversar. Escutar suas reminiscências e acenar com a cabeça concordando. Que mais eu podia fazer? Restava-me a resignação de ver um gigante no caminho do adormecimento. E nessa última impressão vi resplandecer a paciência. Horas e horas a conversar e administrar uma tragédia anunciada. O sonho de uma vida inteira que ruía perante seus olhos. Mesmo assim eu aguardava nossas conversas semanais. Essa semana eu ainda não o havia encontrado, e não sei o porquê o coração doía. Pensei várias vezes em propor-lhe ditar um livro de histórias de vida. Eu me disporia a escrevê-lo. Repleto de paciência como tinha aprendido com ele. Outras vezes ficava somente a observar seus atos de encerramento. Em algumas vezes tive a impressão que se julgava imortal, mas em outras, via que apenas esperava o inevitável chegar. Com uma paciência impassível. E chegou. Como uma cena de Ariano Suassuna: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.”. E assim ele entrou de vez na minha vida. Com tamanha paciência de vida que me fazia paciencioso.

              Ao final de tudo, volto a pedir as mesmas desculpas que fiz no começo, se essa crônica pareceu tão pessoal e intransferível. É porque o coração pediu. Já o disse. O coração suplicou por esse desfecho. Aquele que faltou quando não estive com ele nessa semana. Uma despedida que se fez aos poucos. A cada encontro. A cada reminiscência. A cada conversa. A cada café na cozinha regada a história. Assim se fez a última impressão. Cheia de alegria, amizade, afeto e paciência. Agora, com certeza, ele irá tomar café em outro escritório junto com Seu Agenor, Dona Natália, Pedro, Sinhana e tantos outros que foram antes para arrumar a mesa do baralho. Aqui ficamos com a saudade eterna do Tio Ferola.

 

* em memória de Ferola Torquato da Silva

 

Guilherme Augusto Santana

14/02/2021       

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Desliga e Liga


Desliga e liga

 

Esses dias estava assistindo alguns movimentos sociais pela volta do regime militar no Brasil, quando me lembrei de imediato de um filme do Dwayne “The Rock” Johnson intitulado “arranha-céu” que vi com meus filhos. Preciso antes esclarecer que não estou indicando que assistam o filme. Estou citando-o só por uma questão de linha de raciocínio. Pois bem. No final das contas (dando spoiler) o mundo é salvo de uma explosão com um comando de resetar o sistema. Isso mesmo. O antigo “puxar o fio da tomada”. Na época que assisti o filme recordei-me que essa máxima de desligar e ligar os aparelhos eletrônicos me parecia muito simples, porém de extrema eficácia. Não que isso pudesse ser usado para salvar a humanidade como aludia o filme, mas para salvar grande parte de nossos problemas tecnológicos. Outra coisa que me veio a recordação, era a grande felicidade que ficava quando o método dava certo, e consequentemente não tinha que pesquisar soluções mais complexas ou levar o equipamento ao técnico especializado. Mas aí não tarda a pergunta: O que isso tem a ver com os movimentos pela volta do regime militar? Calma que vem a explicação. Não é assim tão fácil.

          Quando vejo esses movimentos pelo retorno do governo militar e todas as consequências que advêm dele, penso que os brasileiros acham que o país é um aparelho eletrônico. Que basta resetar que volta a funcionar normalmente. Tipo assim. As instituições não estão funcionando direito, o executivo quer julgar, o judiciário quer legislar e o legislativo quer executar. Tudo errado. Solução? Desliga da tomada e religa nossa democracia. Simples assim. Outra figurinha fácil. Nós temos um problema crônico de corrupção no Brasil que está estampado em todos os poderes, e com isso impede o país de avançar rumo as reformas estruturantes e consequente progresso. Mais uma vez qual a solução? Reseta. Como se nesse processo de derrubar e reerguer as instituições da democracia, pudéssemos voltar às configurações de fábrica. Ou pior ainda, como se nesse processo de “desligar” e “religar” pudéssemos resolver todos os problemas seculares do país. Seria fácil se não fosse trágico.

          Tudo isso que foi descrito acima tem um nome: propensão ao fácil. Vejo isso como parte da cultura brasileira. Essa ilusão de que as coisas vão se resolver de uma hora para outra como num passe de mágica. Essa mania de simplificar problemas complexos. Esse engano de achar que um messias descerá do céu e trará a paz e o desenvolvimento que nós merecemos. E com essa propensão em curso as faculdades mentais vão travando, fazendo com que percamos a capacidade de pensar e buscar soluções para nossos problemas complexos. E com essa propensão galopante a vontade do brasileiro vai se esvaindo, nos transformando num exército de zumbis reclamantes à espera de uma solução milagrosa. Trágico esse cenário né? Parece até o filme citado no começo da crônica. Porém, dessa forma que estamos caminhando, não teremos final feliz para esse filme. Mas a solução é fácil?

          Sem esforço não existe conquista. Esse é o resumo de tudo. Mas não é só o esforço no dia a dia com nossos trabalhos e nossa capacidade produtiva, pois isso o brasileiro tem de sobra. Precisamos de esforço para mudarmos conceitos errôneos. Trocar entendimentos tortos que foram se arraigando em nossa cultura como vermes sanguessugas. A propensão ao fácil é uma delas. Entender que temos problemas crônicos em nossa democracia e que eles são complexos. São seculares. Mas são passíveis de solução. Mas que tudo é um processo. Que as mudanças vêm aos poucos através de um esforço coletivo constante. Ou entendemos isso ou vamos ficar igual Sísifo e acabar queimando a nossa máquina de tanto desligar e ligar.                  

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 08 de maio de 2020

sexta-feira, 20 de março de 2020

Tão longe e tão perto


Tão longe e tão perto

 

          Nessa sexta feira chuvosa que pospõe a enchente de São José, sinto-me saindo do exílio. Pode parecer um antagonismo visto que me encontro em quarentena, mas refiro-me ao retorno às crônicas. A libertação das letras apesar da reclusão do corpo. Daria música de Chico. Confesso que esse tempo sem escrever me levou a inúmeras reflexões e exercícios de contenção e de parcimônia. Muitos aprendizados e conclusões. Por inúmeras vezes coçaram os dedos e efervesceu a mente, mas não a ponto de quebrar o ciclo da desintoxicação de opinião. Mas todo ciclo tem seu fim. E seu recomeço. E aí entro no tema da crônica de hoje. Quem é responsável pelo retorno? Qual tema? O afortunado rompedor dos grilões do silêncio. O corona vírus. Ele mesmo. O assunto da vez. Mas gostaria de focar em um ponto específico. Nada de tecnicidades, conjunturas políticas, exageros ou teorias da conspiração. Gostaria de falar sobre a distância e a proximidade em tempos de pandemia. Vocês já notaram o que o isolamento pode provocar nas relações humanas? Observaram o quanto a comunicação digital ficou mais consistente, necessária e cuidadosa? Observaram retornar os telefonemas aos pais, avôs, tios e parentes que há tempos não falávamos? Observaram o quanto o tempo se dilatou? Eu tenho observado. E mais ainda, vocês observaram as modificações nas relações daqueles que estão cumprindo quarentena em conjunto? Digo principalmente pais e filhos, mas se estende a todo conjunto familiar. Surgiram oportunidades de conversas antes adiadas, afazeres em conjunto antes postergados e principalmente atenções antes suprimidas. O moinho do cotidiano muitas vezes transforma em pó a convivência humana. Não essa convivência de trabalho ou proforma dentro de casa. Digo a convivência real. Afetuosa. Simbiótica de humanidade. A solidariedade que brota diante das agruras do vírus se reflete nas relações humanas. Somos todos seres humanos e devemos nos lembrar disso no que tange a nossa convivência harmoniosa. Nem que as vezes quem nos lembre isso seja um ser microscópico. E o principal. Pensemos em perpetuar essas modificações de convivência quando todo esse maremoto passar. Porque assim teremos certeza de que aprendemos algo e evoluímos como seres pensantes diante das adversidades da vida.    

 

               

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta-feira 20 de março de 2020

sexta-feira, 8 de março de 2019

a oportunidade e a empada


A oportunidade e a empada

 

          Hoje a missão era espinhosa. Comprar castanhas para a esposa no mercado do centro da cidade. Quem já o fez sabe das dificuldades que estou falando. Desde movimento, trânsito, estacionamento, correria, impaciência e todos os obstáculos presentes nas idas aos centros das grandes cidades. Muitas vezes me perguntei porque ir ao centro e não comprar nos supermercados mais próximos de casa. Confesso que já refleti sobre mil justificativas como qualidade do produto, rotatividade, preço, mas no fundo não conseguia entender bem a força motriz que me conduzia a tal ato instintivo. Hoje acho que comecei a descobrir.

          Após passar pela corrida de obstáculos inerentes à missão e conseguir alcançar o objetivo traçado, deparei-me retornando ao estacionamento por um caminho menos objetivo. Algo me levava por caminhos mais tortuosos dentro do mercado. Foi quando, espantosamente, dei de cara com as famosas empadas do Alberto. Quem é glutão por natureza como esse que vos escreve, tem uma certa idade, e mora em Goiânia com certeza já provou ou ouviu falar de tal acepipe. E olha que estão naquele local desde 1947! Não podiam esperar mais para serem devoradas. Assim o pensamento defendeu a causa. E assim a faculdade de julgar deu veredito procedente e sentei-me no banco à beira do balcão. Olhei as variedades e questionei a moça do atendimento: “elas são grandes demais”. Eis que ela me responde: “bom que enche a barriga”. Convenci-me. Eu e meu pensamento. A moça era boa de argumento (quase a convidei para se juntar a mim na venda de jazigos mas achei melhor não entrar no assunto). Escolhi uma de frango com guariroba. Quem não sabe o que significa essa palavra de origem indígena, nada mais é que um palmito amargo. Pensa que foi pouco. Escolhi outra de frango com pequi. Pequi vocês sabem o que é né? É o acompanhamento mágico para frango e guariroba. Para quem achava que era grande uma empada, fiquei com duas. Enchi a barriga. Para arrematar uma coca bem gelada. Dá pequena que é para vocês não torcerem o nariz. Afinal hoje é sexta né? Para finalizar mandei embrulhar uma de cada variedade para levar para a esposa. Se ela descobre que comi empada no mercado e não levei p/ ela... ai, ai, ai.

          Saí todo “cururu teitei” do mercado com a encomenda e a não encomenda. Aí vocês devem estar se perguntando: e qual o objetivo do cronista com essa cena além de nos passar vontade com a empada? Pois calma que eu respondo: Não perder as oportunidades que a vida lhe apresenta. E não estou falando de empada nesse momento. Estou falando de um abraço apertado em um filho, de um colo de mãe, de um mimo para o cônjuge sem ele esperar, de um sorriso para uma pessoa andando apressada na rua, de uma palavra amiga a um amigo. Estou falando dessas pequenas coisas que muitas vezes deixamos passar por entendermos que são muito pequenas, mas que ao final somadas, representam a essência de uma vida. Pois como ia dizendo, saí do mercado carregando as encomendas, um sorriso largo e a sensação de ter aproveitado a oportunidade quando a vida me ofereceu. Vai que eu morro amanhã sem ter comido a empada do Alberto de novo né?         

 

   
            

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta-feira 08 de março de 2019

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

pausa para ver as nuvens


Pausa para ver as nuvens

 

          Hoje de manhã, como de costume nos últimos seis meses, madruguei no aeroporto. Munido de mala de mão e mochila, já decorei os apelos da companhia aérea alegando que o avião está com alta ocupação, então entra por um ouvido e sai pelo outro. Vou despachar mala não. Tenho que chegar no destino, sair correndo do avião, alugar o carro e partir para o objetivo, qual seja, trabalhar. Por isso sento impreterivelmente no corredor mais à frente. Desembarque, quando autorizado, somente pela porta dianteira. Tudo cronometrado. Levo um livro de Logosofia para estudar e o computador para adiantar o serviço a bordo. Saco do fone de ouvido, isolo-me do ambiente, ligo o PC e quando vejo já estamos pousando no destino. Nada longo. Hora e pouco de voo, mas como tem se tornado constante, utilizo o avião como escritório. O máximo que desconcentro é para atender o serviço de bordo oferecendo água e dar um bom dia ao companheiro da poltrona vizinha.

          Mas hoje de manhã foi diferente. Entrei no avião primeiro (por conta do cartão de fidelidade da companhia aérea e não por ser da fila “P” de prioridades prevista por lei. Ainda não), sentei como de costume no corredor à frente, pluguei o fone de ouvido no canal de notícias, abri o computador até o fecharem portas da aeronave. Os aparelhos eletrônicos devem ser mantidos em modo avião. E vai entrando gente. E de repente chega meu companheiro de fila. Pede licença, e eu numa rapidez meteórica, recolho fone, computador, levanto, dou passagem e me sento novamente. Abro o computador e recoloco o fone de ouvido. Eis que surge a primeira frase do cidadão: “é a primeira vez que ando de avião. Será que cai?”. Os pensamentos logo pulularam na minha mente, pois responder à pergunta naquele momento batia de frente com meu “way of flylife”. Mas como percebi que o senhor (depois vim saber que ele tinha a mesma idade minha. Será que as pessoas também me veem como um senhor?)  estava meio nervoso, retirei os fones, fechei o computador novamente e tentei falar algumas palavras de conforto: “calma senhor, eu viajo toda semana e o avião nunca caiu”. Logicamente que minha intenção era finalizar aquela conversa ali e voltar à programação normal. Ledo engano. Foi aí que o homem destampou a falar. Descobri que era da cidade de Belo Jardim, estado de Pernambuco. Pertinho de Caruaru. Mas estava morando em Gurupi, Estado do Tocantins. Contou-me que era professor de música lá. Dava aulas para crianças. Contratado como temporário pelo município. Explicou-me a diferença entre funcionário público concursado e contratado por tempo determinado. Falou-me que dava aula de qualquer instrumento mas era bom mesmo nos de sopro. Explicou-me sobre teoria musical e a dificuldade de se tocar bateria. Falou que saiu da cidade natal por conta de um amigo major do exército que o tinha convidado para ser professor de música. Disse ainda que o dito major tinha capotado o carro na estrada quando tinha ido busca-lo para a mudança. Capotou o carro com a esposa e o filho de dois meses dentro. Ninguém havia se ferido. Ele mesmo queria ser militar. O cidadão. Mas tinha sido dispensado na junta militar da cidade natal. Antes tivesse se alistado na capital. Falou que a aposentadoria de militar era boa. Que eu devia colocar meus filhos na escola militar para estudar música. Lembrou-me mais uma vez que era a primeira vez que voava de avião. A esposa dele também nunca tinha voado e pediu que ele ligasse quando chegasse ao destino. Estava preocupada. E tinha um filho de cinco anos. E reclamou quando peguei uma balinha do serviço de bordo alegando que levaria para meus filhos: “se eu soubesse tinha pegado uns cinco pacotes para meu filho. Será que precisa guardar na geladeira?”. Perguntou a aeromoça. Ela explicou com toda paciência que não. Relatou logo após que tinha saído de Gurupi de ônibus até Palmas. Passagens todas compras com dinheiro emprestado do amigo major. Pagaria em suaves prestações. De lá avião até Goiânia. De Goiânia um voo até Belo Horizonte. De BH outro voo até Recife. Um amigo do irmão o pegaria de carro e levaria até Caruaru. De lá o irmão o levaria a Belo Jardim. Fiquei com pena: “mas para que essa saga?”. Baixou o tom da voz e disse que tinha falado para a mãe ao telefone: “mãe, não deixa papai ir. Segura ele”. Estava indo para o enterro do pai. A pena triplicou. Perguntou o que eu fazia. Engoli seco e respondi sem graça que trabalhava com cemitérios. Ele espantou-se. Contou dos irmãos. Vários. Um já tinha morrido. Bebia demais. Era o único musico entre todos. Olhou as nuvens e perguntou que altura estávamos. Mostrei o mapa na tela. Indagou porque voar acima das nuvens. Tentei explicar. Disse que as nuvens pareciam feitas de algodão. De repente calou-se e dormiu. Por hora esqueceu a agonia de voar pela primeira vez tentando chegar ao enterro do pai a tempo. Pensei logo em retomar minha jornada habitual, mas as nuvens me chamavam a contemplação. Brancas e macias como algodão. Havia me esquecido disso. Dessa sensação de fazer algo fora do script. De passar prazo observando as coisas triviais da vida. E assim fiquei até ele acordar no pouso. De novo a preocupação do que fazer em seguida. Tentei tranquiliza-lo. Iria ajudar. Descemos e logo busquei informações do voo dele que seguiria até Recife. Ainda tinha duas horas de espera no aeroporto. Eu permaneceria em Belo Horizonte. Perguntou se no outro voo serviria almoço. Tive que lhe dar a má notícia que no máximo balinhas de gelatina e goiabinha integral. Ele estendeu a mão. Agradeceu. Desejei-lhe boa viagem. Parti. Ele ficou. Em mim uma sensação de querer ficar mais lá e escuta-lo. Deixar o computador e os fones dentro na mochila, tomar um café demorado e saber mais da sua vida. Mas faltou a resolução. Virei as costas e segui meu rumo. Mas não sem antes olhar pela janela da sala de embarque e pensar que há tempos não observava as nuvens. Como eram parecidas com algodão. Brancas e macias.

               

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, terça-feira 26 de fevereiro de 2019