sexta-feira, 27 de julho de 2012

Meu Araguaia

Caros amigos leitores

uma prosa poética para uma paixão de infância.



Meu Araguaia



            Fecho os olhos por um instante e sinto o calor do meio da tarde surrar o ar. Quente. A sorte é que a sombra do rancho impede que o sol incida diretamente sobre minha pele. Pele já castigada pelos dias passados desafiando o astro rei. Lembro-me de Bial e seu filtro solar. Cuido-me, apesar de ser de uma geração que passava óleo de cozinha na pele para espantar os mosquitos da beira do rio. Sinto também a água morna correr por entre as pernas. Metade do corpo dentro d’água e metade fora. A correnteza vai levando todas as energias negativas. Rio abaixo. Vão desembocar no mar. Diluídas. Silêncio profundo. Escuto no máximo minha respiração. Estado zen. Zen nada para fazer. Tão abstraído que me esqueci de almoçar. De propósito. Delongando ao máximo aquela sensação de contato íntimo com a natureza. Um contato entorpecente. De êxtase e de álcool. Tomei uma cervejinha. Duas. Vamos lá... várias. O calor e o suor permitem esse excesso. Aliás, o que seria da vida sem excessos né? Chata. Preciso tomar uma decisão drástica. Ou levanto da cadeira semi enterrada na água para almoçar ou para dar um novo mergulho no rio. Mergulho. Melhor. Comida para que? Ali já tem alimento demais para alma. Congestão. Não sinto as picadas dos insetos. Naquela altura do Rio Araguaia quase não existe mosquitos. Lembro-me onde estou. Araguaia. Meu Araguaia. Lá para as bandas do Estado do Tocantins divisa com Pará e Maranhão. Longe. Prá mais de mil e duzentos quilômetros da minha casa. Mas minha casa parece ser ali. Sinto a brisa quente bater. Ameniza o calor. Lembro-me que mais tarde ela amornará. Virá o cair da noite. Na beira da fogueira com lenha crepitando e viola desfiando. Moda da boa. Alguma coisa a assar na brasa e uma bebida quente para esquentar o corpo. E a alma. Sinto o cheiro da seresta. Mais a noitinha barraca. Ver a lua. Ver as estrelas. Ah as estrelas... parece que lá elas são mais. Na cidade elas não brilham como no céu da beirada do Araguaia. Meu Araguaia. Sinto cheiro do sereno. Friozinho da madrugada, edredom e lanterna. Dias quentes, noites frias, coração morno. Sinto o cheiro do orvalho logo ao raiar o sol. Não dá preguiça de levantar cedo na beira do Araguaia. Os pássaros cantam em algazarra e o sol começa a castigar as barracas de lona. Levanta e vai em direção ao cheiro do café. Morno. Qualquer coisa de alimento para o corpo. A alma já está enfastiada. Começa tudo outra vez. Sinto o cheiro de nostalgia. Passei quase todos os meus aniversários na beira do Rio Araguaia. Meu Araguaia. Quase não ganhava presente. Quem vai lembrar-se de levar presente para beira do barranco? Não importava. O Rio era meu presente. Justo e necessário. Parecia que éramos feitos um para o outro. Separados no nascimento. Sinto o cheiro de cidade. Ainda estou de olhos fechados. Parece que ligaram o ar condicionado. Mas na beira do rio? A água parece que molha minha roupa, meu sapato. Abro os olhos para me certificar. Estou sentado no meu escritório. Só. Sinto um desapontamento desabar. Sinto vontade de chorar. Sinto muito. Não estou na beira do Araguaia. Esse ano não ganhei presente de aniversário. Mas deixa estar. Enquanto viver será meu. Enquanto viver serei seu. Meu Araguaia.  





Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de julho de 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

ei você aí, me dá um dinheiro aí?

Seu salário já está na internet?


Ei você aí, me dá um dinheiro aí?





Quanto você ganha de salário? Você mesmo servidor público! Estou falando com você! Não adianta olhar para o lado e disfarçar. A resposta à sociedade terá que ser dada! E a polêmica está no ar. Fruto da Lei n. 12.527/2011 que foi sancionada pela Presidente Dilma. A famosa lei de acesso a informações públicas. Cento e oitenta dias foram dados para que todos os brasileiros pudessem ter acesso aos rendimentos dos funcionários dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Entre cumprimentos e descumprimentos, o fato é que “nunca antes nesse país” se falou tanto sobre os salários do funcionalismo público. E junto a isso, logicamente, nunca se falou tanto em transparência versus invasão de privacidade. E você que está lendo nesse momento? É a favor ou contra a divulgação dos proventos dos funcionários públicos? Acha que é direito do cidadão brasileiro, como pagador, saber essas informações? Ou acha um descabimento total? O fato é que entre desculpas e argumentações, muitos cumpriram a determinação. E ai entram os jeitinhos brasileiros travestidos de erro de informação. “Mas olha que esse é o salário bruto! Tem a retenção do Imposto de Renda que come quase metade do salário!”. “Gratificação não conta como salário!”. Tudo na tentativa de esconder o real provento a que são agraciados os trabalhadores públicos. O pessoal do Judiciário então... Nunca se buliu no Poder Judiciário. Bastião da integridade e retidão. Falar em dinheiro é quase uma blasfêmia. E aí surgem os pensamentos errados no imaginário popular. “Imagina se meu vizinho descobre quanto eu ganho?!?! Vai querer me pedir dinheiro emprestado.”. “Se divulgam meu salário, meus filhos correm risco de serem sequestrados.”. “Todos vão achar que ganho muito e trabalho pouco.”. Aí entra o cerne da questão. O ponto onde o cronista queria chegar com toda essa prosopopeia. Sendo sincero, não acho que os servidores públicos recebam excessivamente. Não vejo essa disparidade de proventos que tanto se alardeia na mídia. Conheço vários profissionais liberais, empresários e executivos que recebem tanto quanto ou mais que muitos funcionários públicos de alto escalão. Acho que muitos cargos deveriam receber ainda mais como Prefeitos, Delegados e Juízes. São funções extremamente desgastantes e que muitas vezes colocam a própria vida em risco. E afinal de contas a maioria deles prestou concurso para estarem ali ou foram eleitos de forma popular. O que me causa indignação é a maneira como muitos se portam no trato público. O conceito de corrupção arraigado no âmago do brasileiro que leva o funcionário público a cair em tentação e sujar as mãos na lama do crime. Do colarinho branco ou não. O que me causa indignação é a ideia esdrúxula de que passou em um concurso, não terá que trabalhar mais nunca na vida. Pode viver de pernas para ar, afinal estabilidade é meu nome. Pelo contrário! Deveria fazer jus ao provimento pago pelo cidadão brasileiro. Assim como em todo emprego. Vestir a camisa. Cumprir com suas obrigações. O que me causa indignação é a cultura imbecil de que a coisa pública não é de ninguém. Pois sim. É sim. É minha e sua e de todo povo brasileiro. Se os salários estão ou não na internet, pouco me interessa como cidadão. O que me interessa de verdade é que cumpram suas funções. E sejam dignos delas.   









Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 20 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Auto Epitáfio

Amigos leitores

que minha loucura seja perdoada.


Auto Epitáfio



O tema da crônica de hoje é um tanto fúnebre. Não tanto se recobrarmos o ofício do cidadão que vos escreve. Mas diríamos que não se trata de abordagem cotidiana e banal. A arte de escrever epitáfios remonta os primórdios da humanidade e tenta deixar para posteridade, em breves palavras, as vidas que jazem sob sete palmos. Poucos tiveram a coragem de escrevê-los ainda em vida. Talvez os poetas loucos e os coveiros (espero encaixar-me somente na segunda categoria). Dentre os raros que se arriscaram destaco “A hora íntima” de Vinícius de Morais com seu começo icônico: “Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo para estar no caixão comigo?”. Tirando a loucura e morbidez, muitos poderão se perguntar o porquê dessa atitude. Respondo de bate pronto. Aproxima-se a data de meu aniversário e aproveitando a máxima do inferno astral que supostamente beira tais dias, faço-o como um balanço desses anos passados de vida. Um resumo de atitudes, feitos, dores e amores que marcam a vida de um ser vivente e pensante. Talvez seja esse um dos motivos que levem os homens a não fazê-lo. Será que tenho algo de bom a dizer em defesa própria? Vivi uma vida que pôde, de alguma forma, ser cantada em verso e prosa? Tenho algo de importante que mereça ser grafado em minha lápide? Que cada um responda por si só essas perguntas. Mas deixemos de lado os delongados questionamentos da ignorância humana e partamos para o objetivo final. Segue escrito em letras esculpidas no frio mármore:
 

“ Aqui jaz um homem que morreu...

... de amores pela vida, pela morte, pelo nascer do sol, pelo por do sol, pelos sóis que iluminaram sua vida.
 

        Aqui jaz um homem que escreveu...

... seus sonhos, suas glórias, suas decepções, suas virtudes, seus amores, suas dores e suas mentiras.

Aqui jaz um homem que amou...

... as pessoas, as histórias, as paisagens, os excessos, as comidas, as bebidas, as músicas, os perfumes e a si próprio.


Aqui jaz um homem que falhou...

... em não ser rico, famoso, bonito, inteligente, perspicaz, humilde e sincero.


Aqui jaz um homem que abundou...

... em deficiências, erros, ilusões, vícios, paixões e comedimentos.

Aqui jaz um homem que mentiu...

... em dizer que era forte, que era imortal, que era capaz, que era único e que era passageiro.

Aqui jaz um homem que chorou...

... enquanto filho, marido, pai, irmão, amigo e criança.
 

Aqui jaz um homem que viveu...

... e que agora só o faz na lembrança dos que lhe queriam bem.”



Segue o cortejo.        




Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 13 de julho de 2012



sexta-feira, 6 de julho de 2012

O toque de Midas

caros amigos leitores

uma história de empreendedorismo.

em especial para meu amigo Newton Fernandes


O toque de Midas



Nos idos de 2003 em um desses aeroportos do Brasil no qual os goianos são obrigados a fazer conexão, estava eu sentado na sala de embarque quando um senhor sentado ao meu lado puxou conversa. De uma maneira muito simpática perguntou de onde vinha e para onde ia. Respondi-lhe que vinha de Goiânia e ia para meu primeiro congresso cemiterial. Apressei-me logo a explicar que era engenheiro e que naquele momento minha missão era desenvolver e construir um cemitério parque na capital de Goiás. Essa pressa em esclarecer ainda era fruto do meu preconceito interno sobre minha atual ocupação, qual seja, empresário do setor funerário. Ele muito tranquilamente escutou minhas palavras e em seguida, mais tranquilamente ainda, disse que também militava na área cemiterial. Era proprietário de um cemitério vertical em Curitiba. Naquele momento meus olhos brilharam como se tivesse encontrado alguém que de certa forma não me olharia torto pela ocupação funesta. Perguntei o que pude, e ele, dentro do meu afã por conhecimento, respondeu da maneira que pôde. Encantei-me por suas histórias e a partir daquele momento comecei minha paixão pelo setor que abarcava. Nascia ali naquela sala de embarque, a figura do “Coveiro”. Trocamos cartões de visita e nos despedimos prometendo encontro em breve para nova conversa. Deixei aquele senhor sentado na sala de embarque com a sensação de que ainda tinha muito a aprender com ele, mas que aquele não era o momento. Tudo na vida tem o momento certo.



            Semana passada estava tomando café e folhando uma revista, enquanto aguardava a hora de retornar ao batente, quando me deparei com uma reportagem que chamou a atenção. Falava sobre o sonho de um empreendedor em montar a primeira fábrica de automóveis 100% nacional. O ano era 1963 e o automóvel proposto era o Democrata. Na mesma hora identifiquei aquele senhor que havia encontrado no aeroporto no ano de 2003. Depois de devorar a reportagem, fotografei as páginas e enviei, via celular, para meu sócio e amigo na cidade de Curitiba. Sentia orgulho naquele momento, pois uma história que eu já conhecia estava sendo contada em uma revista de circulação nacional. Senti como um filho que escuta falar bem de seu pai. A Reportagem contava uma história de empreendedorismo e superação. Uma história digna de Cervantes. Em pleno florescimento dos anos de chumbo brasileiro a tentativa de implantar uma indústria nacional batendo de frente com as grandes montadoras automobilísticas da época. Realmente se assemelhava a Dom Quixote e suas batalhas desumanas contra os moinhos de vento. Mas não era ilusão. Talvez um pouco fora de seu tempo, mas aquilo era empreendedorismo.  



            Hoje recebi, via correio, uma encomenda de Curitiba muito especial. Um exemplar do livro “Democrata – o carro certo no tempo errado” de Roberto Nasser. O remetente foi o mesmo para quem mandei as fotos da reportagem na semana passada. Meu amigo e sócio Newton Fernandes. Filho do senhor que encontrei no aeroporto. Nelson Fernandes. Não contive a ansiedade e rasguei o envelope começando de imediato a leitura. Gosto muito de histórias de empreendedores. Ainda mais essa que está tão próxima do meu convívio. Já tive várias oportunidades de conversar com Dr. Nelson após o breve encontro no aeroporto, e toda vez que o faço tento sugar casos e contos de sua experiência de vida. Além da Indústria Brasileira de Automóveis Presidente – IBAP são de sua autoria o Acre Clube e o Hospital Presidente na cidade de São Paulo. Hoje o projeto é o belíssimo e bem sucedido Cemitério Vertical de Curitiba, administrado pelo filho e herdeiro de virtudes Newton. Penso que na vida às vezes nos encontramos com pessoas que estão além do seu tempo. E Dr. Nelson é uma dessas pessoas. E digo mais ainda. O empreendedor não é tão importante pela obra física que deixa para a posteridade, e sim pelo exemplo que incentiva novos feitos. Talvez aquele senhor do aeroporto não saiba e eu posso nunca ter dito, mas naquele momento ele deu a primeira martelada na forja do que poderia ser um projeto de futuro empreendedor. De forma desinteressada e magnânima. Característico dos homens além de seu tempo. E quem recebe só pode agradecer, e tentar retribuir passando seu legado para frente. Tudo no seu tempo.
    



Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 06 de julho de 2012







CAPA DO LIVRO 
























sexta-feira, 29 de junho de 2012

Mouros x Mouros

Caros amigos leitores

Estou postando uma crônica que foi escrita há cerca de 7 anos atrás. Naquela ocasião o fato midiático era o escandalo do mensalão. Nada mais atual, visto o início do julgamento do mesmo pelo STF. Não costumo ser cavaleiro do apocalipse então prefiro o "antes tarde do que nunca".

Feliz aniversário Mensalão!

Espero que gostem. 


MOUROS X MOUROS



         Estes dias, estava eu tomando um chá de cadeira aguardando algum Diretor de algum órgão público, quando chegou até minhas mãos um folheto que contava a história das cavalhadas, muito tradicional em todo estado de Goiás. Lendo aquele enredo, que até então conhecia pouco, me impressionei com a luta de Carlos Magno e seus Pares de França contra os temíveis Sarracenos, povos bárbaros que haviam invadido a Península Ibérica (hoje Portugal e Espanha), desde o século V da nossa era. Comecei a refletir se realmente seriam os Mouros (Sarracenos) tão terríveis assim a ponto de movimentar meio mundo cristão em seu combate, provocando uma das mais sangrentas guerras que foram as Cruzadas. Relembrando meus estudos de História, ministradas pela professora Selma, lembrei-me que os Mouros eram chamados bárbaros por não falarem a língua que se aplicava em Roma e também por terem “hábitos” estranhos ao Cristianismo, moda naquela época. O que me levou a refletir mais profundamente: Seriam os Sarracenos bárbaros? Ou melhor ainda: Quem seriam os bárbaros? Será que a História não tem o crédito de quem a conta? Será que no mundo Islâmico os papeis não são invertidos? O Bárbaro Carlos Magno e seus cristãos infiéis contra o protetor dos Mouros, o Sultão da Mauritânia? Mas como isso já passou e faz parte da história vamos mudar de assunto.

          Estes dias estava assistindo o jornal, não importa qual deles afinal todos dão as mesmas notícias, e me deparei com cenas típicas das Cruzadas. Cavaleiros se digladiando por causa nenhuma, lançando armas e acusações. De um lado os Mouros do PTB defendidos pelo Sultão da Mauritânia, neste ato representado pelo temido cantor de Brasília Roberto Jéferson e de outro os Cristãos do PT, amparados por seu nobre colega Carlos Magno, representado pelo então ex Ministro José Dirceu. Não esqueçamos de nominar os Pares de França: Sir Delúbio, Sir Marcos Valério, Sir Genuíno, Sir Palloci entre outros. Vi uma batalha sangrenta de palavras e acusações que beiravam a encenação, tal qual a das cavalhadas. Só faltavam uns vestidos de azul e os outros de vermelho para melhor identificar quem era quem. Tudo integralmente coberto pela imprensa, que convenhamos não dispensa uma batalha teatral.

         Mas antes de continuar esqueci-me de contar uma parte da História que é fundamental para nossa narrativa. Conta a história que havia uma mulher (não poderia faltar uma na história) que se chamava Floripes, e era filha do Sultão Mouro que é roubada pelo embaixador Cristão Oliveiros. Na nossa narrativa precisamos encontrar um personagem que se encaixe no perfil da bela dama que provavelmente era virgem e ingênua. Pronto está escolhido: Milady Lula! Nada mais ingênuo e puro. Se bem que a barba não se assemelha muito a das damas em geral. Mas, feito o adendo, voltemos a nossa narrativa.

         Eis que mal começada a batalha os Cristãos sofrem a primeira baixa. Carlos Dirceu Magno renuncia ao posto de comando e abre sua fortaleza ao saque do Sultão Jéferson. Mas afinal de contas não eram os Cristãos que deveriam ganhar a batalha e a mão de Milady Lula? Mas afinal quem são os Cristãos e quem são os bárbaros? Quem são os mocinhos e quem são os bandidos nesta história? E quem serão os vencedores para contar a sua versão vitoriosa no final? No fim das contas não conseguimos distinguir Mouros de Cristãos e o papel tão almejado de Carlos Magno troca de mãos a todo instante. Nem sabemos com certeza se Carlos Magno foi realmente um herói. Não sabemos distinguir quem tem boas intenções ou se alguém as tem. Somos todos, meio cristãos meio bárbaros. Fruto de uma cultura herdada, e não modificada, de querermos levar vantagem em tudo, de termos esta complacência, esta inércia diante de nossas deficiências culturais. Se na nossa vizinha Argentina acontecesse esta palhaçada, me desculpem o termo mas realmente temos palhaços contracenando, já teríamos milhares de mulheres batendo suas panelas em frente à Casa Rosada. Se ocorresse no Japão, metade dos ministros já teria cometido o harakiri. Porque que só no Brasil as coisas acabam em pizza? Difícil responder né? Ah! Deixa pra lá. Logo, logo chega o carnaval.

         Ao fim da história permanece na torre de seu castelo, enclausurada, ela, a Milady Lula, virgem, ingênua e pura a espera de um príncipe encantado que possa tirá-la deste mar de lama, quer dizer da torre, para que sejam felizes para o resto de suas vidas, ou para o fim das nossas.



Guilherme Augusto Santana

Goiânia, 06/07/2005

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sustentabilidade

Caros leitores amigos

Banda Eva diz assim:

"Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu
É o fim da aventura humana na Terra
Meu planeta adeus,
Fugiremos nós dois na arca de Noé
Olha bem meu amor no final da odisséia terrestre"


Será?


Sustentabilidade

Nunca se falou tanto essa palavra pelo mundo afora. Sustentabilidade. É sustentabilidade para cá, é sustentabilidade para lá e o termo vai se popularizando e ao mesmo tempo, se desgastando em seu real sentido. No meu tempo (não precisamos aqui explicitar o quanto isso representa em décadas), se chamava preservação. Foi também uma palavra muito utilizada nos meios acadêmicos e populares. Preservação da fauna, da flora, dos animais em extinção, da natureza de uma maneira geral. Junto com a palavra preservação veio uma outra. Radicalização. “Se é para preservar não podemos fazer mais nada”. Temos que estagnar os processos produtivos para resguardar o que ainda temos de recursos naturais. Incluem-se nisso a estagnação do crescimento populacional terrestre. Muito simples. Se precisamos preservar, não podemos consumir e consequentemente não podemos crescer. Aí percebemos um erro de conceito. O homem estava incluído na natureza. Como não percebemos isso antes?  Como preservar excluindo o ser humano? Impossível. Passamos anos acreditando que a palavra certa era preservação. Foram décadas perdidas em embates. Despertamos o monstro da radicalização por entendermos errado os problemas do mundo. Mas será que realmente foram perdidos os esforços? Será que a coexistência meio ambiente/homem não se beneficiou de forma nenhuma desse embate? Penso que tivemos ganhos. Só de conseguirmos entender com profundidade que o homem faz parte da natureza umbilicalmente, no meu ponto de vista, já é um ganho enorme. Afinal somos a única espécie pensante sobre a face da Terra. Cabe a nós o gerenciamento do boteco, mas sem esquecer que nós também fazemos parte dele. No mesmo barco em que estão a Floresta Amazônica, o mico leão dourado e a baleia jubarte, estão o Seu Zé, a Dona Joana e seus filhos. Entendido a verdadeira relação de participação no meio, surgiu o atual termo significativo que dá nome a crônica: Sustentabilidade. Habilidade de sustentar ou suportar algo. Permitir a permanência por um determinado tempo. Aí encontramos uma palavra que apimenta a relação. Tempo. Teremos tempos para implantar a tão famosa Sustentabilidade? Estamos à beira do colapso e a velocidade das mudanças é aquém das necessidades de sustentação? Seria o fim da aventura humana na Terra?

            É nesse meio de palavras da moda, palavras do passado e dúvidas que se realiza a Rio + 20. Conferência de Meio Ambiente e Sustentabilidade. Como o próprio nome diz, vinte anos depois da irmã mais velha Rio 92. Chefes de Estado, burocratas, ambientalistas, preservacionistas, ONGs, cidadãos comuns todos tentando conversar sobre o assunto. Tentando jogar a culpa em alguém. Tentando passar a responsabilidade para alguém. Como se a mesma não fosse compartilhada. Todos cobrando resultados e velocidade. Todos dando desculpas e justificativas. Todos não se entendendo sobre os conceitos. Será que conseguiremos avançar diante desse cenário? Não consigo responder essa pergunta. Consigo sim dar minha opinião. Pode ser que muitos achem que o que vou dizer aqui é retórica, mas a História está a meu favor. As mudanças de conceito no mundo são lentas. Graduais. Não adianta querermos imprimir uma velocidade que não se sustenta. Acabei de dar esse exemplo na substituição da palavra preservação por sustentabilidade. E isso levou décadas para ocorrer e mesmo assim ainda não descobrimos como implantar. As mudanças vêm com o passar das gerações. Paulatinas. A colheita vem depois do plantio e nem sempre na velocidade que desejamos. Se ainda temos tempo? Não posso garantir. Prefiro sempre o otimismo. Se estou sentindo a mudança? Estou. Sinto-a todos os dias com meus filhos. A minha palavra era preservação. A deles já é sustentabilidade. Tenho certeza que a geração deles terá maior conhecimento e consciência para comandar nosso planeta. Assim estamos plantando. Assim espero que colham.

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 22 de junho de 2012

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Épocas passadas

Caros amigos leitores

Será que as notícias mudam em 60 anos?

espero que gostem.


Épocas passadas



Semana passada dei-me um descanso. Pescaria no meio do estado do Tocantins. Daquelas com contatos mínimos com a civilização e máximos com a natureza. Externa e interna. Saindo da bela cidade de Palmas, paramos para abastecer o carro e no folhar as revistas da loja de conveniências, uma me chamou a atenção. Tinha a foto do ex Presidente Getúlio Vargas na capa. Era uma edição da revista Época comemorativa dos 60 anos da Editora Globo. Não me contive. Comprei. Já que ficaria o fim de semana sem internet, ao menos as informações impressas. Lei de Compensação. De uma maneira muito interessante, os editores da revista dividiram a mesma em duas partes. A primeira metade com conteúdos do ano de 1952 e a outra metade com conteúdos de 2012. Um prato cheio para quem gosta de história (que é o caso desse que vos fala). Deparei-me com assuntos que eram tratados na época como a criação da Petrobrás e a tentativa do governo Vargas de insuflar o orgulho nacionalista sobre o ouro negro. A frase “O petróleo é nosso” era estampada nas manchetes e dava ao Brasil uma perspectiva de lugar ao sol no cenário global. Qualquer coincidência com o pré-sal ou qualquer coisa que o valha, nesse caso, não é coincidência. Outra notícia que chamou muita a atenção no ano de 52, foi sobre as enchentes na cidade de São Paulo e os problemas de mobilidade urbana nas grandes metrópoles. Destaco um trecho da reportagem: “Para quem acredita em destino, um alento vem dos astros: de acordo com o calendário chinês, 1952 é o Ano do Dragão de Água. Desastres naturais são esperados nesse período. A sorte é que o próximo ano do Dragão de Água será apenas em 2012, quando certamente já teremos superado o problema das enchentes.”. Não dá vontade de rir? E parece que foi há tanto tempo! Olha outra nota interessante da década de 50: “O jogo do bicho se imiscuiu entre os parlamentares. Uma parte da bancada fluminense se tornou cliente das bancas de Magé. A outra aposta com os bicheiros de Teresópolis. Vai dar zebra.”. Fora a palavra “imiscuiu” a nota poderia se encaixar perfeitamente nos moldes da política nacional atual, só que dessa feita se alastrando além de fronteiras fluminenses. Reparem nessa: “O governo quer que os industriais paulistas reduzam em 30% o consumo de energia nos horários de pico. As medidas fazem parte de um pacote de racionamento. Pede-se às donas de casa que apaguem as luzes e evitem pegar o elevador no começo das manhãs e no final das tardes.”. E até hoje não conseguimos resolver o problema energético do Brasil. Passados 60 anos a notícia está atualíssima! E para terminar o apanhado de notas, cito uma que provocará risos (ou lágrimas): “Zumbe no Maranhão o advogado José Sarney. Com apenas 22 anos, ele chegou à Academia Maranhense de Letras. O caminho foi aberto com versos feitos para sua musa, Marly, com quem se casou em julho, em São Luiz. Ativo na política, Sarney faz ferrenha oposição ao governo local. Esse ainda vai dar trabalho.”. Sem palavras. Além de todas essas pérolas da década de 50, encontra-se uma belíssima crônica da escritora Raquel de Queiroz sobre o feminismo que aconselho a todas as mulheres lerem. Entrevistas simuladas com Carlos Lacerda e Nelson Rodrigues e reportagens internacionais sobre a morte de Evita Perón e a coroação da Rainha Elizabeth II fazem da revista uma leitura leve e contemporânea.  

Mas vamos ao cerne da questão, pois não é minha intenção relatar aqui todo o conteúdo da publicação e sim chegar a uma conclusão sobre ela. Espero que os que tiverem oportunidade de ler a revista, que o façam. No mínimo poderão fazer essa análise que ora realizo. Será que em 60 anos os problemas da sociedade brasileira e mundial foram solucionados? Ou ao menos mudados? Ou ao menos amenizados? A princípio, para quem lê as notícias dos idos de 50, pode chegar à conclusão que não. Tudo leva a crer que não evoluímos nada nesses 60 anos de história. Mas dou aqui a minha opinião. A vida de certa forma é cíclica e se move em forma de espiral. Sempre para cima. Por mais que tenhamos a impressão de estar passando pelas mesmas situações, essas estão em um patamar superior. Sempre evoluindo. De forma lenta e gradual. O segredo está em olhar para a parte de baixo da espiral e utilizar as experiências passadas para solucionar os problemas atuais. Tentar ao máximo dilatar a distância entre as voltas da vida. Porque a vida, impreterivelmente, dá voltas. Só não podemos permitir que as voltas terminem no mesmo lugar que começaram. Assim eu penso.                






Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 15 de junho de 2012