sexta-feira, 17 de novembro de 2017

sobre Leis e julgamentos


Sobre Leis e julgamentos

 

 

          Final de semana passado, como de costume, a esposa alugou um DVD para assistirmos. Sei que isso as vezes causa espanto, aluguel de DVD em plena era Netflix, mas lá em casa ainda utilizamos desse recurso. Sei que de repente me vi assistindo o tão alardeado “A Cabana”. Confesso que quando vi qual seria o filme escolhido me veio uma avalanche de pré-conceitos. Já havia escutado inúmeros comentários sobre o livro e o filme. Soava-me meio que suspense com auto ajuda religiosa. Tanto que não me atrevi a ler o livro. E a maior constatação de tudo isso é: como podemos errar no julgamento precipitado. Até em caso de acerto no ato de julgar, erramos por faze-lo antecipadamente. Por ouvir dizer. E por conta disso, da minha sentença premeditadamente errônea, paguei com lágrimas. E olha que chorei muito vendo esse filme.

           

          Como havia “ouvido” falar, realmente a história tem sua figura de linguagem principal sustentada em diálogos entre o protagonista e a Santíssima Trindade, quer seja, Pai, Filho e Espírito Santo. A princípio, para quem julgou o livro pela capa, parecia uma fantasia sem fim. Uma pretensão digna dos piores livros de autoajuda. Mas pasmem... foi a decisão mais acertada. A temática da estória versa sobre um pai que busca motivação para viver após a perda trágica da filha. E em volta dessa busca são envolvidos elementos como perdão, redenção, ódio, tristeza, paternidade, afeto e mil outros. E como abordar tantos temas transcendentes se não utilizar a base de conceitos abarcados pelo protagonista da estória? Seria como tentar ensinar um bebe a encaixar uma peça quadrada em um buraco redondo. Cada ser humano possui um cabedal de conhecimentos e conceitos que formam a base do seu entendimento. Qualquer ensinamento que não se encaixe nessa base será de imediato rechaçado. Com exceção, é claro, quando o ser se propõe a expandir sempre sua base de conhecimentos, ou quando cambia conceitos num processo de evolução. Mas isso já é uma outra história. Sei que, no meu modesto entendimento literário e cinematográfico, as figuras de linguagem foram acertadas e mais uma vez paguei com lágrimas meu estúpido pré-conceito. E como chorei.

         

          Quando achei que tinha visto de tudo, aparece a atriz Alice Braga protagonizando a Justiça. Mais uma vez bateu-me o senso crítico e irônico avisando que talvez não fosse muito sensato um brasileiro encarnado o personagem da justiça. Mas entendi de imediato que essa não era a mensagem. Pelo menos não a mensagem principal. Naquele momento o personagem estava dentro de uma simulação de julgamento e disparava suas sentenças de condenação. Condenava o pai, condenava o assassino da filha, condenava Deus. Condenava. Foi então que a “Justiça” lhe disse o que considero ser o cerne do filme: que o ser humano deveria confiar nas Leis Divinas. Que as falhas e erros só são sanados pela atuação das Leis. Podemos instituir tribunais legalmente perfeitos, mas nada restitui ao pai a perda de uma filha, nada devolve ao ofendido a sua honra, nada repõe ao agredido a sua integridade. Não quer dizer que não devamos ter as leis humanas que disciplinem a nossa sociedade. Não estou aqui falando em anarquia. Mas o erro está em procurar redenção nas leis humanas. A redenção deve ser procurada dentro de cada ser que comete o erro. Ninguém tem o poder de perdoar ninguém. E essa redenção de si mesmo não exime as sanções das Leis Universais. Não! Os erros são passíveis de consequências mesmo que tenhamos reconhecidos os mesmos, nos arrependido e nos redimido. Eis mais uma vez o cerne da questão. Devemos confiar nas Leis Divinas porque elas são inexoráveis, inflexíveis e principalmente justas. Aí está a justiça. E ela atua. Podem ter certeza.

 

          Ao final recomendo o filme fortemente. Sutil e sensível trás à baila conceitos universais sob o pano de fundo da religiosidade metafórica. Deu até vontade de ler o livro. De qualquer forma precisei escrever esse texto para tentar me redimir perante os muitos amantes de “A Cabana”, apesar de ter me tornado um deles. Errei. Precipitei meu julgamento. E como sempre as Leis atuaram em sua imparcialidade e paguei o erro com lágrimas. Mas quem nunca errou e pagou com lágrimas? Que a atire a primeira pedra.     

 

 

 

 Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 17 de novembro de 2017

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ser criança?


Ser Criança?

 

          Ontem eu fiz doze anos. Foi bem ontem. Muita gente me disse que com doze anos as coisas começariam a mudar. Então hoje acordei animado. Bem animado com as tais mudanças. Assim que abri os olhos comecei a observar. Estava do mesmo tamanho, o meu cabelo estava bagunçado como todas as manhas e o meu bafo continuava o mesmo... preciso escovar os dentes. Cadê as mudanças? Será que estavam debaixo do travesseiro? Cheguei a verificar se não estavam realmente debaixo do travesseiro. Darrrrhhh. Trouxa. Mas pensando bem, será que quero realmente mudar? Gosto tanto das minhas roupas. Que coisa difícil esse negócio de mudança. Não sei se quero ou não. Mas será que posso escolher? Tem algum botãozinho que eu possa apertar: “Não mudar, obrigado”? De todo modo como não teve mudança nenhuma é melhor eu levantar dessa cama, senão daqui a pouco meu pai vem me levantar à força. Porque eu tenho que sair da cama? Porque eu tenho que abandonar o meu edredom quentinho? Ele sente minha falta. O edredom. Coitadinho. Escutei barulho do meu pai. Melhor eu levantar. Vou fingir que estou espreguiçando. Será que meu pai vai acreditar? Será que meu pai acredita em mim ou ele finge que acredita? Às vezes acho que meus pais são espiões. Sabem até o que eu penso. Será que eu sei o que eu penso? Será que eu penso? Claro né! Darrrrhhh. Você aprendeu na escola que é um animal racional. Que pensa. Às vezes é tão bom não pensar. Por exemplo agora não quero pensar na escola. Melhor eu levantar porque senão atraso para a escola. E aí vou ter que esperar começar a segunda aula. E vou ganhar bronca. Porque adulto adora dar bronca em criança? Deixa estar que quando eu mudar ninguém mais vai me dar bronca. Eu que vou dar bronca. Vou dar bronca nos meus filhos. Não! Não vou dar bronca nos meus filhos! Vou deixar eles fazerem o que quiserem. Menos matar aula claro. Porque eles têm que aprender. Mas eu já sei tudo então porque preciso ir à escola? Queria saber quem inventou a escola. Garanto que ele não foi a escola. Nem à aula de Geografia. Não sei porque temos que estudar Geografia. Melhor eu levantar da cama antes que a geografia da voz do meu pai comece a me gritar. Pensando aqui, se eu acordo cedo, meu pai deve acordar ainda mais cedo. Porque ele arruma meu café. Tá certo que nem sempre ele acerta o que eu gosto. Mas ele tenta. E levanta mais cedo. Seria tão mais fácil se ele fizesse todo dia waffle com Nutella... Hummm deu água na boca. Se eu soubesse que ele tinha preparado meu café da manhã preferido levantava correndo dessa cama. Mas meu pai fala que Nutella não faz bem para minha saúde. Pior que ele deve ter razão. Meu pai sabe um monte de coisas. Até nó de marinheiro ele sabe. Mas é tão bom... a Nutella. Quase até melhor que o sorriso da Alice. O sorriso da Alice lambuzado de Nutella deve ser irresistível. E ela gosta de Geografia. Preciso estudar mais para poder impressionar na aula. Falar lá umas capitais. Uns relevos. Quem sabe a Alice olha para mim? Preciso pentear o cabelo hoje porque se ela me olha desse jeito vai se assustar. Não entendo porque penteamos o cabelo se depois bagunça tudo de novo. Falar em estado, estou quase em estado de pedra aqui nessa cama. E nem cresci o tanto que dizem que vou crescer. E nem começou a tal mudança. E nem veio a liberdade que disseram que viria. Estou achando que esse povo anda me enganando. Passando mel na minha boca. Melhor se fosse Nutella. Melhor se fosse a Alice na aula de Geografia. Melhor se eu crescesse logo e as mudanças trouxessem liberdade. Melhor se eu começasse a pensar em levantar dessa cama antes que meu pai venha aqui pela sexta vez. Melhor eu me preparar porque o dia vai ser punk. Ainda nem levantei e já estou cansado. Posso voltar para a cama?          

   

           

Guilherme Augusto Santana

santanagui@hotmail.com

06/10/2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Sobre Pareto e ervilhas


Sobre Pareto e ervilhas



          Determinada século atrás, um cidadão chamado Vilfredo Pareto percebeu que 20% das vagens plantadas em seu quintal, produziam 80% das ervilhas. Sendo o mesmo, provavelmente um apreciador de sopa de ervilhas, e entendendo não se tratar de uma coincidência, formulou uma teoria. Não sobre ervilhas, mas sobre economia, probabilidade, natureza e vida. Surgiu então uma das mais controversas e certas leis apresentadas até hoje pelo homem. O Princípio de Pareto. Se não está familiarizado com o que digo, logo esclareço através de exemplo.

          Imagine um estudante se preparando para a prova. Ele fez o dever de casa e participou das aulas sistematicamente. Quando se propõe a estudar para a prova, provavelmente gastará 20% do tempo disponível para tirar 80% da nota máxima. E o inverso também faz sentido, pois, estatisticamente, gastará 80% do seu tempo restante estudando para conseguir o restante dos 20% faltantes para a nota máxima. Ficou claro ou não?

          E agora vem a pergunta cabal: E o que isso tem a ver com a nossa vida, já que não somos produtores de ervilhas? Simples. O princípio de Pareto, se entendido de maneira mais ampla corrobora muito com outra lei. Mas dessa vez confeccionada pelo Criador. A Lei de Tempo. Se nós entendemos que para realizar bem uma tarefa, podemos gastar 20% do nosso tempo, em detrimento da perfeição da mesma tarefa, estamos de certa forma economizando 80% do tempo para realizar outras tarefas. Matematicamente parece perfeito né? Porém resta a pergunta de quando mirar a perfeição no ato e quando se contentar com o bom. Porque se levamos Pareto ao entendimento errôneo, podemos estar incorrendo em uma propensão danosa. A propensão ao fácil. Aí com certeza gastaremos 20% do nosso tempo para ter 20% de sucesso. Esse se chama princípio do preguiçoso. E com certeza não é esse o nosso objetivo. E também não é o objetivo passarmos a vida obstinados. Porque muitos não entendem a diferença entre persistência e obstinação. Sendo a primeira uma qualidade e a segunda uma deficiência. Ao final chego à conclusão própria (friso a individualidade da conclusão) de que os extremos infringem as Leis Universais e assim sendo geram sanções indesejadas. Facilidade e obstinação podem ser substituídos por persistência e ganho de tempo. Basta observar Pareto e as nossas ervilhas. As nossas, não as dos vizinhos.  

          Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 25 de agosto de 2017

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Top Five


Top Five

 

          Se tem uma coisa que eu gosto de ler são as famigeradas listas dos melhores. Se tem a palavra “top” eu já corro para discordar. Isso mesmo. Discordar. Porque as listas só têm duas características definitivas: Tentar simplificar algo mais complexo e causarem divergências. Mesmo assim, ciente do risco do clichê, irei empreender nessa seara. Hoje farei uma crônica com as cinco reformas que entendo serem essenciais ao nosso país. Segue o top five!

 

Five: Reforma Trabalhista !

          Não vou aqui citar datas das leis trabalhistas e nem entrar na esfera jurídica. Vou me ater ao custo que um trabalhador chega ao final do mês. É exorbitante. O que se recolhe de taxas, contribuições, impostos, auxílios e outros penduricalhos, chegam a custar quase o dobro do que se paga diretamente ao empregado. E pior, a maioria desse recurso simplesmente se esvai pelas frestas dos cofres públicos. Ou ainda pior, são utilizados em segmentos que em nada se relacionam com os trabalhadores. Tudo reflexo do nosso Estado paternalista que se arvora em “defesa” do elo mais fraco em detrimento do “bandido” capitalista. Ao final todos pagam a conta. Os empregados e os empregadores.

  

Four: Reforma Previdenciária !

Sabe pirâmide financeira? Aquela que os primeiros a entrar se dão bem e os últimos se f...? Pois é bem isso que se tornou nossa previdência. Não só porque o modelo se tornou obsoleto para a realidade que estamos vivendo no país hoje. Não. Mas muito por conta dos milhares de beneficiários que se penduraram nas tetas da previdência sem ter contribuído com um tostão. Não que essas pessoas, muitas carentes, não mereçam auxílio do Estado. Não de novo. Mas isso deveria entrar na conta da assistência social e não na da previdência.

 

Three: Reforma Tributária !

Todas as variações da letra “i” existem na legislação tributária brasileira. A análise combinatória não consegue mais resolver caso seja criado novo imposto. Já partiram inclusive para as alternativas taxas e contribuições. E, como no caso dos custos trabalhistas, não sabemos para que canto vai o dinheiro. Tem recurso dividido entre União, Estados, Municípios e corruptos. Não nessa mesma ordem. Pasmem que a figura mais importante dentro de uma empresa hoje é o contador e sua equipe, pois o trabalho de geração e recolhimento desse caminhão de impostos é hercúleo. Precisamos de simplificação e desoneração tributária para ontem. Quem paga a conta eu não preciso nem dizer né?

 

Two: Reforma Política !

 O mesmo tanto que tem de “i” no campo impostos, encontramos de “p” no campo político. Com certeza devemos estar no Guinness Book como país que tem a maior quantidade de partidos políticos da galáxia. E o pior de tudo é que a grande maioria não realiza o que lhe é de dever. Ficam orbitando em torno dos grandes partidos em busca de migalhas de poder numa relação simbiótica onde todos saem ganhando menos o eleitor brasileiro. Vivemos num hiato de regime igual pizza de domingo. Meio Presidencialista e meio Parlamentarista. Ao final não sentimos o gosto bom de nenhum dos dois sabores e amargamos com a confusão institucional.

 

One: Reforma Cultural !

  Vou chamar assim, mas na verdade deveria se chamar Reforma Pessoal. Porque essa tem que ser individual. Essa tem que reformar os conceitos morais do cidadão brasileiro sendo plasmado posteriormente na ética do trato com o semelhante. Resumindo: os nossos representantes não vieram de Marte e sim de dentro da nossa própria sociedade. Não adianta jogar a culpa do Estado, governantes, políticos, etc. sendo que fomos nós que os colocamos lá para nos representar. Se eles não têm ética e decência, com certeza a sociedade que os elevou aqueles cargos também não o tem. Necessitamos urgente de uma reforma nos conceitos, princípios e valores morais. E isso não se faz através de votação, emenda parlamentar ou projeto de lei. Se faz no interno de cada ser. E sem essa reforma não teremos nenhuma das outras citadas acima. Afinal não podemos colher morangos se plantamos abacaxi.

 

          Discorda? Então faça sua própria lista. Adoraria lê-la.

 

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 04 de agosto de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

caridade


Caridade

 

          Ele tinha conseguido tudo que um homem podia almejar. Nada lhe escapara a posse. Nem recursos materiais nem de notoriedade e respeito perante os seus. Só uma coisa o incomodava: Não era um caridoso convicto. Tinha apego demais. Guardava o que era seu a ferro e fogo. Era tão incomodado que um dia resolveu resolver. Saiu em peregrinação buscando solução para sua inquietação. Foi até as universidades mais aclamadas do planeta, buscou conselhos nos sábios desse mundo e nos de além-mundo. Nada de encontrar a tal fórmula que tanto o incomodava. Até que um dia ficou sabendo que no alto de uma montanha, lá bem no alto, vivia um velho sábio que teria a resposta às suas agruras. Não hesitou em empreender jornada e se encarapitar pelo arranha céu levando consigo toda a esperança de mudança.

Foram dias e noites de provação e privação pois a montanha era de todas a mais alta. Sem hesitar em seu propósito encontrou o homem a quem procurara ansiosamente, sentado na porta de sua cabana. Não mais que de repente foi se apresentando e logo dizendo de suas intenções naquela tão dificultosa peregrinação. O sábio esperou que aquele estranho vomitasse todas as suas façanhas e entranhas e muito calmamente perguntou se o viajante afoito tinha um copo. O candidato a caridoso respondeu afoitamente que sim e de imediato estendeu-lhe sua caneca que trazia pendurada na mochila. O sábio então pegou ao lado uma jarra grafada com a palavra “caridade” e fez menção de encher a caneca do homem. Porém nada havia na jarra e por isso o copo permaneceu vazio. Disse então ao viajante que descesse a montanha e pensasse sobre aquilo. O homem, meio decepcionado, seguiu a recomendação e descambou montanha abaixo. Passou dias a meditar sobre aquele mistério da jarra e da caneca. Quase fundiu a mente tentando entender o que aquela peça tinha a ver com seu desejo. Nada achou.

Não aguentando mais de ansiedade voltou a subir a montanha em busca de resposta para a misteriosa resposta que obtivera. Mesmo percurso feito com as mesmas dificuldades, achou o sábio no mesmo lugar. Derramou todos seus pensamentos e conclusões e não conclusões. O homem sábio esperou o dilúvio de dizeres e então, harmoniosamente, lhe disse que havia aprendido o primeiro segredo da caridade: “Não pode dar aos outros aquilo que você não tem”. E de imediato perguntou ao viajante se ele tinha um copo. Novamente o candidato estendeu-lhe a caneca. O sábio laçou mão da jarra da caridade e a entornou na caneca, vertendo na mesma, algumas moedas de pequeno valor que se depositaram no fundo. Sob o olhar incrédulo do viajante, o velho sábio ordenou que descesse a montanha e refletisse sobre aquilo. Obediente no propósito o homem cumpriu as ordens mesmo sem entender patavinas do que acontecia. Abaixou a cabeça e rompeu montanha abaixo.

A curiosidade o levou novamente a enfrentar as intempéries da jornada e buscar respostas para suas inquietações. Não entendia porque o sábio havia lhe dado aquelas moedas de valor insignificante sendo que abastado era por demais, consequentemente desnecessitando daquela “esmola”. E mais ainda curioso ficou em entender qual a relação daquele gesto com a tal caridade tão almejada. Logo que encontrou o sábio e verteu verborragicamente suas dúvidas, escutou, muito parcimoniosamente, que havia aprendido o segundo segredo da caridade: “Deve fazer o bem olhando a quem, para que tenha certeza que esse bem será realmente aproveitado”. Então o sábio de imediato, sem esperar e nem deixar que manifestasse reação, perguntou se o viajante tinha um copo. O homem ainda tonto lhe estendeu novamente a caneca. O sábio fez um furo no fundo da mesma e, lançando mão da mesma jarra, despejou um líquido dentro da caneca. Entregou ao dono e solicitou que ele descesse a montanha e refletisse. O homem se virou em retirada tentando a todo custo tampar o buraco para evitar que o liquido se esvaísse. Em vão. Na metade da travessia a caneca estava vazia. Concluiu que aquele líquido seria o elixir da caridade e que ele o havia deixado escapar. Apressadamente desceu a montanha e tratou de comprar uma caneca bem forte que evitasse a perda do precioso bálsamo. Pensou que na próxima vez o velho não o pegaria de jeito.   

Não tardou muito a empreender nova e decisiva subida. Após os mesmos percalços, deteve-se de novo com o velho e lhe contou, sob atropelos, que achava ter entendido a parábola ofertada pelo sábio. Foi então que escutou, generosamente, ter aprendido o terceiro segredo da caridade: “A mente de quem recebe a caridade tem que estar preparada para tal, senão o bem se perderá”. E antes que o sábio perguntasse se possuía um copo, o viajante lhe estendeu a nova caneca. Então, mais uma vez, o velho pegou a caridosa jarra e derramou um líquido dentro da caneca. Recomendou novamente que o viajante descesse a montanha e refletisse sobre aquilo. Não mais que depressa, convicto que possuía o elixir da caridade, o homem virou as costas e seguiu montanha abaixo. Na primeira curva se deteve e sorveu apoteoticamente o líquido da caneca. Não deixou nem uma gota para trás. Sentindo-se resoluto continuou a descida rumo aos portões da glória completa. Chegou ao pé da montanha semimorto.

          Por tempos permaneceu hospitalizado sem saber que mal o havia acometido. Nem o plantel de notórios médicos bem pagos puderam identificar as causas de despropositada enfermidade. Até que um dia, enquanto repousava em seu catre, a porta se abriu silenciosamente e por ela entrou o velho sábio. Sem ser notado pelos presentes que preocupados estavam em desfiar as notícias do dia, se dirigiu até a beira do leito de morte e fez sua pergunta de praxe pelo copo. O moribundo sem entender o proposito e juntando as escassas energias que lhe restavam, pegou na cabeceira a malfada caneca e estendeu ao velho. O mesmo retirou do alforje a jarra grafada com a tão almejada palavra “caridade” e despejou seu brilhante líquido dentro da caneca e a entregou ao enfermo. Ainda receoso pelos últimos acontecimentos, o homem hesitou em beber da caneca, mas em rápida análise de não haver nada mais a perder, o fez de um gole só. Nesse momento as cores voltaram a sua face e começou a sentir novamente os vigores de outrora. Foi então que o sábio, caridosamente, se aproximou do seu ouvido e disse-lhe docemente: “aprendeu o quarto e último segredo da caridade”. “É preciso ter consciência do bem antes de prodigá-lo. Caso contrário poderá estar doando a outrem, ao invés do elixir imaginado, um veneno letal”. Virou as costas e saiu silenciosamente pela porta como havia entrado, restando sobre o criado ao lado da cama, a jarra e a caneca.               

   

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 09 de junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

sem perdão


Sem perdão

 

          Você já se pegou em atrito com alguém, repleto de toda a razão do mundo, à esperar um pedido veemente de desculpas? Ou ao contrário, tendo cometido a falta, buscar do ofendido o sinal positivo de que suas desculpas foram aceitas? Garanto que os dois questionamentos já fizeram parte da vida da grande maioria dos que me leem. Até porque fomos criados assim né? Pedir desculpas e desculpar. Mas alguma vez já questionaram quais os pensamentos envolvidos nesse jogo do perdão? Vamos lá para um exercício.

         

Na situação em que você é o ofendido, não resta, na exigência de reparação por parte do ofensor, uma soberba indicando que está em um patamar superior? Do tipo: eu estou certo e o outro está errado. Já pensaram nisso? Ou do tipo: eu julguei o caso, condenei e o ofensor tem que se humilhar perante a mim para sua redenção. Não parece uma relação desigual? Soberba e humilhação entrando num processo de tentativa de reparação de erros. Vamos mais além. Quando você julga alguém infrator e impõe a ele pena de reparação, não estaria se sobrepondo as Leis Universais e “isentando” o ofensor de cumprir sanções de seus erros por uma absolvição do ofendido? Do tipo assim: eu estou te perdoando pelos seus erros para comigo e com isso ficará isento de sanções outras. Isso não parece muito com certas crenças religiosas que sancionam o perdão como absolvição máxima das consequências? Não estaria, nesse interim, se travestindo de Criador Supremo e detentor do poder sobre as Leis Universais? Vejamos então na outra face da moeda. E no caso do ofensor não reconhecer os erros cometidos não o levaria também a um processo de soberba ignorante? E sendo assim não estaria imputando ao ofendido a pena de injustiça?

         

As perguntas são muitas quando nos referimos ao assunto do perdão e da redenção dos erros, e ao final, restam poucas certezas. Das que restam, sem dúvida nenhuma, uma inexorável é a atuação da Lei de Consequência. Sem choro e nem vela. Erros tem consequências. E não existe ninguém que consiga “quebrar essa”. Nem as partes envolvidas e tampouco terceiros. Se disserem o contrário pode duvidar. Outra certeza é que para haver o perdão é necessário o reconhecimento do erro e o compromisso de mudança da conduta. Sem esse princípio basilar não tem reparação. Isso posto resta se despir de toda e qualquer soberba e humilhação. Assim as partes ficariam em mesmo patamar e poderiam resolver a contenda da melhor forma. E por fim entramos com dois fatores essenciais para o perdão: o esquecimento por parte do ofendido e o reconhecimento do erro e mudança de conduta por parte do ofensor. Voilà está pronta a fórmula do perdão. Fácil né? Antes fosse. Mas quem disse que evoluir como ser humano é fácil? Pensemos.

 

“... o verdadeiro perdão, aquele que redime, surge da consciência individual, quando quem incorreu em falta ou em erro se emenda. Esse é o perdão grato aos olhos de Deus, por ser o mais fecundo. Também o é aquele que se evidencia pelo esquecimento ou pela atenuação que discretamente se faz de uma falta; não assim o que se pronuncia da boca para fora, porque revela incompreensão e mesmo hipocrisia, pois geralmente está subordinado à submissão humilde do perdoado que o aceita.” (Gonzales Pecotche)

         

   

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 02 de junho de 2017

sexta-feira, 28 de abril de 2017

motivo para protesto não falta


Motivo para protesto não falta

 

          Quase todas as manhãs levo minha filha de onze anos à escola. De carona vai um colega e amigo na mesma idade. Pelo caminho muitas vezes vamos calados pelo sono de ambos ou batendo papo quando estão mais despertos. Hoje foi dia de conversa profunda. Protestos e greve geral. Suscitado pelo rádio que vai ligado e gritando as notícias do dia. Logo quiseram saber a motivação dos movimentos que se iniciaram nessa manhã de sexta. Como é do meu feitio não ser raso nas explicações, comecei nos meados da revolução francesa. Mas não pensem naquela história enfadonha e chata. Ao longo da retórica sempre incluo uns fatos marcantes para dar cara de filme de suspense, tipo a decapitação do rei francês e sua esposa, ou o fuzilamento do czar e sua família quando da revolução russa de 1917.

Isso posto, passei pela revolução industrial na Inglaterra e a exploração do trabalho humano, perpassei pelo governo Vargas e a promulgação das atuais leis trabalhistas, encaminhei-me pela ditadura militar e a proibição de manifestações populares, citei a redemocratização, eleição e impeachment de Collor (nessa parte frisei orgulhoso que, de rosto pintado de verde amarelo, tinha ido às ruas engrossar o coro dos “insatisfeitos”), cheguei à era Lula e o fortalecimento dos movimentos sindicais e finalizei no atual e fragilizado governo com as tão polêmicas reformas estruturantes.

Nesse ponto me ative em explicar a motivação do movimento proposto para hoje que seriam as reformas trabalhistas e previdenciária entre outros. Falei sobre cálculo atuarial, contribuição previdenciária, conquistas de direitos trabalhistas, longevidade da população brasileira e por fim, como numa conclusão histórica, refleti sobre o direito de protesto e de luta pelos direitos individuais e coletivos. Isso sem deixar de frisar, bem frisado, a minha opinião pela manifestação pacífica e ordeira.

Diante de toda essa miscelânea, notei-os um pouco atordoados com o excesso de informação, então perguntei se haviam compreendido. Eles responderam que era um assunto complexo mas que tinham captado grande parte da explicação. E de bate pronto um deles soltou a pérola: “se o protesto for contra a professora de geografia eu estou dentro”. O outro imediatamente manifestou apoio à causa e formou-se, ali naquele carro, um movimento grevista. Cada um com seu pleito.  

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 28 de abril de 2017