sexta-feira, 9 de junho de 2017

caridade


Caridade

 

          Ele tinha conseguido tudo que um homem podia almejar. Nada lhe escapara a posse. Nem recursos materiais nem de notoriedade e respeito perante os seus. Só uma coisa o incomodava: Não era um caridoso convicto. Tinha apego demais. Guardava o que era seu a ferro e fogo. Era tão incomodado que um dia resolveu resolver. Saiu em peregrinação buscando solução para sua inquietação. Foi até as universidades mais aclamadas do planeta, buscou conselhos nos sábios desse mundo e nos de além-mundo. Nada de encontrar a tal fórmula que tanto o incomodava. Até que um dia ficou sabendo que no alto de uma montanha, lá bem no alto, vivia um velho sábio que teria a resposta às suas agruras. Não hesitou em empreender jornada e se encarapitar pelo arranha céu levando consigo toda a esperança de mudança.

Foram dias e noites de provação e privação pois a montanha era de todas a mais alta. Sem hesitar em seu propósito encontrou o homem a quem procurara ansiosamente, sentado na porta de sua cabana. Não mais que de repente foi se apresentando e logo dizendo de suas intenções naquela tão dificultosa peregrinação. O sábio esperou que aquele estranho vomitasse todas as suas façanhas e entranhas e muito calmamente perguntou se o viajante afoito tinha um copo. O candidato a caridoso respondeu afoitamente que sim e de imediato estendeu-lhe sua caneca que trazia pendurada na mochila. O sábio então pegou ao lado uma jarra grafada com a palavra “caridade” e fez menção de encher a caneca do homem. Porém nada havia na jarra e por isso o copo permaneceu vazio. Disse então ao viajante que descesse a montanha e pensasse sobre aquilo. O homem, meio decepcionado, seguiu a recomendação e descambou montanha abaixo. Passou dias a meditar sobre aquele mistério da jarra e da caneca. Quase fundiu a mente tentando entender o que aquela peça tinha a ver com seu desejo. Nada achou.

Não aguentando mais de ansiedade voltou a subir a montanha em busca de resposta para a misteriosa resposta que obtivera. Mesmo percurso feito com as mesmas dificuldades, achou o sábio no mesmo lugar. Derramou todos seus pensamentos e conclusões e não conclusões. O homem sábio esperou o dilúvio de dizeres e então, harmoniosamente, lhe disse que havia aprendido o primeiro segredo da caridade: “Não pode dar aos outros aquilo que você não tem”. E de imediato perguntou ao viajante se ele tinha um copo. Novamente o candidato estendeu-lhe a caneca. O sábio laçou mão da jarra da caridade e a entornou na caneca, vertendo na mesma, algumas moedas de pequeno valor que se depositaram no fundo. Sob o olhar incrédulo do viajante, o velho sábio ordenou que descesse a montanha e refletisse sobre aquilo. Obediente no propósito o homem cumpriu as ordens mesmo sem entender patavinas do que acontecia. Abaixou a cabeça e rompeu montanha abaixo.

A curiosidade o levou novamente a enfrentar as intempéries da jornada e buscar respostas para suas inquietações. Não entendia porque o sábio havia lhe dado aquelas moedas de valor insignificante sendo que abastado era por demais, consequentemente desnecessitando daquela “esmola”. E mais ainda curioso ficou em entender qual a relação daquele gesto com a tal caridade tão almejada. Logo que encontrou o sábio e verteu verborragicamente suas dúvidas, escutou, muito parcimoniosamente, que havia aprendido o segundo segredo da caridade: “Deve fazer o bem olhando a quem, para que tenha certeza que esse bem será realmente aproveitado”. Então o sábio de imediato, sem esperar e nem deixar que manifestasse reação, perguntou se o viajante tinha um copo. O homem ainda tonto lhe estendeu novamente a caneca. O sábio fez um furo no fundo da mesma e, lançando mão da mesma jarra, despejou um líquido dentro da caneca. Entregou ao dono e solicitou que ele descesse a montanha e refletisse. O homem se virou em retirada tentando a todo custo tampar o buraco para evitar que o liquido se esvaísse. Em vão. Na metade da travessia a caneca estava vazia. Concluiu que aquele líquido seria o elixir da caridade e que ele o havia deixado escapar. Apressadamente desceu a montanha e tratou de comprar uma caneca bem forte que evitasse a perda do precioso bálsamo. Pensou que na próxima vez o velho não o pegaria de jeito.   

Não tardou muito a empreender nova e decisiva subida. Após os mesmos percalços, deteve-se de novo com o velho e lhe contou, sob atropelos, que achava ter entendido a parábola ofertada pelo sábio. Foi então que escutou, generosamente, ter aprendido o terceiro segredo da caridade: “A mente de quem recebe a caridade tem que estar preparada para tal, senão o bem se perderá”. E antes que o sábio perguntasse se possuía um copo, o viajante lhe estendeu a nova caneca. Então, mais uma vez, o velho pegou a caridosa jarra e derramou um líquido dentro da caneca. Recomendou novamente que o viajante descesse a montanha e refletisse sobre aquilo. Não mais que depressa, convicto que possuía o elixir da caridade, o homem virou as costas e seguiu montanha abaixo. Na primeira curva se deteve e sorveu apoteoticamente o líquido da caneca. Não deixou nem uma gota para trás. Sentindo-se resoluto continuou a descida rumo aos portões da glória completa. Chegou ao pé da montanha semimorto.

          Por tempos permaneceu hospitalizado sem saber que mal o havia acometido. Nem o plantel de notórios médicos bem pagos puderam identificar as causas de despropositada enfermidade. Até que um dia, enquanto repousava em seu catre, a porta se abriu silenciosamente e por ela entrou o velho sábio. Sem ser notado pelos presentes que preocupados estavam em desfiar as notícias do dia, se dirigiu até a beira do leito de morte e fez sua pergunta de praxe pelo copo. O moribundo sem entender o proposito e juntando as escassas energias que lhe restavam, pegou na cabeceira a malfada caneca e estendeu ao velho. O mesmo retirou do alforje a jarra grafada com a tão almejada palavra “caridade” e despejou seu brilhante líquido dentro da caneca e a entregou ao enfermo. Ainda receoso pelos últimos acontecimentos, o homem hesitou em beber da caneca, mas em rápida análise de não haver nada mais a perder, o fez de um gole só. Nesse momento as cores voltaram a sua face e começou a sentir novamente os vigores de outrora. Foi então que o sábio, caridosamente, se aproximou do seu ouvido e disse-lhe docemente: “aprendeu o quarto e último segredo da caridade”. “É preciso ter consciência do bem antes de prodigá-lo. Caso contrário poderá estar doando a outrem, ao invés do elixir imaginado, um veneno letal”. Virou as costas e saiu silenciosamente pela porta como havia entrado, restando sobre o criado ao lado da cama, a jarra e a caneca.               

   

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 09 de junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

sem perdão


Sem perdão

 

          Você já se pegou em atrito com alguém, repleto de toda a razão do mundo, à esperar um pedido veemente de desculpas? Ou ao contrário, tendo cometido a falta, buscar do ofendido o sinal positivo de que suas desculpas foram aceitas? Garanto que os dois questionamentos já fizeram parte da vida da grande maioria dos que me leem. Até porque fomos criados assim né? Pedir desculpas e desculpar. Mas alguma vez já questionaram quais os pensamentos envolvidos nesse jogo do perdão? Vamos lá para um exercício.

         

Na situação em que você é o ofendido, não resta, na exigência de reparação por parte do ofensor, uma soberba indicando que está em um patamar superior? Do tipo: eu estou certo e o outro está errado. Já pensaram nisso? Ou do tipo: eu julguei o caso, condenei e o ofensor tem que se humilhar perante a mim para sua redenção. Não parece uma relação desigual? Soberba e humilhação entrando num processo de tentativa de reparação de erros. Vamos mais além. Quando você julga alguém infrator e impõe a ele pena de reparação, não estaria se sobrepondo as Leis Universais e “isentando” o ofensor de cumprir sanções de seus erros por uma absolvição do ofendido? Do tipo assim: eu estou te perdoando pelos seus erros para comigo e com isso ficará isento de sanções outras. Isso não parece muito com certas crenças religiosas que sancionam o perdão como absolvição máxima das consequências? Não estaria, nesse interim, se travestindo de Criador Supremo e detentor do poder sobre as Leis Universais? Vejamos então na outra face da moeda. E no caso do ofensor não reconhecer os erros cometidos não o levaria também a um processo de soberba ignorante? E sendo assim não estaria imputando ao ofendido a pena de injustiça?

         

As perguntas são muitas quando nos referimos ao assunto do perdão e da redenção dos erros, e ao final, restam poucas certezas. Das que restam, sem dúvida nenhuma, uma inexorável é a atuação da Lei de Consequência. Sem choro e nem vela. Erros tem consequências. E não existe ninguém que consiga “quebrar essa”. Nem as partes envolvidas e tampouco terceiros. Se disserem o contrário pode duvidar. Outra certeza é que para haver o perdão é necessário o reconhecimento do erro e o compromisso de mudança da conduta. Sem esse princípio basilar não tem reparação. Isso posto resta se despir de toda e qualquer soberba e humilhação. Assim as partes ficariam em mesmo patamar e poderiam resolver a contenda da melhor forma. E por fim entramos com dois fatores essenciais para o perdão: o esquecimento por parte do ofendido e o reconhecimento do erro e mudança de conduta por parte do ofensor. Voilà está pronta a fórmula do perdão. Fácil né? Antes fosse. Mas quem disse que evoluir como ser humano é fácil? Pensemos.

 

“... o verdadeiro perdão, aquele que redime, surge da consciência individual, quando quem incorreu em falta ou em erro se emenda. Esse é o perdão grato aos olhos de Deus, por ser o mais fecundo. Também o é aquele que se evidencia pelo esquecimento ou pela atenuação que discretamente se faz de uma falta; não assim o que se pronuncia da boca para fora, porque revela incompreensão e mesmo hipocrisia, pois geralmente está subordinado à submissão humilde do perdoado que o aceita.” (Gonzales Pecotche)

         

   

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 02 de junho de 2017

sexta-feira, 28 de abril de 2017

motivo para protesto não falta


Motivo para protesto não falta

 

          Quase todas as manhãs levo minha filha de onze anos à escola. De carona vai um colega e amigo na mesma idade. Pelo caminho muitas vezes vamos calados pelo sono de ambos ou batendo papo quando estão mais despertos. Hoje foi dia de conversa profunda. Protestos e greve geral. Suscitado pelo rádio que vai ligado e gritando as notícias do dia. Logo quiseram saber a motivação dos movimentos que se iniciaram nessa manhã de sexta. Como é do meu feitio não ser raso nas explicações, comecei nos meados da revolução francesa. Mas não pensem naquela história enfadonha e chata. Ao longo da retórica sempre incluo uns fatos marcantes para dar cara de filme de suspense, tipo a decapitação do rei francês e sua esposa, ou o fuzilamento do czar e sua família quando da revolução russa de 1917.

Isso posto, passei pela revolução industrial na Inglaterra e a exploração do trabalho humano, perpassei pelo governo Vargas e a promulgação das atuais leis trabalhistas, encaminhei-me pela ditadura militar e a proibição de manifestações populares, citei a redemocratização, eleição e impeachment de Collor (nessa parte frisei orgulhoso que, de rosto pintado de verde amarelo, tinha ido às ruas engrossar o coro dos “insatisfeitos”), cheguei à era Lula e o fortalecimento dos movimentos sindicais e finalizei no atual e fragilizado governo com as tão polêmicas reformas estruturantes.

Nesse ponto me ative em explicar a motivação do movimento proposto para hoje que seriam as reformas trabalhistas e previdenciária entre outros. Falei sobre cálculo atuarial, contribuição previdenciária, conquistas de direitos trabalhistas, longevidade da população brasileira e por fim, como numa conclusão histórica, refleti sobre o direito de protesto e de luta pelos direitos individuais e coletivos. Isso sem deixar de frisar, bem frisado, a minha opinião pela manifestação pacífica e ordeira.

Diante de toda essa miscelânea, notei-os um pouco atordoados com o excesso de informação, então perguntei se haviam compreendido. Eles responderam que era um assunto complexo mas que tinham captado grande parte da explicação. E de bate pronto um deles soltou a pérola: “se o protesto for contra a professora de geografia eu estou dentro”. O outro imediatamente manifestou apoio à causa e formou-se, ali naquele carro, um movimento grevista. Cada um com seu pleito.  

         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 28 de abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

sobre baleias e outros animais



Sobre baleias e outros animais

 

          Esses dias atrás assisti novamente um filme que versa sobre os Beatles, onde um pai escandalizado, força o filho a cortar o cabelo por entender que aquele “visual” não era de gente séria. Na verdade, o cabelo imitava o corte do quarteto que arrasou o mundo do rock e arrastou multidões. Naquela época os garotos de Liverpool, segundo os mais conservadores, eram um mau exemplo para seus filhos e tudo que remetesse a eles deveria ser expurgado como má influência. Percebam bem, aos olhos estupefatos de hoje, o quão retrógrado e sem noção seria associar o rock e os Beatles a ruina da juventude. Percebem? Mas a maioria dos pais daquela época não percebeu e com isso viram em uma banda de rock a perdição de seus filhos.

          Várias coisas travestiram-se de ruina da juventude em determinados momentos da humanidade. Assim foi com o aparecimento das drogas e overdoses que ceifaram vidas tenras, levando pais a histeria coletiva e monitoramento constante. Foi assim também com o aparecimento da AIDS e a demonização dos grupos de risco e do suposto ganho do “amor livre”. E assim as gerações vão passando com seus jovens, que acham que os pais exageram, andando no limiar do risco e os pais, que acham que os filhos não têm responsabilidade, buscando cada vez mais mecanismos de controle.

          O que difere essa geração das demais é só uma coisa: a velocidade com que as novidades aparecem. A bola da vez é o tão propagado jogo da baleia azul. Já foi o saco na cabeça e já foi também a asfixia até o desmaio. E serão outros para frente. Esse fator diferencial, ou seja, a velocidade, que talvez leve os pais a maior desespero. Quando estão armando uma contraofensiva para derrotar o “mal”, aparece outro completamente diferente que exigirá outro esforço para buscar o antídoto. Sabem a causa disso? Do porque essa é uma batalha perdida? Pelo simples fato que estamos tratando as consequências e não as causas. Crianças que não tem conceitos, torna-se jovens suscetíveis e adultos incapazes. Como trataremos de um “inimigo” que reside dentro de nós e não fora? Porque ideias ruins sempre existiram na humanidade e não cessarão tão cedo. E a resposta está, no meu entendimento, na educação de nossas crianças e jovens. Dando a eles conceitos firmes e corretos. E não estou aqui falando de nada religioso e ideológico. Estou falando de conceitos universais como da família, do afeto, de Deus, de humanidade, de vida, de evolução. Conceitos que podem atuar como defesas mentais em nossas crianças e evitar que se deixem levar por qualquer fato estúpido e que atente contra seus princípios. Fora isso é enxugar gelo. Enquanto ainda estivermos preocupados em caçar baleias, continuaremos sendo caça do mundo cão.       

         

 Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 20 de abril de 2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O redentor


O redentor

 

          Seu Honestino era cidadão correto. Na acepção do termo. Cumpria com sua palavra independente da dificuldade. Nascido e criado na mesma cidade do interior, tinha crédito no mercado local. Tudo por conta da sua fama de cumpridor dos compromissos.

Certa feita se encantou por um rabo de saia. Enfeitiçou. Danou a cometer uns desatinos em nome da paixão. Eram presentes e mais presentes. A coisa foi ficando tão descontrolada que perdeu o fio da meada. Gastou mais do que conseguia ganhar. Mas pensava ser por uma boa causa. Usou o crédito que tinha no mercado e destampou comprar o amor da rapariga.

Eis que a menina, uma tal Ritinha, um dia anoiteceu e não mais amanheceu. Sumiu no mapa levando consigo os mimos de Seu Honestino. Pronto. Ia o amor e ficavam as dívidas. Foi duro reconhecer que tinha cometido um engano. Por um desatino de amor tinha botado a perder sua fama de honesto. E fama boa é coisa difícil de fazer e a ruim difícil de desfazer.

Tratou de abaixar a cabeça e se enfiar no trabalho. Reclamar que não ia adiantar. Se embrenhou no serviço e com muito suor conseguiu arrumar o recurso para saldar as amorosas dívidas.

Imediatamente se dirigiu ao primeiro estabelecimento em que tinha ficado devedor. Colocou as notas sobre o balcão e de sorriso aberto solicitou que fosse quitada sua dívida. O dono do estabelecimento lançou mão no dinheiro e guardou na caixa registradora, porém esclareceu ao pagador que seu nome só sairia da lista de caloteiros após a chancela de um cidadão especial. Seu Honestino por demais assustado com a prosa perguntou de quem se tratava o tal cidadão especial. Prontamente escutou a resposta que era uma pessoa incumbida pela autoridade maior de referendar todas as dívidas pagas. Estarrecido, Seu Honestino insistiu que o dinheiro estava ali para quitar a dívida e que o comerciante era testemunha pois já o colocara até na caixa registradora. Mas por outra vez escutou que seria necessário o aval do tal cidadão para que seu nome fosse excluído da mal afamada lista dos devedores.

Pisando duro Seu Honestino saiu do comércio e correu até outro em que também devia. Para sua surpresa o procedimento foi o mesmo. Necessitava do desgramado do redentor. Aquele que perdoaria suas faltas e erros. Acabrunhado com tamanho despautério, e sem mais nada a fazer que resolvesse a pendência, correu a procurar o dito caboco que poderia restabelecer sua fama de honesto. Depois de muito procurar achou o cidadão sentado na varanda de casa picando fumo. Casa grande e bonita que demonstrava ser o proprietário por demais abastado. Bateu palmas para anunciar a visita e foi logo explicando o problema. De imediato o homem perdoador lhe explicou que realmente aquela função era dele e que fazia de muito bom grado. Mas ao mesmo tempo, como sua ocupação era exclusivamente redimir as faltas alheias, faltava-lhe tempo para ganhar o próprio sustento, restando-lhe viver de doações dos bondosos perdoados. Seu Honestino, diante da pressa de se reestabelecer, tirou um maço de notas do bolso e o entregou ao homem que de imediato agradeceu e juntos, foram ao primeiro estabelecimento de que necessitava do perdão.

Entrando no comércio foi o redentor saldado pelo dono com entusiasmo. Sem delongas foi o devedor explicando o motivo da visita. De imediato o redentor confirmou que naquele momento o comerciante poderia retirar o nome de Seu Honestino da lista de mal pagadores e que todas as suas dívidas estavam perdoadas. O dono do estabelecimento de pronto atendeu e riscou o nome do dito caderno dos devedores. Foi quando, de soslaio, Seu Honestino viu que na mesma folha onde constava seu nome, coincidentemente estava escrito o nome do redentor. Pois que nem deu tempo dele se indignar com tamanha desdita, quando o comerciante num pulo só, driblando a vergonha, desferiu a pergunta: “Seu Redentor, já que o senhor está por aqui, não gostaria de quitar sua dívida também?”

   

 

* essa é uma estória de ficção

 

“Cada falta tem seu volume e suas consequências inevitáveis. Não percamos tempo em lamentações, nem sejamos ingênuos, crendo que existem meios fáceis de saldá-las. As leis não são infringidas impunemente; nem cometendo faltas, nem pretendendo livrar-se delas. Porém o homem pode, sim, redimir gradualmente suas culpas, mediante o bem que representa para si a realização rigorosa de um processo que o aperfeiçoe. Se esse bem é estendido aos semelhantes - quanto mais, melhor -, ficará assegurada a descarga da dívida.” (González Pecotche)

 

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 13 de abril de 2017

sexta-feira, 7 de abril de 2017

vai me desculpando


Vai me desculpando

 

          Aproveitando a onda de pedidos de desculpa e contrições públicas, venho através dessa missiva solicitar ao leitor o mesmo princípio da redenção. Não que o que me lê tenha esse poder, mas que ao menos faça seu papel de ouvinte do que tenho a expor. Dispo-me de toda e qualquer empáfia, e sem o auxílio de assessoria de imprensa, venho expor os motivos que me envergonham.

          Errei. Errei sim. E quem não o fez? Não que isso exima meu erro mas faço contraponto para expressar minha carga humana falível. Sei que muitos me condenarão, mas sou obrigado a lembrar que entre tropeços e acertos, me apresento como uma pessoa até legal. Que esse engano mortal não coloque na mente do leitor meu atestado de óbito pronto e assinado.

          Errei e por isso venho expor o fato. Minha geração não está acostumada com esse tipo de fato. Fomos criados sob outros moldes de atuação e por isso fui surpreendido pelo novo. E tudo que não temos o domínio, carece de compreensão por imperícia. Não que isso exima meus atos. Longe disso. Pelo contrário. Deveria ter visto há mais tempo que meu comportamento não era condizente com a mudança de tempos e conceitos e procurado aprender antes dos erros. Mas infelizmente isso não aconteceu e agora pago pela inadaptabilidade do meu ser.

          Peço desculpas a minha família, aos meus amigos e a todos aqueles que ofendi de certa forma com meu ato. Muito envergonhado estou nesse momento e essa confissão de dívida para com os lesados por meus atos, serve de nota promissória do meu propósito em mudar de atitude e caminhar do lado correto da estrada. Por isso mais uma vez peço desculpas. Nada reparará meus erros senão o propósito de melhorar minha conduta e realizar o bem em quantidade suficiente para apagar o mal que cometi.

          Gostaria de finalizar eximindo qualquer pessoa de erro acessório ou indução dos meus atos. Venho de livre vontade reclamar o ouvido e os olhos dos leitores para as minhas palavras de lamúria e ato de contrição. Ninguém senão eu próprio é responsável por tamanho descabimento. No caso o de ter assistido todas as 17 edições do Big Brother Brasil. Um erro lastimável que fere minha conduta ora expressa em minhas crônicas. Mais uma vez peço desculpas, lançando mão de atenuante para meu pecado, qual seja, o de nunca ter votado na eliminação. Nem por telefone, nem pela internet. Pelo menos isso. No mais peço deferimento.

 

  

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 07 de abril de 2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

Saudades minhas


Saudades minhas

 

Se quiser ter um encontro com a melancolia, que leia essas palavras. Senão, que passe a outro post ou artigo que seja, porque hoje estou saudoso.

Mas não vou falar exclusivamente de saudade. Não. Vou falar de família. Daquelas que vivia grudada. Igual carne e unha. Fazia viagem para praia. Qualquer que fosse. Tendo lugar para ficar ou não. Indo para longe impreterivelmente pegava também uma temporada de hospital. Tudo junto e misturado. De uma forma que não se sabia onde começava os filhos de um e onde terminava os dos outros. Todos éramos filhos e pais de todos. Feito carne e unha eu já disse. Repito para que me ouçam com os três ouvidos. Conta o do coração também. Falei de família e me voltou o assunto da saudade. Porque estão umbilicalmente ligados. E como há muito desmamado, hoje sente falta do amparo. Saudades daquela família.

Mas não vou falar só de saudade. Não. Vou falar de amizade. Daquelas resistente igual aroeira. Cerne duro. Ia para a fazenda. Se espremia tudo em pequenos quartos. Importante era estar junto. Assuntos mil na cozinha cheirando coisa boa. Pamonha, chuva mansa, cheiro de terra molhada. Verde que te quero verde. Amizade é que nem lavoura. De qualquer tipo que seja. Precisa semente. Precisa terra. Precisa adubo. Precisa água. Precisa afeto. Tudo cultura. Mas amizade é planta rara. Difícil de dar fruto. Mas quando tratada com carinho cresce que é uma beleza. Independente da fraqueza da terra ou da escassez da chuva. Mas tem as pragas. Traiçoeiras. Roubam a força da planta. Falei de amizade e me veio de novo a tal saudade. Porque amigo sente dessas coisas. E quando apartado está não para de pensar se junto irmanado estivesse. Saudades daquela amizade.

Mas não vou falar somente de saudade. Não. Vou falar de alegria. Daquelas sorridentes como a luz do dia. Igual arco íris depois da chuva. Falou de alegria lembrei de festa. Quer coisa melhor? Com comida, sem comida, com música, sem música, com motivo e sem motivo. Mas nunca sozinhos. Sempre aquela família amiga. Recorda? A felicidade era marcada parecido cicatriz. Mas de corte bom. Cicatriz na alma. Mas alegria requer sorriso. Precisa compreensão. Necessita paciência. Repele a tristeza. Porque essa, não se engane, está à espreita. Pronta para dar o bote. E quando monta de galope, não tem quem segure. Falei de alegria e eis que surge teimosa a saudade. De um tempo que risos transbordavam. Saudades daquela alegria.

Mas não vou falar exclusivamente de saudade. Não. Corre risco de ficar monótono. Coisa que é visceralmente melancólica. Mudemos de assunto. Vou falar de tempo. Aquele emprestado por Caetano: Tempo, tempo, tempo, tempo. Compositor de destinos. Tambor de todos os ritmos. Aquele que passa sem avisar. Aquele que me lembra da fugacidade da vida. Aquele que me recorda do Criador. A Lei do Tempo. Universal e inflexível. Será que ainda temos todo tempo do mundo? Ou será que sinto saudade do tempo que já se passou no meu mundo? Ou será que percebo que o tempo que resta em meu mundo, não terá mais o meu mundo? Aquela família. Aquela amizade. Aquela alegria. Eu já ia falando do tempo mas a saudade bateu a porta. Ela quer entrar. Eu deixo. Quem sabe ela me traga tempo. O tempo que não volta mais.

 

Guilherme Augusto Saudoso Santana

Sexta chuvosa do último dia de março do ano de 2017