sexta-feira, 23 de setembro de 2011

papai 24 hs

Iniciando os trabalhos primaveris, nada como uma crônica light. Espero que gostem.


PAPAI 24 HS



Estou aqui nesse primeiro dia de primavera tentando achar um tema para escrever essa crônica sexta feiral. O calor está de matar, o que atrapalha em muito a escolha do dito cujo. Penso que meu cérebro está derretendo. Ainda por cima tenho dois pinhecos fazendo algazarra do meu lado. Aí nesse ponto vocês vão me perguntar: “onde diabos você está?””No inferno?” Eu respondo que estou em minha casa. E os pinhecos são os meus. Aula? Hoje não tem. Vai entender esses calendários escolares. Secretária do lar? Arrumou suas coisinhas e se pirulitou. Mãe? Foi trabalhar. Tinha assuntos urgentes a resolver. Pai? Uai! Está aqui! Os meus assuntos urgentes? Melhor não responder essa pergunta. Corro o risco de dizer um palavrão. Mas como diz minha querida mãezinha: “deixa ferver com a espuma”. Aí, como vocês perceberam, sobrou para mim a função de babá. O problema é que eu insisto em trabalhar. Ligo meu computador e com meia palavra digitada um grita para ligar a banheira. O outro quer que eu coloque um filme. O que estava na banheira agora quer lanchar e o que estava assistindo o filme quer ir ao banheiro. Aí eles começam a se estapear e aquele texto que você está tentando ler, parece estar escrito em grego. Concentração. Presta atenção no trabalho. Opa, um minuto de silêncio... O que você está fazendo menino!?!? Jogando o sabonete no vaso sanitário!?!? As vezes eu acho que criança deveria ficar amarrada ao pé da mesa. Quando eles vêem que você está trabalhando, fazem questão de brincar perto. Do lado. Em cima. Querem aquela caixa que está na última prateleira da estante. Porque não podem brincar com os brinquedos que estão embaixo? Fora a sujeira. Espalham todas as coisas em todos os lugares possíveis. Olha vou ser muito sincero. Se você ainda não tem crianças é melhor parar de ler essa crônica agora. Depois não diga que não avisei.

Aí como vocês estão acostumados ao contraponto positivo em minhas crônicas (estou tentando achá-los), não poderia de forma alguma decepcioná-los. Falei à Helena, a mais velha, que fizessem de conta que eu não estava aqui. Para que brincassem como se estivessem somente os dois. Ela me respondeu muito simplificadamente: “Mas você está aqui papai. E quando você está aqui, nós gostamos de brincar com você. Filhos devem ficar perto de seus pais.” Toma! Vai mais! Como não parar para pensar? Como não olhá-los com os olhos diferentes e imaginar que esses pequenos seres além de dependerem de você, gostam incondicionalmente da sua presença? Eles te amam. Te querem. Te veneram. Te enlouquecem. Como não associar a entrada da primavera com essas pequenas flores que dependem do seu carinho para sobreviver? Aí o “paimonha” se rende. Onde estão as Pollys e os Hot Wheels? Quem ainda não tem crianças e me desobedeceu no parágrafo anterior e seguiu com a leitura, saiba de uma coisa importante. Não trocaria esses pinhecos por nada nesse mundo. Não tem dinheiro, nem fama, nem realização capaz de suplantar um sorriso deles. É isso.

E vou terminando essa crônica por aqui porque eles estão aqui no meu pé pedindo para fazer o lanche. E depois tem passeio de bicicleta e depois ler história....    



Guilherme Augusto Santana

Início da primavera de 2011




ps. Para não acharem que estou faltando com a verdade, segue a prova cabal.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mãe, não vou à casa da Tia Ernestina!

Como de costume, segue mais uma de sexta.
Podem comentar. Mata ninguém não. Mas se falarem mal da crônica lembrem-se da maldição do Coveiro.
bom fds a todos


Mãe, não vou à casa da Tia Ernestina!





Ao começar a ler essa crônica, talvez você imagine que o seu escritor não sabe o rumo que quer chegar. Nem se quer chegar. Mas não se preocupe. Na medida do possível tento fechar o raciocínio. Conta a história que por volta dos anos 1500, foi alçado a qualidade de Papa, o Cardeal Rodrigo Borgia, que estando empapado, passou a ser chamado Papa Alexandre VI. Para conseguir a eleição de pastor máximo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana na época, Rodrigo lançou mão de todos os recursos, principalmente os mais sórdidos. Esse Papa tinha filhos (não me questionem esses dogmas). Um deles era a famosa Lucrécia Borgia que ficou famosa com a alcunha de pior mulher do mundo. E outro filho, Cesare Borgia, que foi a peça fundamental para que o pai conseguisse chegar a Papa, ficou imortalizado na obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel. Aí chegamos ao ponto que eu queria abordar. Maquiavel e sua teoria. Muitas vezes utilizamos expressões e pensamentos sem saber ao certo de onde vieram e em que circunstâncias foram proferidas. Todos vocês já devem ter escutado a expressão: “fulano é maquiavélico”. Parecendo com isso que o fulano seria o diabo em pessoa. Estou certo? Pois bem. Diante disso alguém se considera maquiavélico? Senão vejamos.

Vamos partir de uma das frases que define o maquiavelismo: “os fins justificam os meios”. Daí podemos traçar um raciocínio lógico. Veja se você se encaixa em uma dessas cenas. Cena 1: eu preciso enforcar aquele feriado para viajar com a namorada e estou sem coragem de falar com meu chefe. Chego de mansinho olho o porta retrato em cima da mesa e pergunto sobre os filhos e a esposa. Digo a ele da importância que a família tem na vida de um homem. Digo também da necessidade das horas de lazer na produtividade de um funcionário. Digo que gostaria de ter uma família linda como a dele. Por fim elogio sua gravata (que está ridiculamente descombinante com a camisa) e numa tacada só, com cara de pessoa zelosa pela manutenção da família, solicito o enforcamento do feriado. Mas olha, foi por uma causa justa. Se eu não fosse, a namorada ia com outro. Cena 2: Você precisa comprar um presente de aniversário para um filho de um amigo. Entra no shopping correndo (porque só tem 20 minutos de estacionamento grátis), pega o primeiro brinquedo que vê na sua frente, paga em dinheiro (cartão pode enrolar), fala para a empacotadora agilizar, pois você deixou o forno de casa ligado e sai correndo do shopping aos 19:45 do segundo tempo. Aí para justificar a compra de um quebra cabeça de 200 peças para uma criança de 1 ano, porque não teve tempo de ao menos olhar a indicação etária, você pensa: “um dia ele vai usar”. Ou “criança nem repara nessas coisas”. Ou ainda “tem gente que nem presente vai levar”. Mas olha, foi por uma causa justa. Não tinha trocado para pagar estacionamento. Cena 3: Você está no caixa do supermercado e tem uma senhora da melhor idade na sua frente pagando meia dúzia de coisas. Ela tira a niqueira (artigo que só as senhoras da melhor idade possuem) e começa a contar as moedas lentamente. Você com carne e cerveja dentro do carrinho e o celular tocando o tempo todo porque todos os seus amigos já estão na piscina. Aí você vê que ela ainda não começou a embalar as compras e começa a auxiliá-la com os saquinhos. Muito rapidamente você termina o trabalho e ela lhe agradece como se você fosse o super prestativo. Menino bem criado né? Mas olha, foi por uma causa justa. A churrasqueira já estava acesa. Cena 4: Sua mãe te chama, no domingo, para visitar a Tia Ernestina que mora naquele bairro lá onde Judas perdeu as botas. Você se recorda que sua tia faz um doce de casca de laranja que fica quase uma década na prateleira a espera de um otário para consumi-lo. Lembra também que toda vez que você vai visitá-la, ela abre aquele álbum velho e mofado com as fotos da sua mãe quando pequena te fazendo espirrar o resto do dia. Aí num átimo de segundo, você faz uma voz anasalada ao telefone com sua mãe e fala que acha que está gripando e que vai ficar debaixo das cobertas. Sua mãe, como toda mãe, vai se compadecer e lhe recomendar que não pegue friagem e tome canja de galinha. Aí para matar de vez você pede a sua mãe que lhe traga um pedaço daquele doce de casca de laranja delicioso da Tia Ernestina na volta. Mas olha, foi por uma causa justa. Sabia que certos tipos de ácaros podem matar?

Resumindo? Penso que no fundo no fundo, todos nós somos um pouco maquiavélicos. Quer seja pensando em nós mesmos, na carreira, na família ou até nas deficiências. Os métodos e maneiras que alçamos mão para alcançar nossos objetivos muitas vezes são camuflados na égide de uma boa causa. Será que as causas são somente justas, ou justas somente para nós? Pensemos.        







Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 09/09/2011


@santanagui

santanagui.blogspot.com


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Eu sou Coveiro

Meninos e meninas
Segue abaixo mais uma crônica fresquinha desta sexta escaldante. Bom proveito e bom fim de semana.


Eu sou Coveiro





Geralmente os assuntos que movem as crônicas são suscitados por pequenos detalhes que vejo na rua. Tipo uma notícia, um fato inusitado ou uma coisa engraçada. A de hoje não foge à regra. Estava eu dirigindo meu carro na ida para o almoço, quando me deparei com um adesivo fixado em um carro com o seguinte dizer: “minha filha faz UFG”. Antes de mais nada, para os não goianos, esclareço que UFG nada mais é do que Universidade Federal de Goiás. Esclareço ainda que é uma faculdade pública e consequentemente não paga. Terminados os esclarecimentos voltemos ao tema. Após ler tal escrito fiquei me perguntando: qual seria o complemento subliminar da frase ao qual tinha a intenção de dizer o autor, e não teve “coragem” de fazê-lo? Seria: “minha filha faz UFG e a sua filha faz faculdade paga, seu bocó!”? Ou ainda: “minha filha faz UFG e sua filha nem faculdade faz, seu idiota!”? Quem sabe seria: “minha filha faz UFG e a sua filha fuma crack na esquina, seu irresponsável!”? Poderia ser até: “minha filha faz UFG e a sua filha até poucos dias atrás era filho, seu Mané!”? Nos meus devaneios “cronísticos”, recordei-me dos diversos adesivos que tinha observado e que tinham uma certa ligação com esse tipo de orgulho ofensivo/excessivo. Quem nunca viu um: “Sou Católico graças a Deus”? Ou um “Eu amo meu marido”? Ou ainda um: “presente dado por Deus”? E até o: “Kattlyyn Victtórya a bordo”? Qual seria a raiz dessa tentativa de exprimir orgulho de forma agressiva e emblemática? Não seriam essas tentativas uma faca de dois gumes? Não estariam essas pessoas discriminando ao invés de incluindo?

Gostaria antes de continuar, fazer-lhes uma confissão bem íntima. Eu fiz UFG! Um dos cursos mais concorridos: Engenharia Civil! Eu amo minha esposa! Meu carro não foi presente, pois ainda devo um monte de parcelas do financiamento! Não sou Católico, nem Evangélico, nem Espírita, nem Muçulmano e nem Nada! E por fim, meus filhos não tem nomes compostos com várias dobras de letras e mesmo assim os amo de paixão! Ufa... Desculpem o desabafo. Precisava fazer isso para me sentir melhor. Voltemos. Qual seria o motivo pelo qual as pessoas estão escancarando a sua “felicidade” aos quatro ventos? Seria carência de reconhecimento de realização pessoal?  

O que vou dizer agora não é criação minha, mas entendo como a verdade mais verdadeira dita sobre o homem. “O objetivo do ser humano é ser feliz”. E nessa busca as pessoas estão esquecendo que a felicidade se basta, ou seja, não precisa de outdoor para sua divulgação. O orgulho de um pai que tem sua filha universitária não deveria ser esfregado na cara de outro que não teve o mesmo sucesso. A sua felicidade devia lhe bastar. Ser expressa para quem lhe causou felicidade. E quem disse que a filha que fez faculdade será uma pessoa melhor do que a que ficou só no ensino básico? Ou que a filha que nem ensino teve? O mundo está cansado de exemplos de pessoas que venceram na vida com pouca ou nenhuma formação. E vamos mais longe. Quem garante que a pessoa que teve sucesso na vida será uma pessoa feliz? Também estamos cheios de exemplos de pessoas bem sucedidas e completamente infelizes. Penso que não precisamos dizer que estamos felizes, pois as feições de uma pessoa feliz são percebidas de longe. Não há necessidade de a esposa dizer que ama seu marido, pois seus atos dirão por ela. Essas manifestações exageradas, ao meu ver, soam mais como um mantra em busca da felicidade do que como expressão fidedigna da mesma. E vou me arriscar mais ainda. Acho que a evocação excessivamente orgulhosa das coisas funciona como repelente para sua concretização. Já dizia minha avó que traz olho gordo.

Para finalizar e corroborar com a minha tese, vou mandar fazer um adesivo com dizeres que a maioria das pessoas não teria o mínimo orgulho, mas que demonstra cabalmente que a felicidade pode estar onde menos se espera: “Eu sou Coveiro”. Tese sustentada. Só espero não atrair olho gordo. Por via das dúvidas vou plantar um pé de arruda no meu quintal.          







Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 02/09/2011



twitter.com/santanagui

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Quem tem ética?

sexta é dia de... crônica. Um bom teste para aferirmos nossa ética. Não dói nada.

Quem tem Ética?


Volto ao meu prazeroso ofício das sextas-feiras, após pausa necessária e revitalizante, que é de escrever a quem goste de ler opiniões formuladas nos intervalos das ocupações diárias ou mesmo em mesas de botecos. O que me provoca desta feita são as notícias, cada vez mais freqüentes, de escândalos políticos e principalmente o mau uso da palavra ética. Aliás, essa palavra, a danada da ética, tem sido utilizada de forma corriqueira e cotidiana como um elixir para os problemas brasileiros. Mas será que entendemos o que seja ética? Vamos recorrer ao pai dos burros para melhor elucidação: “parte prática da filosofia social, que indica as normas a que devem ajustar-se as relações entre os diversos membros da sociedade”. Resumindo é o conjunto de procedimentos acordados para convivência em sociedade. Ou seja, se a sociedade acordar que roubo é uma coisa correta, então roubar será considerado dentro da ética. Correto? Mas não vamos partir para o absurdo, já que na maioria das sociedades civilizadas, o roubo não é considerado uma arte lícita. Vamos partir para o cerne da questão: Você, que está me lendo agora, se considera ético? Trinta segundos para pensar... acabou. Então vamos a um questionário básico para aferir sua resposta. Mas antes, vamos estabelecer as regras, ok? Não existe tamanho de coisas erradas. Errado é errado, seja roubar uma galinha ou assassinar uma pessoa. Cada “sim” respondido valem 10 pontos e cada “não” valem 0 pontos. Estabelecido? Então vamos ao nosso questionário:

Responda sim ou não de maneira sincera (afinal, só você está lendo)

1)   Você já prevaricou com dinheiro público igual, aparentemente, alguns políticos andam fazendo? (considere nessa pergunta sonegação de impostos de qualquer natureza, principalmente mentir para o leão e aquisições de mercadorias sem nota fiscal).

2)   Você já se apossou de algo que não lhe pertencia? (considere nessa pergunta a aquisição de CDs e/ou DVDs pirata e downloads de músicas e/ou filmes sem autorização).

3)   Você já infringiu alguma lei deliberadamente? (considere nessa pergunta atravessar o sinal fechado porque esta com pressa, estacionar em local proibido porque não achou outro lugar e conversar ao celular no volante porque o assunto é extremamente importante).

4)   Você já prejudicou alguém em detrimento próprio? (considere nessa pergunta as desculpas fantasiosas para faltar ao trabalho e a confecção de carteira de estudante fria).

Pronto! Não doeu nada né? Agora some os pontos. Se sua pontuação ficou entre 0 e 9 pontos, parabéns, você definitivamente é uma pessoa ética. Agora se você ficou no intervalo entre 10 e 40, sinto muito, mas está precisando melhorar.
    
         Aí com certeza você deve estar se perguntando: “então quer dizer que a ética é uma utopia?”. No meu entendimento, não. Mas, utópica sim, é a maneira pela qual estamos tentando alcançá-la. Sempre vendo a deficiência do outro. Não conseguiremos uma sociedade ética somente apontando o dedo para nossos infratores e crucificando-os, como se fossemos julgadores sem vícios. Isso não quer dizer que os culpados não devam ser punidos. Longe de mim suscitar um Estado Anárquico. Mas devemos principalmente apontar o dedo para nós mesmos e nos perguntarmos: “De que forma darei minha contribuição para fortalecer a ética em minha sociedade?”. Aprendendo a lidar com nossas próprias deficiências, a mudança com certeza acontecerá. Não nos esquecendo que de forma lenta e gradual. Assim sendo, nos tornaremos exemplos e poderemos almejar que nossos filhos sejam seres melhores. Pensemos?



Guilherme Augusto Santana
Goiânia, 19/08/2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

a volta do que não foi

Caros leitores
Posto agora um caso verídico. Pode não parecer, mas acreditem, aconteceu mesmo e quem padeceu foi esse que vos escreve.
É um pouco antigo mas tenho certeza de que irão gostar.


 
A VOLTA DO QUE NÃO FOI

Acordei esta manhã sentindo o friozinho da capital argentina. Debaixo do edredom procurava me situar e reconhecer o quarto do hotel. Apalpando a cama senti o contato de duas pessoas. Abri lentamente os olhos e vi a pequena Helena e minha esposa. Devo estar sonhando... ainda não acordei direito. Mas a cama do hotel se parecia muito com a minha e o edredom também e a minha filha também e a minha esposa também! Na televisão passava Bom Dia Brasil. Mas será que em Buenos Aires passa Bom Dia Brasil? Não, né sua anta! Abrindo um parêntese. Só vou narrar essa história por dois motivos. Primeiro para evitar ter que contar esses fatos mil vezes e segundo por que vai que a Denise Fraga acha interessante e eu acabo aparecendo no Retrato Falado do Fantástico?! Fechando o parêntese. Eu realmente não estava em Buenos Aires. Estava assistindo Bom Dia Brasil na minha cama.

        Tudo começou na manhã anterior quando eu tinha que embarcar para a capital argentina. Ia visitar Buenos Aires pela primeira vez. A trabalho. Você deve estar se perguntando: “Trabalho?! Conta essa para outro!”. Foi isso que me disseram todos os meus familiares e amigos. E ainda tinha aquela brincadeirinha com a esposa: “tem mulher que é cega. Marido viajando para a Argentina a trabalho?!”. Pensa numa mulher brava? Mas a realidade era essa mesma. Ia à capital portenha para visitar uma fábrica de fornos crematórios. Você deve estar se perguntando também: “Forno crematório?!”. Pois é. Para aqueles que desconhecem, trabalho na área de cemitérios e crematórios. Ia ser com certeza um programão. De índio. Mas arrumei um companheiro de viagem. Meu sócio que começou a incrementar o programa. Descobriu uma série de lojas para comprarmos, descobriu que eles devolviam parte dos impostos pagos antes de embarcar de volta para o Brasil, descobriu que o Boca ia fazer a final do campeonato argentino com o Vélez no dia da nossa chegada... ou seja, transformou nossa viagem de negócios em uma viagem de turismo. Nada mais interessante. Bom, voltemos a nossa manhã do embarque. De súbito me bateu um estalo de que não estava portando minha carteira de identidade. Sabia por fontes fidedignas que só se entrava na Argentina portando a carteira de identidade ou o passaporte. Uma ressalva: carteira de identidade com foto recente. Não vale aquelas com foto dos anos 70. Passei correndo no escritório e peguei minha identidade e ainda pensei com meus botões: “ainda bem que me deu esse estalo. Vai que eu descubro que esqueci a carteira na hora de desembarcar na Argentina?! Não ia me perdoar”. Cheguei a passar a mão no passaporte, mas como estava vencido havia dois anos, resolvi não levá-lo (mais para frente conto mais da novela do passaporte). Coloquei tudo na carteira e segui para embarque no Aeroporto Santa Genoveva, Goiânia. Check list. Documentos ok. Malas ok. Vouchers ok. Dólares ok. Cartão de crédito ok. Portunhol ok. Pronto. Na sala de embarque encontro com um amigo de longas datas. Lembrei-me que havia encontrado-o uma semana antes, na sede da Polícia Federal para renovar o passaporte. Ficamos horas aguardando o atendimento e participando da confusão armada na sede da polícia, mas por fim desisti do passaporte. Estava demorando muito. E para que né? Na Argentina eles deixam entrar com a carteira de identidade. Renovo outro dia. Por desencargo de consciência perguntei ao amigo, antes de embarcarmos para Brasília, se ele havia conseguido renovar seu passaporte. De pronto ele me respondeu: “Rapaz, dez minutos depois que você saiu eles me chamaram e já estou com o documento na mão.” Na hora me senti meio desafortunado, mas logo passou. Vou assistir Vélez e Boca hoje. Tudo certo. Embarcamos para a capital federal. Eu e meu sócio e companheiro de viagem. Trecho rápido. No máximo uma balinha de caramelo para não dizer que não serviram nada.

        Aterrados no Aeroporto Presidente JK, fomos direto para o Free Shop. Ver os preços, claro! Perfumes, roupas e eletrônicos. Anotamos os preços para compararmos com os da Argentina. Burra cheia de dólares separados por dono. Encomendas mil. Parecia que estava indo para Miami. Tomar um cafezinho. Espera. Chamaram para o embarque. Na nossa frente na fila, uma sul-africana nos perguntava sobre a proibição de levar líquidos nos vôos, e nós arranhávamos o inglês para tentar explicar que o único líquido que estávamos levando era nossa saliva ávida por um bife de chorizo. Chegou a nossa vez de passar pela agente da Polícia Federal. Ela olhou o documento do meu sócio. Foto antiga. Comentou. Deixou passar. Ele seguiu para a máquina de raios-X. Ela olhou o meu documento. Estava aberto na lateral com a plastificação comprometida. . Explicou-me que na Argentina esse documento poderia ser rejeitado. Passaporte? Não. Aconselhou: “vai até o piso de baixo e plastifica novamente”. 30 minutos para o embarque. Tempo de sobra. Meu sócio não viu que eu não havia passado pelo embarque. Corri as escadas até o guichê da plastificação. Cheguei. 25 minutos para o embarque. Duas pessoas na minha frente. Queriam chaves para o malex. “Vamos gente!”. Foram colocar as malas no armário. Voltaram. 20 minutos para o embarque. Com a chave do malex na mão uma senhora oriental perguntava um monte de coisas e o atendente por detrás do vidro respondia outras diferentes das que ela havia perguntado. Servi de intérprete. Ela não falava chinês ou japonês, mas o vidro atrapalhava a comunicação. 15 minutos para o embarque. Chegou minha vez. “É plastificação?” pergunta o atendente. Sim, respondo pensando que me orgulhava de nunca ter perdido um vôo na vida. “Precisa esquentar a máquina” responde o atendente que nunca deve ter viajado de avião. 10 minutos para o embarque. Já paguei adiantado para evitar mais demora. Recorta o plástico. Aquela paciência dele estava me matando. Coloca o documento na máquina. A partir desse momento eu não me responsabilizo pelo tempo decorrido, pois alguns segundos pareceram horas. Lentamente a máquina quente foi engolindo minha identidade e a transformando em um pedaço de papel misturado com plástico completamente desfigurado. Nesse instante senti uma vontade de quebrar o vidro do guichê e enfiar a mão na máquina para tentar salvar o que restava da minha adorada identidade. 5 minutos para o embarque. Não deu. A expressão do atendente ao olhar a tragédia resumiu a ópera. “faço isso há 10 anos e nunca me aconteceu coisa parecida”. Fiz uma conta rápida. 30 plastificações por dia, 30 dias no mês, 12 meses no ano, 10 anos. 108.000 plastificações. E isso tinha que acontecer logo com a minha? Passei a acreditar em Murphy. O atendente imediatamente tirou uma chave de fenda minúscula de dentro da gaveta. Sabe aquelas que vêm em kit de montagem de bicicleta? Aí me disse naquela rapidez: “vou tentar tirar seu documento”. Nesta hora eu já estava agachado no chão do guichê com as mãos no rosto e segurando para não chorar. Zero minuto para o embarque. Nesse instante me ocorreu outro estalo (esses estalos estavam começando a me irritar). O meu companheiro de viagem! Preciso avisá-lo. Tentei o celular. Caixa de mensagem (odeio caixa de mensagens). Ele me liga: “cadê você? A porta do avião está fechando.”. A única coisa que consegui dizer foi que não havia conseguido embarcar por causa da identidade e que quando chegasse à Argentina entraria em contato com ele. A aeromoça deve ter ordenado que ele desligasse o celular e as explicações ficaram para mais tarde. Ocorreu-me outro estalo (passei a odiar estalos). A minha bagagem! Preciso retirar do avião. Outro estalo. Os comprovantes das bagagens estão comigo! Corre até o embarque. A agente da Polícia Federal me pergunta sobressaltada sobre meu paradeiro e diz que havia segurado o avião por minha causa. Conto a ela sobre a identidade. Ela exclama: “mentira!”. Eu iria ouvir isso pelo menos umas 30 vezes nesse mesmo dia. Falo das bagagens. Fala no rádio. Tira as bagagens do passageiro que não vai embarcar. Mas o avião está taxiando. Segura o avião. Tira as bagagens. Que alívio. Chegam as bagagens ao local de embarque. A essa altura metade dos funcionários do embarque estavam a nossa volta procurando participar da história. Avisto as malas. Duas. Duas? Mas eu só estava levando uma! A mala do meu sócio! Meu Deus! Lei de Murphy. Ao fazer o check in em Goiânia a atendente da companhia aérea colocou as duas malas no meu nome. E agora? Expliquei a situação. O avião já saiu. Outro estalo. Será que não consigo embarcar ainda hoje para Buenos Aires? A esperança é a última que morre. Aí levo a bagagem do companheiro e ainda consigo tomar um belo vinho na capital portenha. Corre. No guichê de plastificações para reaver o que sobrou da minha identidade. O atendente quando me vê fala sorridente: “consegui recuperar sua carteira.”. A esperança volta. “só que ficou um pouco danificada. A data de expedição, por exemplo, não se consegue ler. Aqui também rasgou um pouquinho.”. Logo me veio a cena na mente da detenção na Argentina por tentativa de entrar no país com documento falsificado. Morre a esperança. Outro estalo. Vou até a Polícia Civil e registro uma ocorrência. Vou até a Polícia Federal e peço emissão de um passaporte emergencial. Embarco hoje. Chego em Buenos Aires as 3 da matina. Hora de chegada é o que menos interessa nessa hora. Esperança ressuscitou. Corri. Polícia Federal. “só conversando com o delegado.”. Espera. Com um tiro certeiro o delegado acabou de matar a minha esperança. “Sinto muito, mas seu caso não é de emissão de passaporte de emergência, afinal você está em solo brasileiro.”. Enterrei a esperança. Escutei o tango da despedida. Hora do óbito: 11horas da manhã. Causa mortis: maquina de plastificação.

        Nessas horas você tem que controlar os pensamentos porque senão eles fazem uma verdadeira rebelião em sua mente. Coloquei todos para dentro de suas celas e comecei a estabelecer meu raciocínio para saber o que fazer. Primeiro despachar a coitada da mala do meu ex-companheiro de viagem que nada tinha a ver com o pepino. A bagagem chegaria a Buenos Aires às 3:00 horas da manhã. Fazer o que? Ele teria que comprar uma escova de dente por lá. Liguei para minha esposa. Minha irmã atendeu. “Já chegou?” Só consegui dizer que estava retornando para Goiânia. “Mentira!?” ela disse. Conversei com minha esposa e expliquei mais ou menos o que havia ocorrido. Não queria falar muito. Estava me sentindo igual Tom Hanks no filme “O Terminal”. Vôo para Goiânia só às 18:00 horas. Fazer o que? Examinei as possibilidades de voltar mais cedo. De ônibus, carona, a pé... Estalo! Lembrei-me que meu tio vinha à Brasília toda semana a trabalho. Ligo e peço carona. Resolvido. Liguei. “Tio, onde você está?”. “Estou voltando para Goiânia” ele disse. Que sorte a minha! “onde precisamente?”. “Passando por Abadiânia” ele respondeu. Para quem desconhece o trajeto Brasília/Goiânia, Abadiânia está na metade do caminho. “uai, então boa viagem” foi o que dei conta de responder. Tom Hanks voltou. Os pensamentos saíram de suas celas e queriam gastar todos os dólares em compras caras de aeroporto (único lugar em que um café custa R$ 5,00). Mas logo contive a rebelião e parti para uma aventura reparadora. Fui almoçar um belo bacalhau na brasa às margens do Lago Paranoá. Merecia. Pelo menos isso. Confesso que aquele bacalhau em outras oportunidades teria sido um “must”, mas daquela vez tinha gosto de carne argentina. Voltei ao aeroporto. Toma café. Um milk shake de ovomaltine. Compra uma lembrança para a Helena. Um livro. E o tempo não passa. Mando mensagem para a minha agente de turismo. Ela liga. Eu conto. Ela diz: “mentira!”. Peço que já vá olhando um reembolso do pacote. Pensa se a companhia vai devolver alguma coisa!? Meu sócio liga de Porto Alegre. Conexão. Explico o que aconteceu. “Mentira!”. Explico da bagagem. Explico sobre a carteira de identidade recente (a foto da dele era preto e branco). Ele se apavora. “E agora?”. “Já que você está no caminho, tenta entrar. Se não der, volta.”. Conselho bom né? Desliga o celular. Na mente passam todas as possibilidades de ter evitado aquele erro. Revive-se todos os momentos que culminaram naquela viagem frustrada. Aprende-se lições.

        Na hora do embarque para Goiânia encontro novamente aquele amigo meu do passaporte, lembram? Pois é. Ele tinha passaporte e nem precisou. Rapaz de sorte. Quando ele olha o monitor de vôos, vê que nosso vôo para Goiânia estava com status de cancelado. Comenta comigo: “Que azar o meu. Antecipei meu vôo para Goiânia para poder coincidir o encontro com o vôo dos meus pais que esta voltando da Europa e o vôo foi cancelado?! Muito azar!”. Contei a ele meu infortúnio. Ele achou que o meu azar era muito maior. Reconsiderou sua fala. O vôo foi confirmado para o horário previsto. Deve ter sido gozação do destino, mas como eu já estava anestesiado ele deve ter resolvido parar com a brincadeira. No fundo eu já havia escolhido quais cadeiras do aeroporto iria dormir naquela noite. Noite de Tom Hanks. Embarquei. Balinha de caramelo. Gosto de cerveja portenha. Desembarque em Goiânia. Encontro a esposa. Casa de mamãe. A família reunida para uma rodada de pizza e para gozar da cara do palhaço Tom. Pizza com gosto de costela argentina. Conto todos os detalhes. “Mentira!”. Redistribuo os dólares das encomendas. Mostro minha identidade de Franckstein. Tento falar com meu sócio pelo celular. Nada. Parece que os celulares não funcionam na Argentina. Não sei se ele chegou, se ele voltou, se ele foi ao jogo, ou se ele está passando sua noite de Tom Hanks. Acaba a noite. Cama. A minha. (meu sócio me contou na volta da viagem que a bagagem só foi entregue no outro dia à noite e que ele passou muito frio, ocasionando uma alergia de pele. A propósito ele não foi ao jogo.)

        Ainda estou debaixo do edredom na manhã fria de Goiânia tentando entender o que ocorreu. A frase que mais escutei depois de “mentira!”, foi “Não era para você estar naquele vôo”. Mas penso que isso não se justifica. Penso que se tivesse me atentado aos detalhes estaria na Argentina e o meu destino não estaria modificado por esse fato. Mas nesse momento estou em casa. Melhor ainda. Passo a mão pela cama novamente e sinto Helena e Ana Cristina. Penso na felicidade de estar perto delas e chego a conclusão que voltar para casa é sempre bom. Mesmo que se esteja voltando de onde não se foi.     
            

Guilherme Augusto Santana
Goiânia, 10/05/2007

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Obituário

Constantando as fraquezas humanas


Obituário

É com muito pesar que anuncio a todos os familiares e amigos o falecimento de Liz Baby, aos 13 anos de vida canina (70 anos o correspondente humano), vítima de complicações renais. Não deixa herança nem testamento, somente suas duas crias, Bia e Zulu (paradeiro desconhecido). O enterro foi realizado na reserva florestal do Complexo Vale do Cerrado, onde poderá enfim descansar em paz. A família aproveita a ocasião para agradecer as pessoas que olharam por ela nesse momento final, principalmente as dras. Luíza e Elisa, que dispensaram todos os esforços para que seu final fosse o mais suave possível.
Liz Baby
11/04/1996 – 01/09/2009

Quando levava a caixa em que jazia o corpo da pequena para seu destino final, começou a tocar a música de Beto Guedes que fala da chegada da primavera. Percebi que realmente tínhamos entrado em setembro e que o início da estação das flores se aproximava. Lembrei-me de outra crônica que havia escrito por ocasião do nascimento de Helena, e me preocupei em como daria a notícia do óbito para essa pequena. Foi nesse momento que me dei conta de que realmente não estamos preparados para a morte e que, muito menos ainda, não estamos preparados para contar a nossos pequenos sobre a morte. Tentei imaginar como funcionaria seus pensamentos quando desse a notícia e de como deveria ser minha conduta diante de sua reação. Deveria estar preparado para todas as atitudes possíveis, desde um desdenho até uma comoção histérica. A questão era exatamente essa. Será que eu estava preparado? Será que alguém está preparado para dizer a uma criança de 4 anos que seu bichinho de estimação morreu? E como dar a notícia sem estar preparado para as inevitáveis perguntas: O que é morrer? Ela não vai mais voltar? Para onde ela vai depois que morre? Foi nesse momento que realmente cheguei à trágica conclusão de que a nossa cultura ocidental bloqueia completamente a capacidade de entender a morte como algo natural. Como não passar esse temor para a pequena? Poderia dizer que ela (a cadela) estava velha e que já estava na hora de morrer, mas conseguiria depois conter suas lágrimas ao imaginar que sua bisavó também estava velhinha e que iria morrer também? E como explicar que as pessoas novas também morrem? Poderia simplesmente ignorar o fato e ir levando “de barriga” o assunto até que ela esquecesse. Agindo assim eu não estaria fugindo da responsabilidade de educador e colocando minha filha em uma redoma de vidro isolada dos fatos da vida? E quando ela descobrisse poderia me acusar de omissão. Ela estava realmente preparada para passar por essa situação de privação? Será que alguém está? Será que a vida espera as pessoas se prepararem para as intempéries para poder mandá-las? No fundo, bem no fundo a vontade que tive naquele momento foi de esconder-me. Senti-me um impotente sem a capacitação necessária para poder dar uma notícia a minha filha. Alguém tem a resposta?
  Nesse momento, ainda redigindo essa crônica, penso não ter a solução imediata para o problema. O que me resta é o afeto. Lançarei mão desse recurso. Um abraço apertado. Sinceridade nas palavras e ausência delas quando não forem necessárias. Se as lágrimas teimarem em rolar, que rolem. Afinal a vida é feita de momentos. Alguns alegres, outros tristes. Penso que o segredo é recordar sempre dos alegres. Espero que ela entenda a minha fraqueza de ser humano e minha limitação como pai.
Guilherme Augusto Santana
 01/09/2009

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Miolo de Pote

Segue uma das antigonas. Essa crônica foi escrita em memoria de uma grande amiga que nos deixou. Impressionante notar como alguns assuntos não se tornam obsloletos.
Espero que gostem.


MIOLO DE POTE

                Hoje a crônica vai ser bem light. Não quero escrever nada sério. Não teremos problemas econômicos, políticos, avestruz ou críticas ao Presidente Lula... se bem que o Presidente não anda nada sério, mas deixa quieto. E também não falarei da minha filha Helena, se bem que como diz minha amiga Renata Preta: é difícil deixar os filhos de fora do assunto. Portanto hoje, quem quiser ler alguma coisa de “sustância”, como se diz na roça, esqueça. Vá ler a Folha de São Paulo ou assistir o Globo News. A crônica de hoje é em homenagem a uma pessoa que não está mais entre nós, que recentemente foi cumprir seu processo de evolução ao lado de Deus. Minha ex sogra Nilma Leandro e Leandro, era uma pessoa digna de ser chamada otimista e guardava dentro de si uma força vital que poucas vezes vi em uma pessoa, e olha que sogra é difícil falar bem, quanto mais ex sogra, mas ela era muito especial. Mas lembrei-me dela para puxar o assunto da Crônica. Ela se dizia especialista em uma modalidade de assunto que abordarei hoje: o miolo de pote! Conversa fiada, sem proveito, a toa, sem pretensão, conversa fora, de boteco, conversa sem dor, melancolia ou finalidade; conversa só.
               
Existe uma música interpretada pela Adriana Partimpim, vulgo Adriana Calcanhoto, que relata as perguntas que as crianças fazem aos adultos quando chega aquela fase dos porquês. Esta música, se não me engano muito, foi feita para o filho da Paula Toller, que se chama Gabriel. Aí vocês vão me perguntar como eu sei disso. Aí eu respondo que esta canção é uma das preferidas da Helena para dormir, portanto é das poucas músicas que ando escutando ultimamente. E eu que falei que não ia tocar no nome da pequena filha. Mas pai é pai. “Alilás” ela está cada dia mais linda... mas a música se chama, obviamente, Gabriel e retrata aqueles questionamentos que as crianças, na sua ingenuidade do mundo, têm curiosidade de saber. Só para não deixar vocês na curiosidade vou citar algumas. São perguntas tipo da onde saem os bebês, porque os dedos enrugam quando se toma banho, como se escreve Reveillon, e outras pérolas do vasto repertório das crianças. Algumas até que os adultos teriam curiosidade de perguntar, mas não o fazem porque não podem admitir a ignorância. Eu mesmo só fui aprender a escrever Reveillon depois de velho.
               
Aí eu fiquei pensando: que perguntas, nós adultos, gostaríamos de fazer e temos vergonha ou receio de sermos mal interpretados? Se tivéssemos a ingenuidade das crianças quais porquês estaríamos provocando? Como só posso responder por mim, vou dizer alguns. Por exemplo, aproveitando a chegada do Natal, pergunto a vocês: Se os anos da era moderna começaram a ser contados depois do nascimento de Jesus Cristo por que o ano não começa no dia 25 de Dezembro, data de seu nascimento, e sim começa uma semana depois? Tudo bem que esta semana é totalmente inútil afinal ninguém faz nada entre o Natal e o Reveillon, mas tecnicamente está errado. Por quê? Outra dúvida. Se Eva surgiu da costela de Adão, todas as mulheres não deveriam surgir das costelas dos homens? As minhas ainda estão aqui, todas no lugar. Ta faltando pelo menos uma mulher neste mundo. Por quê? Outra. Se nós do Ocidente, adotamos uma série de costumes do mundo Árabe, como por exemplo, comer quibe, esfirra e coalhada seca, dançar dança do ventre, por que nós também não adotamos a poligamia? Aquela coisa de um marido ter várias esposas. Acho que a minha esposa não vai gostar deste questionamento. Pulemos esta. Outra. Esta é boa. Por que a impressora só dá pau ou acaba a tinta quando você tem um trabalho importante para imprimir? Por que ela não enguiça quando você está imprimindo as receitas da Ana Maria Braga? E agora a última mas não menos importante. Por que o Telê levou o Serginho Chulapa e o Valdir Perez para a copa de 82? Dá para entender? Difícil.
               
Mas em todo caso sei que cada um tem seus questionamentos e dúvidas que sempre quis esclarecer, mas nunca teve coragem de perguntar a ninguém. E alguns que ficam engasgados na garganta a espera do próximo gole de água. Aí eu fico pensando, voltando a minha homenageada desta crônica. Por que as pessoas que a gente gosta têm que morrer? E ainda por que as pessoas boas que a gente gosta têm que morrer mais cedo? A resposta eu não sei. Só sei que é melhor a gente aproveitá-las enquanto podemos. Para depois não precisarmos perguntar por quê.  
               

Guilherme Augusto Santana
Goiânia, 16/12/2005

* Crônica escrita em memória de Nilma Leandro e Leandro.