sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

cria tipo menino!


Cria tipo menino!

         

Quando eu era criança pequena lá em Barbacena (mentira que sou goianiense do pé rachado) tinha mania de achar que tinha razão. Toda razão do mundo. Não podia ser questionado e muito menos acusado de estar errado, afinal eu era a razão em pessoa. Chamava isso de obstinação. Pulso firme. Inflexível. Estava certo até quando estava errado. E algumas vezes (senão a maioria) quando percebia que podia ter uma nesga de engano permanecia firme na minha posição como um exército de um homem só. Inabalável. Intransigente em minha certeza racional. Racional em minha certeza intransigente. Ou seja, era um reizinho déspota. Isso em uma criança chega a ser bonitinho. Fofinho. “Olha que gracinha dando birra de teimosia”. Conforme você vai crescendo a coisa vai mudando. O que era bonitinho e fofinho passa a ser preocupante. Mas tem sempre o da família que solta um: “mas ele não está roubando. Isso é de família”. Pronto! Mais uma justificativa. Deficiência familiar. Tem que ser preservada. Tradição que se deve carregar. Ensinar filhos e netos. Joias da coroa. Observaram que agora já passou à categoria de deficiência né? Antes era característica. Individualidade. Agora já passa para o rol do negativo. Mas é de família. Herança. Não podia fugir disso. Né não? Né não! Foi quando comecei a perceber como determinadas deficiências são acalentadas com carinho e se transformam em monstros devorando seu caráter. Viram bichos indomáveis que aterrorizam as pessoas que convivem com você. O que fazer já que tinha a razão? Isolar numa luta solitária contra o mundo? Partir para um ataque suicida e passar de louco? E se eu não estivesse com a razão sempre? Imaginem essas ideias passando na cabeça de um adolescente. Foi isso que ocorreu comigo. Como agir? Primeiro identificando o monstro. Seu modo de agir e de operar. Suas recorrências e situações de fragilidade. Depois passando a limitar suas ações. Não alimentando seu ego e nem passando a mão na sua cabeça. Aos poucos ele vai diminuindo e diminuindo até se tornar um bicho de estimação. Mas não me engano que ele é traiçoeiro. Pode crescer a qualquer momento. Debaixo do meu nariz. Voltar a aprontar das suas. Aliás de vez em quando apronta. Mas com menor frequência do que fazia em outros tempos. Chego a ficar de camarote as vezes observando ele tentar morder meu calcanhar. Mas não me iludo. Sei que ele me acompanhará até os meus últimos dias a fazer companhia. Penosa companhia. Resta-me somente nesse tempo mostrar quem manda em quem. Não deixar nunca que se invertam os papeis. E resta-me ainda o mais importante. Passar adiante. Aos meus filhos e netos. Uma herança nova. Fácil? Nem de longe. Possível? Totalmente. Afinal, quem tem razão, dá razão.

(Crônica dedicada carinhosamente a Kim Jong Un. Cria tipo menino!)       

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 08 de janeiro de 2016

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

menos é mais


Menos é mais

 

           

Propósitos para esse ano que se inicia:

 

Menos comida e mais almoços com os amigos.

 

Menos sedentarismo e mais voltas no parque comendo pipoca

 

Menos rede de internet e mais rede na varanda

 

Menos bebida e mais brindes

 

Menos estresse e mais trabalho

 

Menos trabalho e mais dinheiro

 

Menos dinheiro e mais valor

 

Menos casa de cidade e mais casa de praia

 

Menos ruído e mais música

 

Menos indiferença e mais igualdade

 

Menos paixão e mais apaixonados

 

Menos palavras e mais conteúdo

 

Menos tristezas e mais lágrimas (de alegria)

 

Menos choro e mais vela

 

Menos vela e mais calmaria

 

Menos calmaria e mais crianças

 

Menos Jornal Nacional e mais filmes românticos

 

Menos ar condicionado e mais calor humano

 

Menos virgulas e mais pontos finais

 

Menos engolir sapos e mais vomitar vontades

 

Menos propósitos e mais realizações.

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 01 de janeiro de 2016

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Bingo!


Bingo!

 

           

            Muitas vezes escutamos que a festa mais popular no Brasil é o carnaval, porém algo me leva a crer que nos enganamos redondamente. Esse posto deveria ser dado ao Natal. Como assim popular? Calma que já explico. Vamos pensar juntos. Qual a festa que a grande maioria se reúne? Qual a festa que você tem oportunidade de rever pessoas que só encontra uma vez por ano? Qual a festa que tem a maior quantidade de tradições embutidas? Fácil resposta: Natal! E por conta dessas “tradições” que a festa cristã enseja um espetáculo para quem gosta de observar. Primeiro que a véspera é mais agitada que o próprio dia do evento. Aliás a grande maioria das festas acaba antes da virada da meia noite. Ou se arrasta até a primeira meia hora pós passagem e por ali termina. Com exceção, é claro, daquele tio seu que exagerou na cerveja e vai ficar cantando moda de viola até cair no sofá e ser carregado pela tia com cara feia. Isso é ou não uma tradição da família brasileira? Isso quando a pessoa que está incumbida de ser o Papai Noel da noite não bebe todas e começa a trocar os presentes. Logicamente que coloca a culpa em quem escreveu os nomes nas etiquetas ou a falta do óculos de leitura que esqueceu em casa. Geralmente ele está sentado em um banquinho para evitar tragédias maiores, mas sempre tem o momento surpresa quando se levanta cambaleando para entregar um embrulho para uma prima que nunca recebe presentes. Nesse momento os pais que estão sóbrios tentam evitar que o velhinho Noel pinguço não desabe sobre seus filhos que estão debaixo do monte de papeis rasgados de presente. Aliás esse é outra tradição muito recorrente na noite de Natal. Os presentes. Montes deles. E ultimamente andam ficando mais volumosos e mais baratos. Mais papel que conteúdo. Tem sempre o membro da família que ganha 2/3 deles o que geralmente é inversamente proporcional à sua idade. Quanto mais novo mais mimos. A criança fica até zarolha com tanto pacote colorido. São uns trambolhos enorme que não sei como os pais enfiam no carro para irem embora. Fora o tanto de peça de plástico que se perde debaixo do sofá ou na boca do cachorro da tia que leva o canino para festa por conta do medo que o animal tem de fogos de artifício. Isso porque a senhora do cachorro esquece que fogos são usuais no réveillon e não no Natal. E têm também os que nunca ganham presentes e quando acontece um milagre saem abraçando todo mundo em agradecimento. Geralmente esses são comprados nas lojas de 1,99. Têm também os que ganham meias e lenços. Um Natal um e no outro o outro. Vê-se os sorrisos amarelos em suas dentaduras porque na verdade eles queriam ganhar um panetone de chocolate e explodir o índice glicêmico. Têm os tios que só ganham bebidas alcoólicas e sempre brincam: “pessoal acha que eu só bebo”. Geralmente esse é o que dorme no sofá ou faz aquele comentário desagradável sobre a gravidez de uma sobrinha que na verdade esta gordinha. Têm também os que ganham os presentes de grife. Ah esses são os invejados. Geralmente a parte rica da família que comprou seus presentes no exterior. É um desfile de grife de roupas. O resto dos convivas com odinho mal sabendo que essas roupas vão ficar anos no guarda roupa porque não serviram ou ficaram largas. E servirão, impreterivelmente, de presentes em natais futuros (e tem sempre o bom de memória da família que comenta que já viu aquela blusa da Hugo Boss em edições anteriores). E as comidas? Ah esse é um capítulo que valeria uma crônica solo. Castanhas, frutas de todas as espécies, aves de todos os tipos, suínos de todas as formas. E o salpicão! Claro! Tem sempre uma receita famosa de salpicão de alguma tia da família. Aquele com passas, maça, uva, pêssego e calda de chocolate que deveria se chamar salada de frutas e não salpicão. E tem a leitoa. E tem a tia que leva a leitoa e jura de pé junto que no próximo Natal não vai ficar responsável pelo suíno porque o óleo de pururucar queimou os pelos do seu braço. Para aqueles que não são de Minas ou Goiás faço um parênteses. Pururucar e a arte de esquentar óleo a exaustão e jogar sobre a pele da leitoa fazendo com que a mesma forme bolhas crocantes e douradas. Falo que é uma arte porque somente 0,1% da população mundial consegue esse efeito no porquinho. No mais fica uma pele borrachenta e oleosa. Mas voltando às comidas, o peru que era tradicionalíssimo nas mesas foi perdendo espaço para os chesters e fiestas da vida. E tem sempre a prima vegana que comenta que aquela ave é uma modificação genética e que provoca câncer e nascimento de penas nos consumidores. E tem sempre o sobrinho que chora com a conversa porque não quer que cresçam penas nele. E a farofa? Esse é o acepipe mais variado da festa. Tem de todo jeito. Cada uma mais elaborada que a outra. Chego a pensar que a receita é a mesma do salpicão só que com a adição de farinha. Aliás a farinha é a que menos importa na farofa. E no fim da festa tem sempre uma avó que enxerga mal e faz questão de juntar todos os restos de farofa fazendo uma maçaroca sem tamanho. Dá até ânsia de vomito. Aí depois de distribuídos os presentes, bebido e comido como se o mundo fosse acabar no outro dia, vem o entretenimento tradicional do Natal. O bingo. Esse é diversão garantida. Tem os que perguntam trinta vezes se o primeiro prêmio é linha, coluna ou diagonal. E tem sempre o que responde toda vez. Tem o tio que não enxerga direito e fica perguntando para o que está do seu lado se saiu algum número da cartela dele. Tem sempre o primo espertinho que pega duas cartelas para ver se arremata a garrafa de pinga que está entre os prêmios. Têm os que sempre falam que nunca são sorteados e os que falam que tem muita sorte. Tem aquele tio que associa todo número cantado ao jogo do bicho. Eu mesmo nunca consegui decorar essa bicharada. Tem o engraçadinho que coloca a calçola da avó em uma caixa de whisky e provoca os risos da galera. Menos da avó que vê sua intimidade exposta. Tem o que grita bingo sem ter ao menos um par marcado. E grita de novo e de novo. E no final das contas saem todos enfastiados de comida prometendo nunca mais comer castanha na vida. Alguns em busca de um antiácido para a bebida de má qualidade ingerida em excesso prometendo nunca mais botar uma dose na boca. Alguns com presentes em excesso e outros com presentes em falta prometendo ano que vem comprar auto presentes para impressionar os parentes. Fica o dono da casa com uma tonelada de comida que terá que comer durante toda a semana fazendo receitas de reciclagem aprendidas na Ana Maria Braga. Mas no apagar das luzes saem todos felizes prometendo se encontrar no outro ano para comemorar o nascimento de Jesus, que no final das contas é o menos lembrado da história. Ah e têm os tios que chegam mais tarde por conta da missa do galo. Esses se recordaram do aniversariante mas perderam a festa. No fim sobrevivem todos, ansiosos pelo próximo ano.

Feliz Natal.       

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 25 de dezembro de 2015

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

a carta


A carta

 

           

Quem diria que em tempos de internet e informação em tempo real (e muitas vezes informação antecipada) seríamos brindados com uma pérola do modus comunicandi do século passado. Ou século retrasado. A tão famosa carta. Quem nos proporcionou esse momento nostalgia foi o Vice Presidente da República (por enquanto) que empunhando sua Parker 51 bico de pena escreveu uma missiva a sua companheira de chapa, não menos famosa, Presidenta da República. Faltou só o lacre em cera vermelha com o brasão da família derretido sobre o pedaço de papel amarelado pela luz fraca da vela que iluminava o ambiente. A imaginação voa à solta como num enredo de filme clássico. E o conteúdo? Coisa sensível. Diria quase de amor. Sentimento que emana do mais profundo da alma. Desabafo. E o latim? “Verba volant, scripta manent”. Coisa linda. Coisa que não se ouve mais. Fiquei imaginando a nossa Presidenta, com toda sensibilidade que lhe é peculiar, lendo aquele pedaço de papel. Imagino as lagrimas. Imagino a dor de barriga. E nesse contexto de imaginação, dei-me por imaginar qual seria a resposta dela para o amigo e companheiro, agora decepcionado, Michel. Imaginemos.

 

Se ela usasse a paixão brejeira de João Mineiro e Marciano seria:

“Você me pede na carta que eu desapareça. Que eu nunca mais te procure para sempre te esqueça. Posso fazer sua vontade atender seu pedido, mas esquecer é bobagem, é tempo perdido. Ainda ontem chorei de saudade relendo a carta, sentindo o perfume. Mas o que fazer com essa dor que invade? Mato esse amor ou me mata o ciúme”

 

            Se ela tivesse a malevolência baiana da Banda Eva seria:

“Quer ir embora vai. Adeus bye, bye. Quando você me quiser estarei no ilê, já não te quero mais. Até chorar chorei não pude suportar. Ao ver se acabar todo o amor que lhe dei. E pra curar então o pobre coração, eu vou sair no ilê. Vou me esquecer de você no meio da multidão. E vou com o negro mais lindo desfilar na avenida e me matar de paixão.”

 

            Se ela se apossasse da melodia do Tremendão Erasmo Carlos seria:

“Escrevo-te essas mal traçadas linhas meu amor, porque veio a saudade visitar meu coração. Espero que desculpe os meus erros por favor, nas frases dessa carta que é uma prova de afeição. Talvez tu não a leias, mas quem sabe até dará resposta imediata me chamando de meu bem. Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais, não sei amar na vida mais ninguém.”

 

            Se lançasse mão da coragem suicida de Getúlio, seria:

Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

 

            Agora se eu escrevesse uma carta sobre tudo isso que está acontecendo me apropria de Renato Russo:

 

“E nesses dias tão estranhos fica poeira se escondendo pelos cantos. Esse é o nosso mundo. O que é demais nunca é o bastante. A primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos. Os assassinos estão livres, nós não estamos. Vamos sair, mas não temos mais dinheiro. Os meus amigos todos estão procurando emprego. Voltamos a viver como há dez anos atrás e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas.”

 

É rir para não chorar. Melhor. Risum tenere chamare

 

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 11 de dezembro de 2015

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

a política e a educação


A política e a educação

 

            Voltando da escola com os meninos para o almoço nos apegamos a uma estação de rádio que falava sobre o assunto da semana. O impeachment da Presidenta da República. Eu escutava displicentemente o debate pois tratava-se de assunto requentado, e supunha que as crianças estavam entretidas com os gibis que carrego no carro para esse fim, quando a filha mais velha me perguntou do que se tratava. Primeiro que quando uma criança faz uma pergunta tem-se toda uma tática para responde-la. Faz-se uma repergunta para saber exatamente qual a dúvida para evitar de responder em excesso ou errado. Mas não teve jeito. Como explicar para uma criança de dez anos toda a complexidade do processo político brasileiro? Como fazer isso sem ser tendencioso no raciocínio? Como fugir para as colinas? Pois bem, passada a vontade de fingir de morto comecei explicando o significado da palavra impeachment e discorri sobre o rito que esse processo ensejaria. Expliquei os motivos alegados para o afastamento e aproveitei para linkar com um conceito que ela dominava: O valor da palavra. Expliquei que as acusações tinham a ver com o não cumprimento da palavra por parte da acusada. Tudo muito simples para não complicar e nem criar fantasmas naquela mente em formação. Foi quando ela perguntou, em caso de afastamento do Presidente, quem assumiria o cargo. Expliquei que era o Vice Presidente e foi então que veio a indagação mortal:

- Papai, mas o Vice Presidente cumpre o que ele promete?

Bem... olha... não é bem assim... veja bem meu bem... E nessa hora não soube se a minha resposta seria bem aceita ou compreendida. Desviei do foco principal e procurei leva-la a refletir que isso servia de exemplo para sua conduta e o valor que dava nas palavras proferidas. E mais uma vez entendi que apesar de ser o maior clichê, a educação continua sendo nossa única esperança. Quando nos deparamos com tamanha cena de caos moral em nossa humanidade tenho cada dia mais certeza que só as gerações vindouras poderão alentar o mundo. Mas cabe a nós, que temos essa nova geração nas mãos, educa-la e infundir em suas mentes férteis conceitos de bem. Sempre escutei que os jovens são a geração do futuro e a esperança de dias melhores para a humanidade. Mas se não os educarmos para isso, se portarão exatamente como as atuais gerações se comportam. Não tenham dúvida do poder do exemplo.              

             

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 04 de dezembro de 2015

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Black Friday


Black Friday

 

            Já vou começar dizendo minha opinião logo de cara. Não tenho nada contra a importação de cultura estrangeira. Contanto que ela não venha substituir uma cultura local. Afinal vivemos em um mundo globalizado e a sobreposição de modas e costumes se torna inevitável. Não sou alarmista e nem dou muita bola para os cavaleiros do apocalipse que profetizam a aculturação do povo brasileiro pelo imperialismo ianque. Isso é muito anos 80. Se entendo ser benéfico e positivo porque não adotar? Uma dessas importações mais recentes é o tão alardeado “Black Friday” que surgiu nos Estados Unidos por conta da sexta feira subsequente ao dia de ação de graças. Os americanos resolveram enforcar a sexta e então bolaram o dia do desconto. Com isso a população não ficaria à toa em casa e sairia as compras. Isso aqueceria o mercado aproveitando um tempo ocioso. Se pensarmos por esse lado vemos que nossos irmãos americanos do norte bolaram uma coisa interessante. Aí vem o brasileiro e importa do jeito que se aplica lá. Mas cá não é igual lá e a coisa que era redonda não cabe em um buraco quadrado. Mas nós temos o jeitinho brasileiro! Aparamos as arestas daqui e dali e voilà! Coube. Meio esdrúxulo mas coube. Por isso nessa sexta onde só se fala de compras e compras, pensei no que seria a Black Friday diante do cenário nacional. Que promoções teríamos?

 

1)    Ações do BTG Pactual, Petrobrás e Vale por metade do preço! E caindo.

2)    Faça uma delação premiada e passe uma temporada no hotel de luxo da PF em Curitiba! Na companhia do japa bonzinho.

3)    Vire Presidente da Câmara e ganhe grátis uma conta na Suíça! Uma para a esposa também.

4)    Cite o nome de três Ministros do STF numa gravação e ganhe uma prisão! Seu advogado pode ir junto.

5)    O dobro de veículos nas ruas por metade da paciência! Temos a versão engarrafada.

6)    Metade da energia elétrica pelo dobro do preço! Você economiza e ajuda o governo.

7)    Mantenha um Senador preso e constranja outros 80! Menos o Collor claro.

8)    Eleja uma Presidenta e leve de presente 300 picaretas com anel de doutor! Foi o Luiz Inácio que avisou.

             

Rir para não chorar.

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de novembro de 2015

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Roman e Juliene


Roman e Juliene

 

           

Roman era polonês mas morava em Paris faziam mais de dez anos. Era policial e tinha muito orgulho de ter se tornado cidadão francês e ter o ofício de proteger um povo que o acolhera com tanto carinho. Desde que se mudara para a cidade luz não tinha arrumado sequer uma namorada. Dedicava todo seu tempo a profissão. Era do setor de inteligência antiterrorismo. Ajudava a monitorar as possíveis ameaças contra o solo francês. Numa dessas incursões eletrônicas em busca de indícios de ataques, entrou em um chat de conversas e acabou conhecendo Juliene. Ela era italiana de Verona mas morava em Amsterdã. Estudava literatura inglesa de Shakespeare e tinha fascinação por conhecer Paris. Trocaram muitos cliques e acabaram se apaixonando. Amores possíveis em tempo de internet. Combinaram de se conhecerem em Paris. Ele fazia questão de mostrar a namorada a cidade que tanto conhecia e que a moça desejava estar desde sempre. O amor era realmente lindo. Roman se preparou para o encontro. Pediu ao chefe uma dias de folga pois queria dedicar todo tempo a amada e foi busca-la no aeroporto levando um buque de rosas. Queria impressionar. O momento em que se viram pareceu que o tempo parou. Uma concessão Divina para aqueles olhares de cumplicidade. Se amaram de começo. Se amaram de fato. Se amaram. Três dias sem sair do quarto. Quando haviam matado a saudade de nunca terem se encontrado saíram para viver Paris. Agora podiam andar pela cidade de mãos dadas. Juliene era uma italiana anarquista. Vivia em uma das cidades mais libertárias da Europa. Escolhera literatura pois entendia ser uma profissão romântica e sem amarras. Era assim. Pássaro livre. Roman o contrário. Polonês cheio de regras. Criado por pais comunistas e disciplinadores. Era metódico e visceral. Escolhera a polícia pela ordem e disciplina. Era assim. Pássaro preso. Mas o amor unificava tudo. Fazia das diferenças igualdade. Pelo menos até aparecerem as primeiras desavenças. Isso começou a ocorrer quando ele comprou ingressos para assistirem um jogo da Seleção Francesa. Amistoso no Estádio da final da Copa de 98. Comprou porque achou que iria impressionar a namorada. Enganou-se. Juliene amava a França mas odiava futebol. Entendia como pão e circo para o povo dos tempos de seu compatriota Cézar. Um alienador de opiniões. Teceu uma hora de comentários na cabeça de Roman sobre as teorias libertárias e anarquistas. Tudo se resumia ao ninguém é de ninguém. Frontalmente contra o que ele pensava. E para piorar a situação, ela disse que iria a um show de rock em uma famosa casa de shows com um amigo espanhol que conhecera pela internet. Mas ela não se opunha a que ele fosse ao jogo. Cada um com suas vontades. Aquilo para Roman era uma facada. Tudo que ele mais abominava. Com o pouco de sanidade que lhe restou após a discussão, saiu em direção ao estádio para assistir ao jogo. Não prestou atenção em nada que ocorria pelo caminho. Estava desapontado. Chegou até a porta do local do jogo e ficou parado olhando aquele colosso de aço e concreto. Os olhos marejados e cegos de amor e ódio. Não conseguiu entrar. Virou-se e pegou o rumo da casa de shows onde estaria a namorada. Esbarrou em um cidadão que parecia de origem árabe. O cidadão foi ao chão com o encontro acidental. Prontamente Roman o ajudou a se levantar e pareceu reconhecer o sujeito de algum lugar. Deve ser de alguma ficha policial. Pegou a mochila do homem que parecia suspeita e devolveu a ele. Tudo parecia suspeito, mas aquele não era o momento de abordagens. Seguiram seu rumo. Ele de encontro a namorada e o homem parado perto do estádio. Chegando perto da casa de shows respirou fundo e se dirigiu a entrada. Não sofreu nenhuma revista na porta e pensou em dar um esculacho no segurança. Como poderiam deixar que ele entrasse armado em uma casa lotada? E se fosse um terrorista? Mas desistiu. Aquele não era o momento de abordagens. Percebeu que duas pessoas entraram junto com ele para o interior da boate. Pareciam suspeitos. Tinham caras de suspeitos. A mesma sensação que tivera com o indivíduo perto do estádio. Mas uma cena tirou sua atenção nesse momento. Na pista de dança viu Juliene dançando com um sujeito magro com cara de toureiro. Parecia que faziam uma dança do acasalamento. Pelo menos era assim que parecia para um polonês rígido. Perdeu a cabeça. Foi em direção ao casal em quase orgia e puxou a namorada numa tentativa de tirá-la dali. Bruscamente. Ela se debateu sem entender o que se passava. Começaram a bater boca ali mesmo. No meio da pista. Ele em francês com sotaque polonês e ela em italiano com sotaque francês. O rapaz que dançava com ela tentou entrar falando em espanhol com sotaque catalão mas foi imediatamente empurrado pelo bruto polonês. Juliene foi ao encontro do amigo no chão e o ajudou a se levantar proferindo palavras deselegantes a Roman. Ele perdeu a cabeça. Sacou da pistola que era sua ferramenta de ofício e apontou para a namorada. Com os olhos rasos d´água disse que se não podia ser só dele que então não seria de ninguém. Antes que pudesse puxar o gatilho Juliene caiu ao chão. Sem vida. Tinha levado um tiro pelas costas. Roman viu um dos cidadãos suspeitos que tinha encontrado na entrada empunhando uma arma automática. Ele havia matado sua namorada. A sua Juliene. Como num reflexo de ódio, ele virou a mira da arma que empunhava e num tiro seco atingiu a testa do homem que havia matado a namorada. Nesse momento a polícia francesa invadiu o local e um agente vendo-o de arma em punho atirou sem perguntar. Sem tempo de reação. Sem tempo de comoção. Sem tempo de despedida. Roman caiu morto em cima de Juliene que jazia no chão frio de Paris naquela noite de desamor.      

 

* essa é uma estória de ficção

  

   

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 20 de novembro de 2015