sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A escolha de Sofia

aos que acompanham as vivências de um coveiro, segue uma do fundo da alma.

boa e chuvosa sexta a todos.


A ESCOLHA DE SOFIA





Depois que comecei a trabalhar no setor funerário, adquiri um hábito que tem deixado minha vida mais saudável e por conseqüência, mais feliz. Procuro não sair de casa de manhã antes que meus filhos acordem. Abraço-os sempre com muito entusiasmo. Pergunto como dormiram, apesar da resposta ser sempre a mesma. Pergunto se querem uma mamadeira, apesar de também saber que a resposta é certa. Depois disso me despeço e os deixo com suas atividades infantis. O sorriso estampado na face. No caso o meu sorriso. Pode parecer fato cotidiano, mas faz uma grande diferença. Recarrego minhas baterias afetivas e aproveito cada sentimento puro que emana deles. A relação do hábito adquirido com meu trabalho é obvia e entendo que não preciso discorrer muito sobre o assunto. Limito-me a dizer que já presenciei muitas separações definitivas e a dor que isso causa nas pessoas. Já que não podemos escolher como morreremos, podemos ao menos escolher como viveremos. E é exatamente esse o assunto que tratarei hoje: escolhas.

Essa semana me senti a própria Sofia do filme estrelado por Meryl Streep. Diante de uma escolha crucial e dilacerante. Aquela escolha que pai ou mãe nenhum gostaria de fazer. Aquela que causa arrepio a qualquer ser vivente. Qual filho abandonar? Qual dos filhos é o mais apto a sobrevivência? Quais as conseqüências permanentes dessa separação? Vou conseguir viver com essa dor? Calma a quem está achando que precisarei separar-me de Helena e Otávio. Não é isso. Estou me reportando à esfera profissional. Deixar um filho empresarial em detrimento de outro. Guardadas as devidas proporções, entendo que a sensação de perda e dor é profunda. Imaginem descobrir, planejar, gerir, dar a luz, embalar, alimentar, ensinar, amparar, dedicar e amar um empreendimento como um filho. Imaginaram? Agora imaginem ter que abandoná-lo em detrimento de outro filho que nasce, porque os dois juntos geram conflitos de interesses. Imaginaram? É essa a sensação. É essa a perda. E agora Sofia?

Essa semana, mais do que as outras, retardei minha saída de casa pelas manhãs. Curti cada sorriso e cada dengo. Medo. Medo de um dia ter que fazer uma escolha. Medo de um dia ter que abandonar um dos meus. Reflexo natural de pai que quer manter as crias debaixo da asa. Mas sei que escolhas estão por vir. São inevitáveis. E que ma maioria das vezes não dependem dos pais. Eles, os filhos, farão as escolhas. E cabe aos pais aconselhar e apoiar. E principalmente cabe a adaptabilidade de enfrentar as escolhas de peito aberto, porque um dia nos também as fizemos e de certa forma nos separamos de nossos pais. Temos que estar disposto a seguir vivendo. Mas enquanto as escolhas dependem de mim, opto por abraçá-los a cada manhã como se fosse a última vez. E torcendo sempre para que não seja.    





    



Guilherme Augusto Santana

14/10/ 2011

2 comentários:

  1. Engraçado que essa situação se inverte depois que crescemos e saímos de casa. Eu mesma fui fazer faculdade em outro Estado, aos 18 anos. Larguei tudo em Goiânia e fui morar em Palmas-TO. Voltei praticamente noiva, mas morei com meus pais por um ano inteirinho. Claro que retornar ao lar em que fui criada não foi a situação mais agradável, mas sobrevivemos felizes.

    Fiquei noiva, casei logo em seguida, e mudei pra minha própria casa.

    Aí é que o bicho pega... a minha preocupação com meus pais parece aumentar com o passar dos dias. Minha mãe passou mal e foi para o hospital. Lembro que fiquei tão preocupada que não trabalhava direito, não dormia direito e a cada visita que fazia no hospital, beijava e a abraçava como se fosse a última vez que fazia aquilo. Era um misto de alegria, por abraçar, e tristeza, por medo de ser a última vez.

    Exageros à parte, minha mãe ficou boa e voltou pra casa em menos de uma semana. Aquilo fora um susto.

    Outro fato é meu pai ter diabetes. Ele sabe disso há uns 3 anos e eu acompanhei de pertinho. Foi justamente quando voltei a morar com eles. Passei a fiscalizar a dieta dele, lá em casa nem era permitido entrar açúcar. Virei mãe, entende?

    Muito engraçado isso... hoje sou eu quem vou dormir e penso nos meus véquios (que não são velhos. O pai tem 47 e a mãe, 45). Eu me preocupo se eles falam que vão ligar e não ligam, eu me estresso se eles saem pra barzinhos todos os dias, eu que adoro acordar cedinho e ir pra cama deles dar aquele beijo e abraço que tenho certeza, seus filhos te dão.

    Ufa. Um comentário que virou um texto. Mas fica aqui meus parabéns por ter me lembrado do tanto que é bom ser filha dos meus pais.

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  2. Seja qual for sua escolha, desejo sucesso!!! Sempre!!!!

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