sexta-feira, 31 de março de 2017

Saudades minhas


Saudades minhas

 

Se quiser ter um encontro com a melancolia, que leia essas palavras. Senão, que passe a outro post ou artigo que seja, porque hoje estou saudoso.

Mas não vou falar exclusivamente de saudade. Não. Vou falar de família. Daquelas que vivia grudada. Igual carne e unha. Fazia viagem para praia. Qualquer que fosse. Tendo lugar para ficar ou não. Indo para longe impreterivelmente pegava também uma temporada de hospital. Tudo junto e misturado. De uma forma que não se sabia onde começava os filhos de um e onde terminava os dos outros. Todos éramos filhos e pais de todos. Feito carne e unha eu já disse. Repito para que me ouçam com os três ouvidos. Conta o do coração também. Falei de família e me voltou o assunto da saudade. Porque estão umbilicalmente ligados. E como há muito desmamado, hoje sente falta do amparo. Saudades daquela família.

Mas não vou falar só de saudade. Não. Vou falar de amizade. Daquelas resistente igual aroeira. Cerne duro. Ia para a fazenda. Se espremia tudo em pequenos quartos. Importante era estar junto. Assuntos mil na cozinha cheirando coisa boa. Pamonha, chuva mansa, cheiro de terra molhada. Verde que te quero verde. Amizade é que nem lavoura. De qualquer tipo que seja. Precisa semente. Precisa terra. Precisa adubo. Precisa água. Precisa afeto. Tudo cultura. Mas amizade é planta rara. Difícil de dar fruto. Mas quando tratada com carinho cresce que é uma beleza. Independente da fraqueza da terra ou da escassez da chuva. Mas tem as pragas. Traiçoeiras. Roubam a força da planta. Falei de amizade e me veio de novo a tal saudade. Porque amigo sente dessas coisas. E quando apartado está não para de pensar se junto irmanado estivesse. Saudades daquela amizade.

Mas não vou falar somente de saudade. Não. Vou falar de alegria. Daquelas sorridentes como a luz do dia. Igual arco íris depois da chuva. Falou de alegria lembrei de festa. Quer coisa melhor? Com comida, sem comida, com música, sem música, com motivo e sem motivo. Mas nunca sozinhos. Sempre aquela família amiga. Recorda? A felicidade era marcada parecido cicatriz. Mas de corte bom. Cicatriz na alma. Mas alegria requer sorriso. Precisa compreensão. Necessita paciência. Repele a tristeza. Porque essa, não se engane, está à espreita. Pronta para dar o bote. E quando monta de galope, não tem quem segure. Falei de alegria e eis que surge teimosa a saudade. De um tempo que risos transbordavam. Saudades daquela alegria.

Mas não vou falar exclusivamente de saudade. Não. Corre risco de ficar monótono. Coisa que é visceralmente melancólica. Mudemos de assunto. Vou falar de tempo. Aquele emprestado por Caetano: Tempo, tempo, tempo, tempo. Compositor de destinos. Tambor de todos os ritmos. Aquele que passa sem avisar. Aquele que me lembra da fugacidade da vida. Aquele que me recorda do Criador. A Lei do Tempo. Universal e inflexível. Será que ainda temos todo tempo do mundo? Ou será que sinto saudade do tempo que já se passou no meu mundo? Ou será que percebo que o tempo que resta em meu mundo, não terá mais o meu mundo? Aquela família. Aquela amizade. Aquela alegria. Eu já ia falando do tempo mas a saudade bateu a porta. Ela quer entrar. Eu deixo. Quem sabe ela me traga tempo. O tempo que não volta mais.

 

Guilherme Augusto Saudoso Santana

Sexta chuvosa do último dia de março do ano de 2017     

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

o áudio


O áudio

         

          Ela estava ali como deveria ser. Uma típica dona de casa. Cuidando dos afazeres domésticos. Nada estava além do que se poderia esperar. E nem aquém. Vida sem emoção. Até que escutou o áudio. Meu Deus o áudio! Que pavor. Sentiu aquele arrepio característico das descargas de adrenalina. Os extraterrestres tinham invadido a Terra. Em suas naves espaciais pousaram com intenções sabe-se lá quais. O áudio era nítido. Claro. Estarrecedor. Quanto mais escutava, mais se arrepiava.

Pensou no marido que estava viajando. Tentou entrar em contato, mas não conseguiu. Tudo congestionado. Já deveria ser o início do pânico generalizado. Ou poderiam ser os ET´s causando interferência para que os humanos se tornassem presas mais fáceis. Lembrou dos filhos que estavam na escola. Arrepiou-se novamente. Correu ao quarto para se vestir. Não queria mais ouvir o áudio. Era muito aterrorizador. Pensou em vestir a primeira roupa e sair. Pensou melhor e decidiu se vestir com a roupa de domingo. Passar um batom porque se fosse para morrer, seria com classe.

Saiu à rua em desespero. Destino: escola dos meninos. Queria estar junto dos seus quando o fim chegasse. Será que seriam desintegrados? Abduzidos? Escravizados? No caminho para a escola encontrou um antigo amor de infância. Toda vez que ela o encontrava, se derretia em suspiros. Velados para não chamar a atenção do marido. Lembrava-se dos beijos fortuitos que davam no cinema. Prometia que um dia voltaria a beijá-lo. Pois não pensou duas vezes. Num átimo de segundo agarrou-lhe o pescoço e desmediu um beijo desentope pia. O homem estupefato não sabia o que fazer e acabou cedendo ao arrobo. Mal acabado o desatino do ato semi obsceno em via pública, continuou seu trajeto. Passou na porta da mercearia onde devia, e concluído que o mundo iria acabar, entrou e, aos gritos, disse ao proprietário que não iria saldar a dívida. Emendou com ofensas a honestidade do cidadão da mercearia e com desconfiança em relação à qualidade dos produtos que ele vendia. Tinha tempo que ela queria falar aquelas coisas. Vomitou. E continuou seu caminho. O áudio não lhe saia da mente. Apressou o passo.

Na porta da escola encontrou mães de alunos. Já que estava na vertente “sincerismo”, desatou a falar as suas verdades. Criticou uma que se intrometia em tudo. Falou da outra que usava roupas indecentes. Vociferou de outra que traia o marido com o jardineiro. Palavras que há tempos guardava consigo saíram tal cachoeira em garganta estreita. Mal deu tempo para a reação das ofendidas, entrou na escola aos gritos de que estavam sofrendo uma invasão alienígena e passou a mão nos seus filhos puxando-os para fora da escola. Os pequenos foram sendo arrastados pelas ruas enquanto a mãe gritava palavras de horror.

Assim que chegou em casa o som do áudio enchia a sala. Ela parou e esperou pela notícia cabal do extermínio total. Foi quando, entre ofegante respiração, escutou Orson Welles, seu locutor favorito, dizer que toda a narrativa não passava de uma novela de ficção. Encerrou a transmissão agradecendo a audiência à radio CBS. Ela parou estarrecida segurando as crianças pela mão. Custou a cair em sim. Custou. Pensou que não mais sairia de casa naquele ano de 1938. Aliás, chegou a cogitar que nunca mais sairia de casa. Mas não pelo medo dos extraterrestres.

 

 

* essa é uma estória de ficção que felizmente não acontece mais nos dias de hoje   

 

 

 A Polícia Militar de Goiás desmentiu, nesta quinta-feira (23/2), áudios e mensagens que circulam nas redes sociais sobre uma possível retaliação pela morte do traficante Thiago César de Souza, o Thiago Topete, que ocorreu durante um confronto em um presídio. De acordo com essas mensagens, moradores de bairros próximos ao Terminal das Bandeiras deveriam ficar em alerta para tiroteios. Segundo o comandante da PMGO, estes áudios são fraudulentos e querem “criar desordem no meio da população”.” (Jornal Opção – 23/02/2017)

          

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 24 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

sobre mudanças, ansiedade e adaptação


Sobre mudanças, ansiedades e adaptação

 

          Para aqueles que tem filhos em idade escolar essa semana foi o rebuliço. Um balde de água fria nas férias. A volta ao bendito (ou maldito, como queira) ciclo das aulas. Se não bastasse ter que acordar mais cedo por conta dos horários das escolas, temos que acordar de madrugada por conta do horário de verão. Mas isso é um outro assunto. O que importa é o recomeçar. Professores novos, colegas novos, matérias novas, materiais escolares novos, dívidas novas para quem compra o material escolar novo. Tudo junto e misturado numa semana que deve chegar ao fim com alguns nocautes e vários feridos que iniciam o processo de adaptação desse novo ciclo.

          Aqui em casa temos um recomeço ainda maior. A troca da escola da filha mais velha. Apertem os cintos que vai subir. Contabilizem comigo. Um filho em cada escola. Escolas relativamente longe uma da outra. Horários de entradas diferentes. Horário de saída com diferença de quase hora. Matérias escolares que se multiplicaram igual Gremilin quando é molhado. Até acertarmos o horário já quase acabou o semestre. Agora se para nós adultos, a mudança gera um transtorno e requer uma adaptabilidade, o que dirá da mente de uma criança? O que e como se processa em seus pensamentos diante de um giro vertiginoso como esse? Saindo de uma escola pequena onde a acolhida era afetuosa para uma escola, até então, incerta. Logo ela perceberá que os mundos não são assim tão diferentes e a Lei de Evolução vai tratar de fazer a transição que tanto aterroriza. Mas isso só acontecerá depois de muita unha roída, muito cabelo arrancado, muita lágrima vertida e muita espinha aparecida.   

          Ansiedade foi a palavra mais falada essa semana aqui pelas minhas redondezas. De filhos, pais e irmãos. Diria até de avós e tios. De cachorros também. Todo mundo em estado de nervos alterado. A mudança provoca esse efeito. A inércia nos acomoda no nosso mundinho e muitas vezes sussurra ao nosso ouvido maldizendo o novo. Mas com o passar dos anos a experiência ajuda a bloquear esses maus agouros e nos faz entender que a mudança é salutar. É essencial. Como o ciclo da vida. Entre acordar mais cedo, organizar menino e tocar minha vida, consegui recordar a época em que passei o que minha filha está passando hoje. Quando eu precisei encarar de frente essa mudança. A saída de um colégio de bairro onde era conhecido pelo nome para um colégio grande onde um número me caracterizava. E tinha que dar sorte porque corria o risco de sair com o número 24. Aí era mudança com zoeira. Lembro-me do coração apertado quando saia ao pátio do colégio com aquelas “crianças” bem maiores do que eu. Procurava o canto seguro. Fazia-me de invisível. Até que achava os meus e íamos nos fazendo. Sobrevivendo. Adaptando juntos àquelas mudanças. Depois mais para frente outras mudanças. E mais outras. E começamos a nos acostumar. O coração se aperta menos. E depois começam as mudanças dos filhos e o nosso coração começa a se apertar de forma diferente. Por eles. Por saber o que se passa em suas mentes. Por conseguir sentir o acelerar de seus corações. Por estar passando por tudo isso de novo e saber que tudo isso vai passar. De novo. E de novo. Num processo de mudança e de adaptação. Um processo da vida.            

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

a dor une


A dor une

 

          Passando férias na Bahia, entre um mergulho e outro, o filho mais novo cortou o dedo em uma luminária da piscina na casa em que estávamos hospedados. Foi aquela sangueira. Todo mundo corre ao socorro. Cada vez que um olhava era aquela cara de espanto. O corte tinha sido profundo. Pega menino molhado mesmo e leva no pronto socorro. Vai aos prantos. Devia estar ardendo muito. Devia estar muito assustado. No pronto socorro a médica começa a explicar os danos. O corte tinha sido profundo e a articulação estava à mostra. A mãe começa a passar mal, seguida pelo pai (que sou eu) e logo após a tia que se dizia forte. A médica ficou sozinha em sua explicação e resolveu fazer um curativo. Indicou que o levássemos à Salvador para uma avaliação de especialista. Fomos.

Distância de uma hora. Remédio para dor aliviou o pranto do pequeno. Hospital no cetro da capital baiana. Aquele ritmo que todos conhecem. Pressa só amanhã. Avaliação da médica. Simpática. Raio-x do técnico. Gente boa. Sutura da equipe de enfermagem. Solícitos. Essa hora era a pior. O enfermo já vinha reclamando desde o ocorrido que não ia dar ponto. Que ia doer. Que iam passar um fio na sua pele. Agonia. Pois foi inevitável. Foi segurado por quatro pessoas incluindo o pai. Sempre dói mais no pai. O candidato a sutura em prantos. Nessa de segura e chora, aproximei-me do seu ouvido e tentei tirar sua atenção. Perguntei sobre o jogo do celular que ele era player. Ele, entre um choro e outro, explicava alguma coisa sobre o jogo. Não consegui dissuadi-lo totalmente da cena da costura, mas toda a coisa chegou ao fim. Finalmente. Todos parecendo que tinham levado surra de vara.

Nesse ponto nos lembramos da hora avançada da tarde e a falta de almoço de todos que estavam presentes. Voltando passamos em um shopping. No caminho para a praça de alimentação o pequeno me questionou: “Papai, aquela hora que você perguntou sobre o jogo estava só querendo me entreter ou realmente estava interessado?”. Nessa hora, além do espanto do uso da palavra “entreter” de maneira tão cabível, não tive coragem de falar que a intenção era o desvio da atenção. No mesmo momento, num ápice de consciência, pensei que seria interessante aprender com ele sobre o jogo. Um ponto de contato. Um elo de ligação.

Muitas gerações de pais se horrorizaram com as “modas” de seus filhos, como a febre da música, da TV e dos vídeo games sem mergulharem nesse mundo para entendimento do que se passava na mente dos filhos. A geração dos meus filhos mistura todos esses gêneros sob o manto da internet. Não posso e não devo simplesmente negar isso tudo sem entender. Essa oportunidade surgia a todo momento, mas era postergada sob desculpas muitas. Dessa vez não pude me omitir. Aquiesci. Abaixei a guarda. Pois então ele passou todo o passeio no shopping me explicando os personagens, cenários e fases do jogo. Entre uma mordida ou outra no sanduiche triplo foi me dando aula de tática. Eu, do lado de cá, ouvindo tudo atentamente. Não com a intenção de me tornar um exímio jogador, mas com o simples propósito de ficar mais perto do meu filho. A dor, ao final, acaba unindo.       

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 20 de janeiro de 2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

comédia romântica


Comédia Romântica

 

          Qual homem já não torceu a nariz quando a parceira bateu o pé para assistirem uma comédia romântica? Qual homem não preferiu, em sã consciência, um filme de ação? Garanto que isso aconteceu e ainda ocorre com muita frequência. Parece que esse gênero de filme não combina com a masculinidade, como se romance fosse inerente ao “sexo frágil”. Pois estava eu procurando um filme para assistir com os meus filhos e esposa quando me deparei com o clássico “Um lugar chamado Notting Hill”. Pois é. Tenho que confessar minha predileção por essa película. E faço aqui um desabafo em nome de uma grande porção do público masculino. Ele é quase uma unanimidade entre os homens. Por que? Essa é a pergunta que sempre me fiz quando, passando os canais da TV, me deparava com ele e me via compelido a assisti-lo. Independente do trecho em que se encontrava. Fora os personagens icônicos e a trilha sonora incrível, confesso que nunca tinha analisado com profundidade o anzol que me prendia a ele. Até que descobri quando resolvi assisti-lo com meu filho mais novo. Em determinado momento do filme, a protagonista representada por Julia Roberts com os olhos marejados de lágrimas, se dirige ao par romântico representado por Hugh Grant e diz o seguinte texto: “A fama é uma ilusão. Não se esqueça. Eu sou apenas uma garota, parada em frente a um garoto... pedindo para amá-la”. Foi nesse momento que o filho de 8 anos, de maneira espontânea, comentou: “Nossa... que profundo isso”. Pronto. Mais um homem estava fisgado pela estória romântica da atriz famosa que se apaixona pelo plebeu inglês. Ao avesso de tudo aquilo que costumamos ver em estórias de amor idealizadas. Ao invés da pobre moça que cai de amores pelo rico príncipe montado no cavalo branco, temos Ana Scott se apaixonando por Will Tracker. Tudo às avessas do que lemos nas clássicas estórias de amor. Talvez esse seja o grande mote do filme e o que atrai tão fortemente a natureza masculina. A inversão de um valor arraigado nas criações tanto de homens quanto de mulheres. Nem a menina criada para ser a moça pobre que espera o príncipe e nem o menino imbuído de se tornar o príncipe forte e rico. Nada disso. Uma troca saudável entre papeis para entendermos a desnecessidade de estereótipos quando se trata de relações humanas. Nada de obrigatoriedades que na maioria das vezes oprime e inibe a sensibilidade. Em tempos de casos flagrantes de machismo, talvez uma assistida em “Notting Hill” possa ser um sinal de que as coisas podem dar certo. Independente de finais felizes romanceados. Apesar de que quem não gostaria de terminar, ou começar, uma história de amor ao som de Elvis Costello entoando “She”? Quem nunca?         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 06 de janeiro de 2017

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

carta ao Papai Noel


Brasília 16 de dezembro de 2016

 

Ao Departamento de Pedidos de Natal - DPN

Sr. Santa Clauss

 

Primeiramente me desculpo pela missiva em tempo tão exíguo para o Natal, mas é que a coisa aqui está periclitante. Falta-me OXIGÊNIO se é que entendes. Estava indo tudo bem em minha vida enquanto o foco estava só sob o AMIGO do ITALIANO e do BOB. Era uma irmandade perfeita né caro velhinho? Digna de filme da máfia italiana. Até que aquele PRIMO danado andou a colocar fezes no ventilador. Toda família tem um dedo duro. A coisa foi tomando uma proporção tão grande que agora está fora de controle. Até tentei me afastar das más companhias como a WANDA andando de lado igual CARANGUEJO, mas não deu muito certo. Busquei JUSTIÇA do outro lado, mas como você mesmo sabe, não sou de todo SANTO. Apesar de que vou a MISSA de vez em quando. Passei até a torcer para o BOTAFOGO para ver se a barra aliviava para o meu lado, mas o povo anda querendo distância da minha pessoa. Não deixam eu trabalhar direito! Isso aqui está virando uma torre de BABEL. Ninguém se entende. Estamos mais por fora que umbigo de ÍNDIO. E eu achando que a grama do VIZINHO era mais verdinha. Ledo engano. Pegaram-me igual MINEIRINHO. De mansinho. Hoje estou impossibilitado de chupar CAJÚ, andar de FERRARI, visitar meu PRIMO (outro), tomar CAMPARI e até meu gato ANGORÁ querem decepar. Ou seja, tá difícil. De qualquer forma não sou de TODO FEIO então peço sua compreensão, caro amigo Noel, para o meu pedido. Simples e fácil. Gostaria de um corte de pano. Tá vendo quanta facilidade?! Mas precisa ser bem forte pois com ele vou amarrar os pés da PF, amordaçar o Ministério Público, vendar o Moro, atar as mãos do STF e guardar o resto para uma Tereza. Afinal sou um homem precavido e as janelas da Papuda são altas pra caramba.

          No mais estimo felicidades ao pançudo amigo e votos de um 2017 igual a Lapônia. Mais frio.     

          Atenciosamente,

         

          TREM SEM MEDO

 

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 16 de dezembro de 2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

a mais bela tribo


A mais bela tribo

 

          Aurélio Marmelo era nascido em Brasília. Nos idos da década de 80. Cresceu escutando a geração de bandas de garagem que floresceram na capital naquela época. Pura rebeldia. Se ele pudesse escolher uma música para chamar de sua seria “Índios”. Cantava toda a letra de frente para trás e de trás para frente. Acalentava o sonho de um dia trabalhar com indígenas. Lia e relia as histórias dos irmãos Vilas Boas e compartilhava o ideal de preservação daqueles que eram donos primários da terra brazilis. Sonho de criança que com o passar dos anos foi enfraquecendo e se tornando lembrança. Ali guardada no fundo do coração.

          Dr. Aurélio Marmelo se tornou juiz de direito. Dos combativos. Peito aberto em defesa da lei e da ordem. Por muitas comarcas passou até que lhe caiu no colo uma oportunidade que o fez recordar seu sonho de infância. Tinha chance de ser lotado em um local lá para o norte do país. No meio da floresta amazônica. Teria a oportunidade de se aproximar da cultura indígena que tanto lhe povoou a infância. De mala e cuia seguiu viagem. Fora as dificuldades inerentes ao local, trabalhava com afinco. Mas nada de índios. Até que um dia apareceu. Uma demanda de invasão de terra indígena por madeireiros. Era o que precisava. Com todo seu cabedal jurídico fez uma peça ímpar. Usou até trecho de sua música preferida. “Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante”. Estava orgulhoso do feito. Emitiu documento de reintegração de posse e imediatamente despachou para que fosse notificado o invasor e cumprida a liminar. Sem poder se conter de gozo, quebrando regras de segurança pessoal, pegou uma cópia do documento e foi até a tribo entrega-la pessoalmente. Foram dois dias de viagem até que chegasse ao seu destino. Esperara uma vida para ter aquela oportunidade e nada o impediria de vive-la.

          Cari Guarini foi o nome que recebeu quando chegou a tribo e explicou a todos os motivos de sua visita. Guerreiro branco era o que representava aquele forasteiro para os índios que ora comemoravam a vitória. Há muito sofriam com as constantes invasões dos madeireiros que destruíam sua floresta. Agora era momento de festa. E assim a tribo se voltou para comemorar e agradecer aquele branco que trazia alento ao povo tão sofrido. Foram dias e dias de festa. Assados de caça e bebida entorpecente. Dava gosto de ver um juiz de direito pintado com as cores indígenas e quase nu dançando em volta da fogueira. Parecia que voltava a ser criança. Não sabia nem distinguir os dias das noites de tanto torpor provocado pela bebida que lhe serviam constantemente. Um dia amanheceu amarrado a um tronco. Ainda não tinha recuperado totalmente sua altivez. Oscilava entre a consciência e o sono. Em seu estado mental confuso conseguiu ouvir do cacique que ele seria sacrificado e comido por toda a tribo. E que aquele ato deveria ser visto com grande honra pois só era realizado com grandes guerreiros. Em meio ao torpor e terror que tomou conta de Aurélio, as forças para reagir não lhe acudiram. Por final só conseguiu ver a fumaça da fogueira que era acesa para o seu banquete e escutou ao longe, bem ao longe, uma música que lhe soou familiar. “Quem me dera ao menos uma vez... como a mais bela tribo... dos mais belos índios... não ser atacado por ser inocente...”  

          Ronan Caveiro estava logo ali próximo, na espreita, para realizar o serviço encomendado. Trabalhava fazia muito de jagunço no negócio de extração de madeira. Não tinha muita noção da legalidade daquele trabalho, mas era o que enchia a barriga dos seus filhos. Assim, quando escutou do patrão, que um juizeco tinha emitido liminar para abandonarem as terras que estavam explorando, ficou possesso. Que mané ordem judicial o que? Aqui a lei é o riscado da minha espingarda. Assim sendo, convocou os outros companheiros do grupo e armaram tocaia na tribo. Iriam dar cabo de todos. Não sobraria nada para contar a história. Ali funcionava a lei da selva. Mas faria isso só daqui a pouco. Apesar de já ter visto o sinal de fumaça combinado com os companheiros para o início do ataque, ele esperava acabar uma música que escutava em seu rádio de pilha. Apesar de não gostar nenhum pouco de índios, admirava por demais aquela canção que tocava em meio a chiados de sintonia fraca. Quando acabar a música nós vamos para a lida. “Nos deram espelhos e vimos o mundo doente... tentei chorar e não consegui...”  

           

  

* essa é uma estória de ficção       

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 09 de dezembro de 2016