sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

sobre mudanças, ansiedade e adaptação


Sobre mudanças, ansiedades e adaptação

 

          Para aqueles que tem filhos em idade escolar essa semana foi o rebuliço. Um balde de água fria nas férias. A volta ao bendito (ou maldito, como queira) ciclo das aulas. Se não bastasse ter que acordar mais cedo por conta dos horários das escolas, temos que acordar de madrugada por conta do horário de verão. Mas isso é um outro assunto. O que importa é o recomeçar. Professores novos, colegas novos, matérias novas, materiais escolares novos, dívidas novas para quem compra o material escolar novo. Tudo junto e misturado numa semana que deve chegar ao fim com alguns nocautes e vários feridos que iniciam o processo de adaptação desse novo ciclo.

          Aqui em casa temos um recomeço ainda maior. A troca da escola da filha mais velha. Apertem os cintos que vai subir. Contabilizem comigo. Um filho em cada escola. Escolas relativamente longe uma da outra. Horários de entradas diferentes. Horário de saída com diferença de quase hora. Matérias escolares que se multiplicaram igual Gremilin quando é molhado. Até acertarmos o horário já quase acabou o semestre. Agora se para nós adultos, a mudança gera um transtorno e requer uma adaptabilidade, o que dirá da mente de uma criança? O que e como se processa em seus pensamentos diante de um giro vertiginoso como esse? Saindo de uma escola pequena onde a acolhida era afetuosa para uma escola, até então, incerta. Logo ela perceberá que os mundos não são assim tão diferentes e a Lei de Evolução vai tratar de fazer a transição que tanto aterroriza. Mas isso só acontecerá depois de muita unha roída, muito cabelo arrancado, muita lágrima vertida e muita espinha aparecida.   

          Ansiedade foi a palavra mais falada essa semana aqui pelas minhas redondezas. De filhos, pais e irmãos. Diria até de avós e tios. De cachorros também. Todo mundo em estado de nervos alterado. A mudança provoca esse efeito. A inércia nos acomoda no nosso mundinho e muitas vezes sussurra ao nosso ouvido maldizendo o novo. Mas com o passar dos anos a experiência ajuda a bloquear esses maus agouros e nos faz entender que a mudança é salutar. É essencial. Como o ciclo da vida. Entre acordar mais cedo, organizar menino e tocar minha vida, consegui recordar a época em que passei o que minha filha está passando hoje. Quando eu precisei encarar de frente essa mudança. A saída de um colégio de bairro onde era conhecido pelo nome para um colégio grande onde um número me caracterizava. E tinha que dar sorte porque corria o risco de sair com o número 24. Aí era mudança com zoeira. Lembro-me do coração apertado quando saia ao pátio do colégio com aquelas “crianças” bem maiores do que eu. Procurava o canto seguro. Fazia-me de invisível. Até que achava os meus e íamos nos fazendo. Sobrevivendo. Adaptando juntos àquelas mudanças. Depois mais para frente outras mudanças. E mais outras. E começamos a nos acostumar. O coração se aperta menos. E depois começam as mudanças dos filhos e o nosso coração começa a se apertar de forma diferente. Por eles. Por saber o que se passa em suas mentes. Por conseguir sentir o acelerar de seus corações. Por estar passando por tudo isso de novo e saber que tudo isso vai passar. De novo. E de novo. Num processo de mudança e de adaptação. Um processo da vida.            

           

Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 27 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

a dor une


A dor une

 

          Passando férias na Bahia, entre um mergulho e outro, o filho mais novo cortou o dedo em uma luminária da piscina na casa em que estávamos hospedados. Foi aquela sangueira. Todo mundo corre ao socorro. Cada vez que um olhava era aquela cara de espanto. O corte tinha sido profundo. Pega menino molhado mesmo e leva no pronto socorro. Vai aos prantos. Devia estar ardendo muito. Devia estar muito assustado. No pronto socorro a médica começa a explicar os danos. O corte tinha sido profundo e a articulação estava à mostra. A mãe começa a passar mal, seguida pelo pai (que sou eu) e logo após a tia que se dizia forte. A médica ficou sozinha em sua explicação e resolveu fazer um curativo. Indicou que o levássemos à Salvador para uma avaliação de especialista. Fomos.

Distância de uma hora. Remédio para dor aliviou o pranto do pequeno. Hospital no cetro da capital baiana. Aquele ritmo que todos conhecem. Pressa só amanhã. Avaliação da médica. Simpática. Raio-x do técnico. Gente boa. Sutura da equipe de enfermagem. Solícitos. Essa hora era a pior. O enfermo já vinha reclamando desde o ocorrido que não ia dar ponto. Que ia doer. Que iam passar um fio na sua pele. Agonia. Pois foi inevitável. Foi segurado por quatro pessoas incluindo o pai. Sempre dói mais no pai. O candidato a sutura em prantos. Nessa de segura e chora, aproximei-me do seu ouvido e tentei tirar sua atenção. Perguntei sobre o jogo do celular que ele era player. Ele, entre um choro e outro, explicava alguma coisa sobre o jogo. Não consegui dissuadi-lo totalmente da cena da costura, mas toda a coisa chegou ao fim. Finalmente. Todos parecendo que tinham levado surra de vara.

Nesse ponto nos lembramos da hora avançada da tarde e a falta de almoço de todos que estavam presentes. Voltando passamos em um shopping. No caminho para a praça de alimentação o pequeno me questionou: “Papai, aquela hora que você perguntou sobre o jogo estava só querendo me entreter ou realmente estava interessado?”. Nessa hora, além do espanto do uso da palavra “entreter” de maneira tão cabível, não tive coragem de falar que a intenção era o desvio da atenção. No mesmo momento, num ápice de consciência, pensei que seria interessante aprender com ele sobre o jogo. Um ponto de contato. Um elo de ligação.

Muitas gerações de pais se horrorizaram com as “modas” de seus filhos, como a febre da música, da TV e dos vídeo games sem mergulharem nesse mundo para entendimento do que se passava na mente dos filhos. A geração dos meus filhos mistura todos esses gêneros sob o manto da internet. Não posso e não devo simplesmente negar isso tudo sem entender. Essa oportunidade surgia a todo momento, mas era postergada sob desculpas muitas. Dessa vez não pude me omitir. Aquiesci. Abaixei a guarda. Pois então ele passou todo o passeio no shopping me explicando os personagens, cenários e fases do jogo. Entre uma mordida ou outra no sanduiche triplo foi me dando aula de tática. Eu, do lado de cá, ouvindo tudo atentamente. Não com a intenção de me tornar um exímio jogador, mas com o simples propósito de ficar mais perto do meu filho. A dor, ao final, acaba unindo.       

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 20 de janeiro de 2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

comédia romântica


Comédia Romântica

 

          Qual homem já não torceu a nariz quando a parceira bateu o pé para assistirem uma comédia romântica? Qual homem não preferiu, em sã consciência, um filme de ação? Garanto que isso aconteceu e ainda ocorre com muita frequência. Parece que esse gênero de filme não combina com a masculinidade, como se romance fosse inerente ao “sexo frágil”. Pois estava eu procurando um filme para assistir com os meus filhos e esposa quando me deparei com o clássico “Um lugar chamado Notting Hill”. Pois é. Tenho que confessar minha predileção por essa película. E faço aqui um desabafo em nome de uma grande porção do público masculino. Ele é quase uma unanimidade entre os homens. Por que? Essa é a pergunta que sempre me fiz quando, passando os canais da TV, me deparava com ele e me via compelido a assisti-lo. Independente do trecho em que se encontrava. Fora os personagens icônicos e a trilha sonora incrível, confesso que nunca tinha analisado com profundidade o anzol que me prendia a ele. Até que descobri quando resolvi assisti-lo com meu filho mais novo. Em determinado momento do filme, a protagonista representada por Julia Roberts com os olhos marejados de lágrimas, se dirige ao par romântico representado por Hugh Grant e diz o seguinte texto: “A fama é uma ilusão. Não se esqueça. Eu sou apenas uma garota, parada em frente a um garoto... pedindo para amá-la”. Foi nesse momento que o filho de 8 anos, de maneira espontânea, comentou: “Nossa... que profundo isso”. Pronto. Mais um homem estava fisgado pela estória romântica da atriz famosa que se apaixona pelo plebeu inglês. Ao avesso de tudo aquilo que costumamos ver em estórias de amor idealizadas. Ao invés da pobre moça que cai de amores pelo rico príncipe montado no cavalo branco, temos Ana Scott se apaixonando por Will Tracker. Tudo às avessas do que lemos nas clássicas estórias de amor. Talvez esse seja o grande mote do filme e o que atrai tão fortemente a natureza masculina. A inversão de um valor arraigado nas criações tanto de homens quanto de mulheres. Nem a menina criada para ser a moça pobre que espera o príncipe e nem o menino imbuído de se tornar o príncipe forte e rico. Nada disso. Uma troca saudável entre papeis para entendermos a desnecessidade de estereótipos quando se trata de relações humanas. Nada de obrigatoriedades que na maioria das vezes oprime e inibe a sensibilidade. Em tempos de casos flagrantes de machismo, talvez uma assistida em “Notting Hill” possa ser um sinal de que as coisas podem dar certo. Independente de finais felizes romanceados. Apesar de que quem não gostaria de terminar, ou começar, uma história de amor ao som de Elvis Costello entoando “She”? Quem nunca?         

   

           Guilherme Augusto Santana

Goiânia, sexta feira 06 de janeiro de 2017