sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

os anais da História


Os anais da História

         

         

Diante desse reboliço político econômico que vivemos na atualidade brasileira, as vezes me pego pensando como isso será escrito na História daqui um tempo. Perco-me em imaginar o que os filhos dos meus filhos lerão nos livros, ou tablets, ou o que valha na época, sobre esse período histórico efervescente. Poucas pessoas conseguem se abstrair do presente e valorar com precisão o real impacto dos fatos no futuro. A operação Lava jato é um exemplo disso que falo. Muito se escuta, inclusive proferido pela minha boca, que se trata de algo sem precedentes na História do país. Mas conseguimos auferir o real tamanho do impacto disso nas gerações futuras. Será que no ano de 2090 alguém lerá nos livros que metade da população do país foi presa por envolvimento direto ou indireto nessa operação? Ou lerá que a grande maioria das empreiteiras foi levada a falência e com isso a taxa de desemprego beirou os 50%? Ou pode ser lido que o índice de corrupção se adequou aos níveis dos países nórdicos. Por que não? Pode ser também retratado que o país devido ao sistema político falido tenha voltado ao regime monárquico. Ou ao regime parlamentarista. Ou ainda ao regime anárquico. Tudo é possível. Será que associarão a fase pós Real como a ascensão do país ao olimpo da economia mundial ou compararão a uma ilha de otimismo que foi na era JK?  E quanto aos protagonistas do nosso cenário nacional? O que será escrito sobre eles? Joaquim Barbosa e sua capa de Batman ou o ostracismo numa lápide de cemitério? Sérgio Moro e sua espada justiceira ou mais uma vítima da espada da justiça? A primeira Presidenta brasileira e sua volta por cima ou mais um Presidente a sofrer o impeachment? Será o último Presidente da República? Não sei. Porém de todos esses personagens o que me detenho em maior curiosidade é o ex Presidente Lula. Gostaria de ter uma máquina do tempo para saber o que será escrito sobre ele daqui a um século. De vilão a esperança. De esperança a redentor. De redentor a vilão. E daqui a 100 anos? Nem imagino. Infelizmente, ou felizmente, não temos essa capacidade precisa de futurologia. E talvez se tivéssemos não nos esforçaríamos tanto em raciocinar sobre a nossa postura e nossas atitudes. Bastaria então saber o que demandaria no futuro e corrigir o rumo do presente. Fácil demais. Nesse ponto a sabedoria divina é “pleonasticamente” sábia. Sendo assim tratemos, pois, de escrever o presente com a inteligência que nos foi franqueada pelo Criador, para que nossos herdeiros tenham a oportunidade de ter futuro. É o que nos resta. É o que nos compete.      

 

              

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 26 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

ao Mestre com carinho


Ao Mestre com carinho

         

          Existem alguns assuntos no mundo que tem classificação “caixa de marimbondo”. Não entenderam? Explico. Melhor não mexer. E se o fizer prepare-se para as ferroadas. Por mais leve que seja o resvalo, ou por mais correto que esteja, a chance de sair ferido é grande. Crônica passada cometi essa temeridade. Em meio a uma tese sobre o ato intrínseco do ser humano de torcer por algo ou alguém, toquei no nome da Estação Primeira de Mangueira. Que primário erro cometi. Logo se alvoraçou sobre o pobre cronista um enxame de marimbondos ferozes. Recuperado das doloridas ferroadas e consciente do meu engano, escrevo essa assertiva de hoje para iniciar processo de redenção com os amantes da verde e rosa. Faço isso rendendo minha homenagem ao Mestre Cartola por quem tenho uma admiração musical poética profunda e que representa como ninguém a caixa de marimbon... quer dizer a Mangueira. Vamos a estória.

         

Estava eu esses dias escutando, juntamente com a esposa, por ordem do carnaval, um samba belíssimo chamado “Fiz por você o que pude” interpretado por Paulinho da Viola. Em determinado momento da música surge uma segunda voz fora a de Paulinho e canta a estrofe:

 

“Sonhava desde menino

Tinha o desejo felino

De contar toda a tua história

Este sonho realizei

Um dia a lira empunhei

E cantei todas tuas glórias

Perdoa-me a comparação

Mas fiz uma transfusão

Eis que Jesus me 'premeia'

Surge outro compositor

Jovem de grande valor

Com o mesmo sangue na veia”

 

Não precisa ser um bom ouvinte para notar que a voz que entoa esse trecho é de uma pessoa dos tempos antigos de samba, devido a qualidade chiada do som. Sempre associei essa voz a Paulo da Portela e entendia que a música mostrava uma preocupação com a sucessão da Escola de Samba Portela, que agora se mostrava aliviado pela aparição de Paulinho da Viola, o legítimo sucessor de Paulo. Mas o trecho inicial da música me levava a questionar tal conclusão. Era ele:

 

“Todo o tempo que eu viver

Só me fascina você, Mangueira

Guerreei na juventude

Fiz por você o que pude, Mangueira”

 

Por que cargas d´água um portelense primaz rendia louros à principal adversária? Teria Paulinho da Viola iniciado sua obra pela Mangueira e por motivos outros se transferido para a adversária? Seria essa música uma alfinetada nos mangueirenses? Essa era a peça que não se encaixava no meu quebra cabeças sobre a origem da música. Foi quando pedi a esposa, aproveitando o momento carnavalesco, que pesquisasse sobre o assunto. Eis que descubro que a autoria da música não era de Paulo da Portela e nem de Paulinho. Era na verdade de Cartola, o que explicava a saudação à Mangueira. E que a voz que entoava a parte sobre o sucessor também era dele. Em verdade Cartola que estava preocupado com a sucessão da Mangueira e havia feito a canção para homenagear a aparição de Nelson Sargento que entendia ser seu sucessor natural. Ou seja, o que entendia ser uma passagem de bastão de Paulo da Portela para Paulinho da Viola, era na verdade de Cartola para Nelson Sargento. O fato que fica fora do contexto seria a interpretação da música por Paulinho da Viola, o que não se mostra tão estranho por ser comum os sambistas, principalmente os mais cavalheiros, renderem homenagens a outros sambistas e escolas adversárias por conta de obras atemporais. Fechada a contenda, só não fiquei triste por ser exposto meu raciocínio troncho, por conta de saber da real história, coisa que me fascina muito, e por outro fato novo descoberto. Na mesma narração histórica, dispõe que alguns críticos e súditos infiéis, à época, se arvoraram sobre a composição em razão de um erro gramatical cometido pelo compositor. A palavra “premeia” mostrava um deslize de Cartola em detrimento da forma correta “premia”. Isso causou um desgosto tremendo em Cartola que evitou inclusive de cantar a música por longo tempo mostrando sua vergonha de não ter estudo firme, tendo cursado somente até a quarta série do primário. Mas entre amigos confessou o motivo do erro. Disse que ao escrever a letra ficou em dúvida entre as duas formas do verbo premiar, pois que então se decidiu ao ler os sermões de Padre Antônio Vieira: “assim castiga, ou premeia Deus”. E assim seguiu a letra e a obra de arte. E nesse momento penso que as pessoas que o criticaram escreveram seus nomes na História com lápis cujo traço resta já apagado, enquanto Mestre Angenor de Oliveira, o Cartola, ao contrário, tal qual Padre Antônio Vieira, escreveu seu nome da História com tinta “preto permanente” provavelmente vindo de uma Parker 51.  

      

Com essa narrativa pretendo, portanto, além de mostrar minha admiração pela obra de Cartola, fazer as pazes com os mangueirenses que muito se indispuseram com o cronista por deslize (não intencional) tal qual o uso poético de “premeia”. E vamos voltar a viver em paz sem resvalar mais em caixas de marimbondo, com exceção do Flamengo claro, que no meu ponto de vista... olha... deixa quieto.

             

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 19 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

na torcida


Na torcida

         

          Esses dias estava eu assistindo a final do campeonato de futebol americano, o famoso Super Bowl, quando veio a pergunta, sempre atemporal, de filha: “Papai, para qual time você está torcendo? O de branco ou o de azul?”. Sem pestanejar respondi que para nenhum dos dois. Complementei que quase nunca assistia aquele tipo de esporte, e que acompanhava de curiosidade o jogo por ser uma final cercada da mística americana do espetáculo. Ela não satisfeita insistiu para que eu escolhesse um lado, mas resoluto da não necessidade, continuei assistindo sem esboçar qualquer manifestação de apreço por nenhuma das equipes. Durante o jogo foi surgindo uma leve tendência de torcida por minha parte e acabando a partida já tinha me decidido sobre o lado preferido. Mesmo resoluto de minha neutralidade, foi impossível não pender para um dos times. Passou sem análise das motivações. Passou. Foi quando, nesse carnaval, estava acompanhando a apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro pelo rádio, quando me vi torcendo contra a Estação Primeira de Mangueira. Cada nota 10 recebida pela escola era acompanhada de um muxoxo da minha parte (o que não resolveu muito afinal ela foi campeã). Instantaneamente me lembrei da final do campeonato de futebol americano. Por que eu tinha que escolher um lado para torcer sendo que nem carioca era? Nunca desfilei por nenhuma agremiação e não tenho ligação afetiva com ninguém no ramo carnavalesco. Ao contrário, tenho tremendo apreço pela cultura musical de Mestre Cartola um manqueirense histórico. Pus-me a pensar. Por que essa necessidade premente do ser humano de tomar posição por algo ou por alguém? Porque a neutralidade é vista como sinal de fraqueza? Porque é necessário opinar sobre todos os assuntos mesmo que não se tenha certeza sobre suas opiniões? De onde vem essa necessidade de torcer eu não sei, só percebo que ela é nata do ser humano. Se opta pelo mais fraco, ou pelo mais pobre, ou pelo mais bonito, ou pelo mais tradicional, ou pelo mais novo eu não sei. E nem sei a lógica da escolha. Mas que acaba torcendo isso eu tenho certeza. Torce por afinidade, torce por disputa, torce por desafinidade, torce por coleguismo, torce por picuinha, torce por ódio, torce por amor, torce para não ficar de fora dos assuntos. Todos nós ao final torcemos por um lado e pagamos esse preço. E se mudamos de opinião e consequentemente de lado, pronto, somos tachados de vira casaca e traíras. A torcida expressa é como uma tatuagem indelével e perpétua. Marca o ser. E chegamos ao final dessa crônica com pouca ou nenhuma resposta as nossas indagações, mas torço para que tenham gostado do que leram. Se não gostaram não tem problema. Podem ler uma crônica de outra pessoa. Torço para que vocês gostem. Seus traíras.

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 12 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

sopa de minhoca


Sopa de minhoca

         

          Se acompanharmos a História brasileira bem de perto, notaremos que desde o início da colonização pelos portugueses, o trabalho era visto como um castigo. Algo impuro e relegado às classes menos abastadas e principalmente aos escravos. Por toda sorte tentaram acorrentar os índios e não tendo conseguido, recorreram aos negros africanos para tal serviço. Isso se estendeu por alguns séculos e esse conceito de trabalho ser algo ruim se perpetuou na cultura do nosso país. Talvez por isso, uma das deficiências que mais acomete o brasileiro seja a propensão ao fácil. Se a coisa é fácil não gera trabalho. E trabalho, como já mostramos, não é nada desejado. Aí vemos pipocar diversas situações que futuramente temos a certeza que se tornarão grandes problemas, e o “trabalho” para resolve-las será, com certeza, bem maior. Digamos que seria um parcelamento do trabalho em longas prestações, mas com juros exorbitantes. Ao final gera um passivo imenso e muitas vezes impagável. Querem ver alguns exemplos? Todo brasileiro, acima de 18 anos, tem o dever e o direito cívico de votar não é? Pois bem. E qual o percentual desses cidadãos, após eleger seu candidato ao que quer que seja, exerce o direito da cobrança? Sou capaz de deduzir que muito poucos. Aí vêm os aumentos de impostos, ingerências, corrupções, roubos entre outros e o coro se põe a reclamar. Reclama de tudo. Mas porque a cobrança não é feita sistematicamente dos nossos gestores? Porque dá trabalho né? Porque temos outras coisas mais importantes a fazer né? Pois é. Aí nos deparamos com o que está acontecendo em nosso país. Uma conta absurda e praticamente insolúvel. Quem “vamos” pagar a conta ao final? Quer outro exemplo? Vejo inúmeros pais delegando a educação de seus filhos aos colégios. Pagam mensalidades caras e com isso entendem que tem o direito a uma educação proporcional ao montante que desembolsam. Como se educação se comprasse em prateleira. Pois bem. Esses mesmos pais exercem o papel de educação dentro de casa? Estão em sintonia com os professores para auxiliar nessa educação formal? Dá trabalho né? Mais fácil deixar a criança grudada no vídeo game e afins devorando um pacote de bolachas recheadas. Muito mais fácil. Depois o professor que se vire na escola. Estou pagando caro é para isso. Aí vemos crescer uma geração de crianças sem educação e cheia de direitos. Cara a conta no futuro? Pois é. Quem “vamos” pagar a conta ao final? Querem ver algo pior? Se não bastasse a negligência com seu país e com seus filhos, vemos cada dia mais presente os que não tem preocupação nem consigo mesmo. Aqueles que vão ribanceira abaixo em termos de valores morais. Batem no peito exigindo os direitos mas negligenciam como podem seus deveres. Mas perceber deficiências e lutar para melhorar dá muito trabalho né? Melhor ficar como está. Mais fácil. Deixa para os outros. E no fundo todos nós pagamos a conta ao final, por estarmos alimentando essa propensão limitadora e danosa. Enquanto não percebermos que somos diretamente responsáveis pelo futuro da humanidade e atuarmos em prol disso, sem delegar a ninguém nossa responsabilidade, continuaremos pagando essa conta salgada. Porque no fundo a vovó é que estava certa. Quer moleza? Toma sopa de minhoca.  

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 05 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

cria tipo menino!


Cria tipo menino!

         

Quando eu era criança pequena lá em Barbacena (mentira que sou goianiense do pé rachado) tinha mania de achar que tinha razão. Toda razão do mundo. Não podia ser questionado e muito menos acusado de estar errado, afinal eu era a razão em pessoa. Chamava isso de obstinação. Pulso firme. Inflexível. Estava certo até quando estava errado. E algumas vezes (senão a maioria) quando percebia que podia ter uma nesga de engano permanecia firme na minha posição como um exército de um homem só. Inabalável. Intransigente em minha certeza racional. Racional em minha certeza intransigente. Ou seja, era um reizinho déspota. Isso em uma criança chega a ser bonitinho. Fofinho. “Olha que gracinha dando birra de teimosia”. Conforme você vai crescendo a coisa vai mudando. O que era bonitinho e fofinho passa a ser preocupante. Mas tem sempre o da família que solta um: “mas ele não está roubando. Isso é de família”. Pronto! Mais uma justificativa. Deficiência familiar. Tem que ser preservada. Tradição que se deve carregar. Ensinar filhos e netos. Joias da coroa. Observaram que agora já passou à categoria de deficiência né? Antes era característica. Individualidade. Agora já passa para o rol do negativo. Mas é de família. Herança. Não podia fugir disso. Né não? Né não! Foi quando comecei a perceber como determinadas deficiências são acalentadas com carinho e se transformam em monstros devorando seu caráter. Viram bichos indomáveis que aterrorizam as pessoas que convivem com você. O que fazer já que tinha a razão? Isolar numa luta solitária contra o mundo? Partir para um ataque suicida e passar de louco? E se eu não estivesse com a razão sempre? Imaginem essas ideias passando na cabeça de um adolescente. Foi isso que ocorreu comigo. Como agir? Primeiro identificando o monstro. Seu modo de agir e de operar. Suas recorrências e situações de fragilidade. Depois passando a limitar suas ações. Não alimentando seu ego e nem passando a mão na sua cabeça. Aos poucos ele vai diminuindo e diminuindo até se tornar um bicho de estimação. Mas não me engano que ele é traiçoeiro. Pode crescer a qualquer momento. Debaixo do meu nariz. Voltar a aprontar das suas. Aliás de vez em quando apronta. Mas com menor frequência do que fazia em outros tempos. Chego a ficar de camarote as vezes observando ele tentar morder meu calcanhar. Mas não me iludo. Sei que ele me acompanhará até os meus últimos dias a fazer companhia. Penosa companhia. Resta-me somente nesse tempo mostrar quem manda em quem. Não deixar nunca que se invertam os papeis. E resta-me ainda o mais importante. Passar adiante. Aos meus filhos e netos. Uma herança nova. Fácil? Nem de longe. Possível? Totalmente. Afinal, quem tem razão, dá razão.

(Crônica dedicada carinhosamente a Kim Jong Un. Cria tipo menino!)       

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 08 de janeiro de 2016

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

menos é mais


Menos é mais

 

           

Propósitos para esse ano que se inicia:

 

Menos comida e mais almoços com os amigos.

 

Menos sedentarismo e mais voltas no parque comendo pipoca

 

Menos rede de internet e mais rede na varanda

 

Menos bebida e mais brindes

 

Menos estresse e mais trabalho

 

Menos trabalho e mais dinheiro

 

Menos dinheiro e mais valor

 

Menos casa de cidade e mais casa de praia

 

Menos ruído e mais música

 

Menos indiferença e mais igualdade

 

Menos paixão e mais apaixonados

 

Menos palavras e mais conteúdo

 

Menos tristezas e mais lágrimas (de alegria)

 

Menos choro e mais vela

 

Menos vela e mais calmaria

 

Menos calmaria e mais crianças

 

Menos Jornal Nacional e mais filmes românticos

 

Menos ar condicionado e mais calor humano

 

Menos virgulas e mais pontos finais

 

Menos engolir sapos e mais vomitar vontades

 

Menos propósitos e mais realizações.

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 01 de janeiro de 2016

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Bingo!


Bingo!

 

           

            Muitas vezes escutamos que a festa mais popular no Brasil é o carnaval, porém algo me leva a crer que nos enganamos redondamente. Esse posto deveria ser dado ao Natal. Como assim popular? Calma que já explico. Vamos pensar juntos. Qual a festa que a grande maioria se reúne? Qual a festa que você tem oportunidade de rever pessoas que só encontra uma vez por ano? Qual a festa que tem a maior quantidade de tradições embutidas? Fácil resposta: Natal! E por conta dessas “tradições” que a festa cristã enseja um espetáculo para quem gosta de observar. Primeiro que a véspera é mais agitada que o próprio dia do evento. Aliás a grande maioria das festas acaba antes da virada da meia noite. Ou se arrasta até a primeira meia hora pós passagem e por ali termina. Com exceção, é claro, daquele tio seu que exagerou na cerveja e vai ficar cantando moda de viola até cair no sofá e ser carregado pela tia com cara feia. Isso é ou não uma tradição da família brasileira? Isso quando a pessoa que está incumbida de ser o Papai Noel da noite não bebe todas e começa a trocar os presentes. Logicamente que coloca a culpa em quem escreveu os nomes nas etiquetas ou a falta do óculos de leitura que esqueceu em casa. Geralmente ele está sentado em um banquinho para evitar tragédias maiores, mas sempre tem o momento surpresa quando se levanta cambaleando para entregar um embrulho para uma prima que nunca recebe presentes. Nesse momento os pais que estão sóbrios tentam evitar que o velhinho Noel pinguço não desabe sobre seus filhos que estão debaixo do monte de papeis rasgados de presente. Aliás esse é outra tradição muito recorrente na noite de Natal. Os presentes. Montes deles. E ultimamente andam ficando mais volumosos e mais baratos. Mais papel que conteúdo. Tem sempre o membro da família que ganha 2/3 deles o que geralmente é inversamente proporcional à sua idade. Quanto mais novo mais mimos. A criança fica até zarolha com tanto pacote colorido. São uns trambolhos enorme que não sei como os pais enfiam no carro para irem embora. Fora o tanto de peça de plástico que se perde debaixo do sofá ou na boca do cachorro da tia que leva o canino para festa por conta do medo que o animal tem de fogos de artifício. Isso porque a senhora do cachorro esquece que fogos são usuais no réveillon e não no Natal. E têm também os que nunca ganham presentes e quando acontece um milagre saem abraçando todo mundo em agradecimento. Geralmente esses são comprados nas lojas de 1,99. Têm também os que ganham meias e lenços. Um Natal um e no outro o outro. Vê-se os sorrisos amarelos em suas dentaduras porque na verdade eles queriam ganhar um panetone de chocolate e explodir o índice glicêmico. Têm os tios que só ganham bebidas alcoólicas e sempre brincam: “pessoal acha que eu só bebo”. Geralmente esse é o que dorme no sofá ou faz aquele comentário desagradável sobre a gravidez de uma sobrinha que na verdade esta gordinha. Têm também os que ganham os presentes de grife. Ah esses são os invejados. Geralmente a parte rica da família que comprou seus presentes no exterior. É um desfile de grife de roupas. O resto dos convivas com odinho mal sabendo que essas roupas vão ficar anos no guarda roupa porque não serviram ou ficaram largas. E servirão, impreterivelmente, de presentes em natais futuros (e tem sempre o bom de memória da família que comenta que já viu aquela blusa da Hugo Boss em edições anteriores). E as comidas? Ah esse é um capítulo que valeria uma crônica solo. Castanhas, frutas de todas as espécies, aves de todos os tipos, suínos de todas as formas. E o salpicão! Claro! Tem sempre uma receita famosa de salpicão de alguma tia da família. Aquele com passas, maça, uva, pêssego e calda de chocolate que deveria se chamar salada de frutas e não salpicão. E tem a leitoa. E tem a tia que leva a leitoa e jura de pé junto que no próximo Natal não vai ficar responsável pelo suíno porque o óleo de pururucar queimou os pelos do seu braço. Para aqueles que não são de Minas ou Goiás faço um parênteses. Pururucar e a arte de esquentar óleo a exaustão e jogar sobre a pele da leitoa fazendo com que a mesma forme bolhas crocantes e douradas. Falo que é uma arte porque somente 0,1% da população mundial consegue esse efeito no porquinho. No mais fica uma pele borrachenta e oleosa. Mas voltando às comidas, o peru que era tradicionalíssimo nas mesas foi perdendo espaço para os chesters e fiestas da vida. E tem sempre a prima vegana que comenta que aquela ave é uma modificação genética e que provoca câncer e nascimento de penas nos consumidores. E tem sempre o sobrinho que chora com a conversa porque não quer que cresçam penas nele. E a farofa? Esse é o acepipe mais variado da festa. Tem de todo jeito. Cada uma mais elaborada que a outra. Chego a pensar que a receita é a mesma do salpicão só que com a adição de farinha. Aliás a farinha é a que menos importa na farofa. E no fim da festa tem sempre uma avó que enxerga mal e faz questão de juntar todos os restos de farofa fazendo uma maçaroca sem tamanho. Dá até ânsia de vomito. Aí depois de distribuídos os presentes, bebido e comido como se o mundo fosse acabar no outro dia, vem o entretenimento tradicional do Natal. O bingo. Esse é diversão garantida. Tem os que perguntam trinta vezes se o primeiro prêmio é linha, coluna ou diagonal. E tem sempre o que responde toda vez. Tem o tio que não enxerga direito e fica perguntando para o que está do seu lado se saiu algum número da cartela dele. Tem sempre o primo espertinho que pega duas cartelas para ver se arremata a garrafa de pinga que está entre os prêmios. Têm os que sempre falam que nunca são sorteados e os que falam que tem muita sorte. Tem aquele tio que associa todo número cantado ao jogo do bicho. Eu mesmo nunca consegui decorar essa bicharada. Tem o engraçadinho que coloca a calçola da avó em uma caixa de whisky e provoca os risos da galera. Menos da avó que vê sua intimidade exposta. Tem o que grita bingo sem ter ao menos um par marcado. E grita de novo e de novo. E no final das contas saem todos enfastiados de comida prometendo nunca mais comer castanha na vida. Alguns em busca de um antiácido para a bebida de má qualidade ingerida em excesso prometendo nunca mais botar uma dose na boca. Alguns com presentes em excesso e outros com presentes em falta prometendo ano que vem comprar auto presentes para impressionar os parentes. Fica o dono da casa com uma tonelada de comida que terá que comer durante toda a semana fazendo receitas de reciclagem aprendidas na Ana Maria Braga. Mas no apagar das luzes saem todos felizes prometendo se encontrar no outro ano para comemorar o nascimento de Jesus, que no final das contas é o menos lembrado da história. Ah e têm os tios que chegam mais tarde por conta da missa do galo. Esses se recordaram do aniversariante mas perderam a festa. No fim sobrevivem todos, ansiosos pelo próximo ano.

Feliz Natal.       

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 25 de dezembro de 2015